As notícias sobre a intervenção dos Estados Unidos em território venezuelano centraram-se em Nicolás Maduro, cuja acusação e detenção já pareciam um desfecho previsível. No entanto, a detenção de sua esposa, Cilia Flores, acusada individualmente, como responsável direta e com agência própria, introduziu um elemento distintivo na operação. O papel da primeira-dama costuma ser apresentado como uma função meramente simbólica. No entanto, a história política latino-americana mostra que esse espaço tem sido, em muitos casos, um terreno essencial para a acumulação de poder. Desde o antecedente emblemático de Eva Perón, cuja influência deu origem a uma dinâmica inédita de liderança dupla ao lado do presidente argentino, a figura, e muitas vezes a personalidade, da primeira-dama soube se reinventar e se adaptar em diferentes contextos, tanto democráticos quanto ditatoriais.
Hoje, as primeiras-damas continuam desempenhando diversos papéis nos governos. Algumas se limitam a tarefas protocolares; outras assumem um perfil social; e muitas participam ativamente da promoção de políticas públicas alinhadas com a agenda oficial, construindo influência e capital político próprios. Várias delas optaram por se candidatar a cargos eletivos, chegando inclusive a ocupar a presidência, como ocorreu na Argentina e em Honduras.
Cilia Flores se encaixa perfeitamente nesse grupo de primeiras-damas influentes caracterizadas por uma liderança dupla. Ela contava com uma sólida experiência política prévia; ou seja, seu protagonismo não começou com a chegada de seu marido ao poder. Advogada e líder histórica do chavismo, Flores ocupou cargos centrais no Estado venezuelano: foi deputada da Assembleia Nacional entre 2006 e 2011, procuradora-geral da República entre 2012 e 2013 e membro da Assembleia Nacional Constituinte em 2017. Ela também foi responsável por empossar Hugo Chávez como presidente. Vários analistas afirmam que, a partir desses cargos e como primeira-dama, ela exerceu uma influência significativa sobre a administração pública e o sistema judicial, particularmente nos processos de nomeação de juízes e promotores, o que contribuiu para consolidar as lealdades internas do chavismo e enfraquecer a independência do Poder Judiciário.
Com a chegada de Nicolás Maduro à presidência, Cilia adotou o título de “primeira combatente”. A denominação não foi um detalhe menor. Por um lado, reforçou a linguagem e a épica da revolução bolivariana; por outro, evitou o uso do termo “primeira-dama”, já que naquele momento o casal não era formalmente casado. Ao mesmo tempo, o conceito dialoga com uma tradição regional de primeiras-damas que buscaram ressignificar seu papel político, como Eva Perón, conhecida por diversos apelidos, entre eles “a primeira trabalhadora”, “eterna vigia da Revolução” ou “escudo de Perón”, ou Cristina Fernández de Kirchner, que pediu para ser chamada de “primeira cidadã”.
O caso de Cilia Flores também não constitui uma exceção dentro de um fenômeno regional mais amplo. Na América Latina, várias primeiras-damas foram investigadas ou processadas judicialmente por casos de corrupção e crimes financeiros em regimes democráticos. O caso mais recente é o de Nadine Heredia, primeira-dama do Peru entre 2011 e 2016, condenada a 15 anos de prisão e atualmente asilada no Brasil. A isso se somam casos em Honduras, Guatemala e El Salvador, onde esposas de presidentes foram acusadas de financiamento ilegal de campanhas, lavagem de dinheiro ou uso indevido de fundos públicos.
Em 2015, a Administração para o Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA) deteve dois sobrinhos de Flores por crimes vinculados ao narcotráfico, em um caso que marcou um ponto de inflexão em sua exposição pública. Desde então, ela reforçou um perfil público mais discreto, com ênfase no tradicional e no familiar, visível em seu programa de televisão Con Cilia en familia, transmitido pela televisão estatal. Flores foi alvo de sanções por parte de vários países, incluindo Estados Unidos, Canadá, Panamá e Colômbia, que a associaram à erosão da democracia e às redes de corrupção na Venezuela, o que se traduziu em restrições de entrada e congelamento de bens para ela e para membros de seu círculo familiar.
Apesar desse isolamento internacional, Flores seguiu desempenhando um papel institucional forte e influente no regime até o início de 2026, quando, em 3 de janeiro, foi presa em Caracas, com Maduro, durante uma operação das forças estadunidenses. Ambos foram transferidos para Nova York, onde enfrentam acusações federais por narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína e outros crimes relacionados ao narcotráfico perante um tribunal do Distrito Sul de Nova York, o que colocou em evidência não apenas sua trajetória pessoal, mas também as estruturas de poder que ela representava na ditadura venezuelana. Ela fazia parte de um círculo intimamente ligado ao núcleo do regime, onde sua voz e sua proximidade com Nicolás Maduro moldaram durante anos as dinâmicas internas e as políticas públicas.
A prisão de Cilia Flores volta a colocar em destaque um cargo institucionalmente opaco nos governos presidencialistas: a figura da primeira-dama, cuja margem de ação e corrupção se ampliam em contextos autoritários, como também ocorreu com Lucía Hiriart de Pinochet no Chile. Mas isso também afeta as democracias, pois se trata de um papel sem definição legal precisa, sem controles administrativos claros nem mecanismos eficazes de prestação de contas. Essa ambiguidade institucional permitiu que, em diferentes países e regimes, as esposas dos presidentes acumulassem influência e capacidade de intervenção à margem das estruturas formais do Estado, o que possibilitou que algumas primeiras-damas exercessem poder real, com alta visibilidade e gravidade política, mas sem responsabilidades institucionais. Enquanto esse vazio persistir, a primeira-dama continuará sendo uma figura tão influente quanto estruturalmente controversa na administração pública.
Tradução automática revisada por Isabel Lima











