A visita de Javier Milei a São Paulo, no último dia 25 de julho, para apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro contribuiu para desencadear uma nova crise diplomática entre Brasil e Argentina. Mas o episódio representa algo mais amplo: a crescente articulação das direitas latino-americanas e a disputa pelo rumo político da região.
Durante a convenção do Partido Liberal (PL), Milei atacou diretamente o presidente Lula, a quem chamou de “ladrão” e “socialista”, e também criticou duramente o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Ao mesmo tempo, apresentou Flávio Bolsonaro como a alternativa capaz de “parar” o socialismo. A intervenção mostrou até que ponto as disputas das novas direitas latino-americanas ultrapassam as fronteiras nacionais.
O episódio faz parte de um ciclo político que está alterando o equilíbrio regional. Nos últimos anos, a direita avançou em Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Paraguai, e em 2026 somou as vitórias de Keiko Fujimori no Peru e de Abelardo de la Espriella na Colômbia. O Brasil se prepara agora para uma das eleições mais importantes do ano, que será realizada em outubro. Essa mudança mostra que a direita ganhou terreno em boa parte da América do Sul, embora seus governos e projetos políticos respondam a tradições e agendas diferentes.
Não se trata, no entanto, de uma simples repetição da “onda conservadora” de décadas anteriores. O próprio campo da direita está mudando. Partidos tradicionais incorporam discursos de segurança, redução do Estado e confronto cultural, enquanto movimentos mais radicais buscam se tornar forças governamentais. A fronteira entre a direita tradicional, a direita conservadora e a extrema direita torna-se cada vez mais difícil de estabelecer.
A insegurança e a deterioração das condições econômicas desempenham um papel central nesse processo. As promessas de “mão pesada” contra o crime combinam-se com um discurso que atribui a culpa pela crise às elites políticas tradicionais. A experiência de Nayib Bukele em El Salvador e o retorno de Donald Trump à Casa Branca servem de referência para essas novas direitas, que encontram na segurança, no confronto cultural e na rejeição à esquerda instrumentos de mobilização eleitoral.
O Brasil é agora um dos principais palcos dessa disputa. As pesquisas mais recentes mantêm Lula na liderança, mas mostram uma disputa acirrada com Flávio Bolsonaro. A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 17 de agosto registra 41% para Lula e 36% para Flávio no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, Lula obtém 47% e Flávio, 44%. A pesquisa da Quaest também indicava um cenário acirrado, com 43% para Lula e 40% para Flávio no segundo turno.
Mas a disputa não se limita aos dois principais candidatos. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos também buscam ocupar o espaço conservador, embora ainda apareçam com porcentagens menores nas pesquisas. Sua presença revela uma disputa dentro da própria direita para definir quem será capaz de representar esse eleitorado e, eventualmente, superar a liderança política construída por Jair Bolsonaro.
A dimensão estadunidense é fundamental para compreender esse cenário. O governo de Donald Trump deixou de ser uma referência ideológica distante para se tornar um ator com capacidade concreta de intervir nos conflitos políticos latino-americanos. A pressão comercial sobre o Brasil, as críticas às instituições brasileiras e o apoio político a setores bolsonaristas, ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, colocam novamente Washington no centro das disputas sobre a orientação política da região.
Aqui surge uma contradição central. Enquanto as novas direitas latino-americanas utilizam a linguagem da soberania nacional, muitas buscam simultaneamente uma relação privilegiada com Washington e aceitam instrumentos externos de pressão contra governos adversários. A soberania parece se tornar um princípio seletivo: é invocada diante da esquerda, mas relativizada quando a pressão vem dos Estados Unidos e favorece o próprio campo político.
O Brasil é um caso particularmente evidente. Flávio Bolsonaro tem buscado estreitar seus laços com Trump e apresentar sua candidatura como parte de uma aliança política internacional mais ampla. Setores do bolsonarismo, além disso, têm comemorado as medidas adotadas por Washington contra o Brasil. A tensão entre o nacionalismo reivindicado pelo bolsonarismo e sua disposição de aceitar a pressão de uma potência estrangeira constitui uma das principais contradições desse projeto político.
Para Lula, essa situação abre um espaço eleitoral. Diante da pressão de Washington e dos ataques de Milei, o presidente brasileiro reforçou um discurso centrado na defesa da soberania e da autonomia nacional. Enquanto Flávio combina um discurso nacionalista com uma estreita aproximação a Trump, Lula busca apresentar a pressão externa como uma ameaça aos interesses brasileiros e contrapô-la com uma política de maior autonomia internacional.
O confronto também acarreta custos para ambos os países. O Brasil e a Argentina mantêm uma relação econômica e estratégica que vai além das preferências ideológicas de seus governos. Comércio, investimentos, cadeias produtivas, energia e o Mercosul dependem de um vínculo relativamente estável. A estratégia de confronto de Milei pode fortalecer sua posição dentro da direita regional, mas prejudica uma relação fundamental para a economia argentina e para a integração sul-americana.
Essa conexão entre política interna e política externa é uma das características centrais da nova direita regional. As disputas eleitorais não se desenrolam mais exclusivamente dentro das fronteiras nacionais: as lideranças trocam apoios, discursos e estratégias, enquanto atores externos, como os Estados Unidos, assumem um papel cada vez mais visível na configuração de alianças políticas.
Por isso, a eleição brasileira será mais do que uma disputa presidencial. Será um teste à capacidade da nova direita latino-americana de transformar seu crescimento eleitoral em uma hegemonia regional e, ao mesmo tempo, para ver quem conseguirá liderar o campo conservador brasileiro. Após as vitórias da direita no Peru e na Colômbia, o Brasil se torna um dos principais territórios em disputa entre dois projetos distintos para o futuro político da região.
O resultado mostrará se essa transformação conseguirá se consolidar ou se Lula ainda pode representar um freio à nova configuração política regional. Em outubro, o Brasil não elegerá apenas um presidente: também estará em jogo o equilíbrio político da América Latina e o tipo de relação que a região estabelecerá com os Estados Unidos.









