Em outubro, o Brasil viverá uma eleição presidencial que se configura como uma das mais disputadas de sua história, após duas eleições que já dividiram o país, em 2018 e 2022. Lula está hoje à frente nas pesquisas, sobretudo nas últimas semanas, após o mais recente escândalo de corrupção que atingiu o candidato da família Bolsonaro. No entanto, a campanha ainda não está encerrada e, apesar dos indicadores econômicos muito positivos, o presidente Lula continua enfrentando baixa popularidade. Jair Bolsonaro, o ex-presidente, está inelegível e cumpre prisão domiciliar; por isso, indicou seu filho como candidato. Em meio a uma disputa presidencial protagonizada exclusivamente por homens, há um ator político visivelmente ausente: pela primeira vez em vinte anos, nenhuma mulher disputará a presidência.
As mulheres são consideradas um eleitorado decisivo nessas eleições. Vale lembrar que, no mesmo dia em que o Brasil eleger seu novo presidente, também serão renovadas as câmaras de deputados estaduais e federais, serão eleitos governadores e dois terços do Senado.
Como na maioria dos países, as mulheres são maioria no eleitorado e, não por acaso, em uma disputa tão acirrada, seus votos são especialmente cobiçados. O Brasil, no entanto, carrega uma particularidade bastante vergonhosa: é o segundo pior país da América Latina em termos de representação política das mulheres.
A importância do voto feminino ficou especialmente evidente nas últimas eleições presidenciais. Em 2022, com a pandemia ainda recente e o temor de que Bolsonaro continuasse no poder após ter desencorajado o uso e a produção de vacinas, as mulheres votaram majoritariamente em Lula. É o que sugerem a maioria das pesquisas, que apontam para uma abordagem pragmática ligada à proteção da saúde. O que já se sabe, de qualquer forma, é que as mulheres tendem a votar a partir de uma perspectiva de cuidado, o que inclui a preocupação com a qualidade da educação e a inflação dos alimentos.
Agora, sem a pandemia como contexto de urgência e com um governo que não conseguiu entusiasmar plenamente esse eleitorado, a disputa pelo voto feminino se reabre. Em ambos os lados, há uma preocupação em conquistar esse voto, o que se reflete nos esforços para endurecer as penas por feminicídio, uma medida apoiada por ambos os grupos políticos. Embora sejam atos que chamam a atenção, é curioso notar que, por trás dessas estratégias, persiste uma interpretação bastante simplista: a de que as mulheres têm preferências políticas semelhantes pelo simples fato de serem mulheres.
No entanto, se a disputa pelo voto feminino ocupa boa parte do debate, nessas eleições de 2026 discute-se muito menos, dentro dos grandes partidos, o lugar das mulheres como representantes. Isso ficou evidente em 24 de junho, quando Michelle Bolsonaro, pré-candidata a algum cargo, publicou um vídeo no qual denunciava seu enteado e companheiro de partido, Flávio Bolsonaro.
Atualmente, o Brasil ocupa a 135ª posição no ranking da União Interparlamentar sobre a presença feminina nos parlamentos: a segunda pior classificação entre os países latino-americanos, superado apenas por Belize. Apenas 13% dos municípios têm uma prefeita; 18% das deputadas federais são mulheres (a maioria delas brancas e de partidos de direita) e em quase 20% das cidades brasileiras não há uma única vereadora. Trinta anos após a lei das cotas de gênero, o percentual de mulheres eleitas continua sendo escasso e os avanços têm ocorrido a passos de tartaruga.
Em grande parte, isso se deve ao sistema eleitoral brasileiro, combinado com práticas partidárias profundamente masculinizadas, que funcionam como um filtro e reduzem sistematicamente as chances das candidatas antes mesmo que o eleitorado chegue a ver seus nomes na urna.
As cotas que obrigam os partidos a incluir pelo menos 30% de mulheres nas listas existem desde o final dos anos 90. No entanto, em um sistema de lista aberta, elas garantem apenas a candidatura, não a visibilidade dessas mulheres. Em um sistema como esse, onde cada candidata compete individualmente para se tornar conhecida, o acesso ao financiamento é determinante. E os recursos públicos de campanha continuam fluindo de forma desproporcional para os homens, sobretudo para aqueles que já ocupam cargos e controlam as estruturas partidárias.
Mas o problema vai além. Como aumentar a presença das mulheres implica necessariamente reduzir o espaço de alguns homens, o que prevalece é a preservação do status quo. A isso se somam as barreiras informais. Em uma pesquisa recente, publicada na revista Electoral Studies e realizada em parceria com Thiago Fonseca e João Victor Guedes Neto, identificamos que, após as mudanças legais destinadas a promover candidaturas de mulheres e de pessoas negras, os partidos aumentaram o número de candidatas, mas principalmente daquelas com poucas chances de serem eleitas, garantindo apenas que elas contribuíssem com mais votos para suas respectivas formações.
Muitas vezes, mesmo quando há mulheres dispostas a concorrer, aquelas que poderiam ser candidatas potencialmente competitivas acabam não se tornando candidatas porque o partido não as financia, não as apoia e não as promove. E quando o eleitorado não as conhece, simplesmente não pode votar nelas. A essas barreiras soma-se, além disso, a persistente violência política de gênero, que nessas eleições se tornou visível, afastando muitas mulheres da disputa eleitoral.
O resultado é um sistema que precisa do voto das mulheres, mas que continua dificultando seu acesso ao poder. As regras que estruturam o jogo político no Brasil foram criadas, historicamente, por homens e para homens, e continuam reproduzindo uma representação profundamente desigual.
Em 2026, enquanto Lula e o filho de Bolsonaro — ou quem quer que seja que venha a disputar a presidência — disputam o voto do grupo majoritário do eleitorado, as mulheres, que continuam sendo indispensáveis para decidir quem governa, ainda estão longe de ocupar, na mesma proporção, os espaços onde se exerce o poder.










