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‘Hondurasgate’ e a tragédia do alinhamento automático na América Latina

As revelações expõem uma rede transnacional de desinformação e pressões políticas que reabre o debate sobre a dependência da América Latina em relação a Washington e seus aliados.

Uma investigação de jornalistas filiados ao Canal Red divulgou várias gravações nas quais se ouve políticos hondurenhos de grande notoriedade, entre eles o ex-presidente Juan Orlando Hernández (JOH) e o atual presidente, Nasry Asfura, falando sobre uma trama orquestrada por líderes da extrema direita internacional para desestabilizar governos progressistas da América Latina. O objetivo da trama revelada pelo “Hondurasgate” era criar um meio para divulgar notícias falsas sobre a gestão de Sheinbaum e Petro.

JOH, indultado por Trump apesar de suas acusações por narcotráfico nos Estados Unidos, teria sido a peça-chave para financiar a vitória de Asfura nas últimas eleições hondurenhas, contando com o apoio de Trump. Ademais, JOH teria pressionado para que ocorresse o assassinato de Marlon Ochoa, conselheiro do Conselho Nacional Eleitoral e do partido progressista LIBRE, devido às suas denúncias de fraude durante as eleições presidenciais, em particular em decorrência da interferência explícita proveniente de Washington.

Embora o HondurasGate tenha um caráter altamente doméstico na política hondurenha, seu alcance regional e internacional não deve ser subestimado. As gravações revelam que JOH iniciou uma campanha de desinformação com o apoio financeiro do presidente argentino, Javier Milei, com o objetivo de desestabilizar o ambiente político no Brasil, na Colômbia e no México, países governados por forças progressistas. O governo de Milei teria alimentado o referido meio de comunicação em conjunto com o governo de Benjamin Netanyahu e os Estados Unidos.

O Canal Red divulgou 37 gravações extraídas de conversas mantidas pelo WhatsApp, Signal e Telegram entre algumas das figuras políticas mais relevantes de Honduras e atores ligados à extrema direita internacional. Os áudios, previamente submetidos a processos de autenticação forense com o programa Phonexia Voice Inspector, revelam supostas transferências de dinheiro provenientes de instituições públicas hondurenhas, em particular da Secretaria de Infraestrutura e Obras Públicas, para financiar operações políticas e midiáticas coordenadas a partir dos Estados Unidos.

Em um dos áudios mais delicados, JOH solicita a Asfura o envio de 150 mil dólares para instalar uma plataforma digital ligada ao círculo do presidente norte-americano. Em outras conversas, JOH fala sobre apoio financeiro proveniente de Israel e menciona diretamente que o perdão concedido por Trump teria sido facilitado por meio de trabalhos de lobby financiados por atores israelenses.

Além das campanhas midiáticas, as conversas apontam para projetos geopolíticos mais amplos. Entre eles estão a expansão das zonas econômicas especiais, a instalação de uma nova base militar em Roatán, a construção de um centro penitenciário inspirado no modelo salvadorenho do CECOT e projetos de infraestrutura adjudicados a empresas estadunidenses. Os áudios também mostram uma forte preocupação em limitar a presença chinesa em Honduras e em consolidar um alinhamento estratégico com Washington e Tel Aviv

Independentemente das descobertas do HondurasGate, existe uma prática atual evidente de alinhamento tripartite entre a direita latino-americana, os Estados Unidos e Israel. O objetivo desses atores parece ser contribuir para os esforços dos Estados Unidos de orientar a região para a direita. Do ponto de vista dos Estados Unidos, a prevalência de governos de direita atende ao objetivo de afastar a China da região. Do ponto de vista de Israel, a aliança com grupos cristãos-sionistas, evidente na proximidade com políticos como Jair Bolsonaro, pode garantir-lhe um apoio diplomático no contexto das contínuas críticas internacionais recebidas tanto pelo genocídio em Gaza quanto pela guerra no Irã e no Líbano.

O HondurasGate confirma que o alinhamento automático e a dependência ligada a essa prática continuam sendo um problema estrutural da política externa latino-americana. A gravidade do fenômeno reside no fato de que tal alinhamento não parece responder a interesses estratégicos latino-americanos, mas a agendas externas ligadas à preservação da hegemonia norte-americana, em declínio global, e ao apoio diplomático a Israel em um contexto internacional cada vez mais adverso para ambos os atores.

A instrumentalização de campanhas midiáticas, redes de desinformação e alianças políticas transnacionais demonstra que a disputa ideológica latino-americana já não pode ser entendida exclusivamente em termos nacionais. Pelo contrário, ela se insere em um cenário multipolar no qual atores externos buscam influenciar ativamente a orientação política regional, o que está provocando respostas da esquerda, como se viu em Barcelona.

A subordinação estratégica a Washington e Tel Aviv reproduz padrões históricos de dependência política que limitam a capacidade da América Latina de construir uma política externa verdadeiramente autônoma e soberana. Em última análise, o caso obriga a repensar o debate sobre a autonomia regional no século XXI. Em um contexto de multipolaridade, aceito por boa parte do Sul Global, a América Latina enfrenta o desafio de decidir se continuará atuando como um espaço de alinhamento subordinado ou se avançará em direção a uma inserção internacional mais autônoma, plural e coerente com seus próprios interesses históricos e geopolíticos.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Candidata a doutorado na UNU-CRIS e na Universidade de Ghent. Mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade de Georgetown e mestre em Diplomacia e Relações Internacionais pela Escola Diplomática da Espanha.

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