No Brasil, a política externa tornou-se cenário eleitoral. As visitas de Lula e do senador Flávio Bolsonaro, os dois principais candidatos à presidência do país, à capital dos Estados Unidos revelam, além do conteúdo de suas agendas, uma disputa pela conquista de prestígio internacional e capital político.
A relação bilateral com os Estados Unidos tem ocupado um espaço relevante no debate público brasileiro e se tornou um elemento importante para compreender as estratégias dos candidatos à presidência do país. Esse processo é impulsionado tanto pelo fortalecimento da diplomacia presidencial como instrumento de projeção de liderança internacional — uma característica marcante dos primeiros governos de Lula — quanto pela ampliação e diversificação dos temas que passaram a integrar a agenda da política externa brasileira.
No caso da viagem oficial do presidente, as questões que ocuparam uma posição central na agenda, reforçando a ênfase de seu governo na defesa da soberania nacional, foram o recrudescimento das tensões comerciais — em particular o chamado tarifaço —, a exploração de terras raras e a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Por sua vez, a visita do senador Flávio Bolsonaro foi predominantemente simbólica, voltada não tanto para a formulação de agendas substantivas de política externa, mas para a geração de capital político para a disputa eleitoral.
A viagem serviu de contraponto para reforçar que, enquanto Lula mantém uma relação institucional com Washington, a afinidade ideológica de Trump no Brasil continua ligada à direita bolsonarista. Em meio ao escândalo das gravações enviadas por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro (atualmente preso por um dos maiores escândalos de corrupção da história do país), nos quais ele pedia dinheiro para um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a agenda internacional do clã Bolsonaro pode ser interpretada como uma tentativa de reiniciar sua pré-campanha, apoiando-se na mobilização das redes transnacionais de articulação da direita radical.
As repercussões da visita do senador a Washington, no entanto, podem acarretar efeitos desagradáveis para sua participação na disputa eleitoral. Embora determinados setores políticos continuem a perceber o alinhamento com os Estados Unidos como um trunfo eleitoral relevante, as atitudes da opinião pública brasileira em relação ao país passaram por transformações importantes.
Os dados do projeto Brasil, as Américas e o Mundo (BAM/CEBRAP) revelam uma dissociação persistente entre as diferentes dimensões das atitudes dos brasileiros em relação aos Estados Unidos. Quando questionados sobre o estado das relações bilaterais, mais de 70% dos entrevistados as caracterizaram sistematicamente como positivas ao longo de todo o período de 2010 a 2022, uma proporção estável e independente da orientação política dos entrevistados. A desconfiança superou a confiança a partir de 2014 e atingiu seu pico em 2018, durante o governo Trump, quando 63% dos entrevistados declararam desconfiança, contra apenas 31% que manifestaram o contrário.
O resultado é uma opinião pública que vê com bons olhos a parceria com os Estados Unidos como relação entre Estados, mas que desconfia cada vez mais da potência do Norte como ator geopolítico e que, portanto, não responde de forma linear aos apelos eleitorais que confundem a aproximação diplomática com um apoio incondicional a Washington. Nesse contexto, o uso da proximidade com o governo de Trump como recurso de legitimação política pode encontrar um ambiente interno menos receptivo do que em ciclos eleitorais anteriores.
A mudança na opinião pública também foi acompanhada por uma reorientação da abordagem adotada por uma parte significativa da grande imprensa brasileira em relação à aproximação com os Estados Unidos. Se, durante boa parte do período pós-redemocratização, o estreitamento das relações bilaterais era frequentemente retratado de forma positiva em editoriais e colunas de opinião, esse consenso foi abalado pela política externa adotada pelo governo de Bolsonaro. Os dados do Observatório de Política Externa na Imprensa do CEBRAP (OPEI/CEBRAP) também permitem documentar essa mudança. Em 2014, as referências favoráveis à relação com os Estados Unidos em editoriais e artigos de opinião superavam amplamente as contrárias. Esse padrão começou a se modificar já durante o governo de Michel Temer, mas foi sob a administração de Bolsonaro que a ruptura se tornou evidente. A cobertura jornalística passou a enfatizar as críticas ao que era interpretado como uma postura de alinhamento automático com os interesses estadunidenses, destacando aspectos como a perda de autonomia, a subordinação aos objetivos do setor mais conservador dos Estados Unidos e o afastamento da tradição diplomática do Ministério das Relações Exteriores. O alinhamento com Washington havia trazido poucos benefícios concretos para o Brasil, ao mesmo tempo em que gerava conflitos com a China, o principal parceiro comercial do país. Ao chegar à metade do governo de Bolsonaro, no segundo semestre de 2021, 60% dos meios de comunicação monitorados pelo Observatório adotavam uma postura crítica em relação às políticas do governo em relação a Washington.
Voltando aos acontecimentos recentes, a classificação das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e a nova frente tarifária aberta pelos Estados Unidos convergiram para o centro do debate. As novas tarifas sobre produtos brasileiros, incluindo o PIX — o meio de pagamento eletrônico mais utilizado no Brasil, apresentado como concorrência desleal para as grandes multinacionais estadunidenses —, juntamente com as críticas às decisões do Supremo Tribunal Federal e à “insegurança jurídica”, colocaram as novas medidas na mira da indústria manufatureira brasileira. O governo brasileiro enquadrou o conjunto de ações como parte de um mesmo processo, associado à atuação internacional da família Bolsonaro, que prejudica o Brasil para se aproximar do presidente dos Estados Unidos.
Nesse cenário, Lula e Flávio Bolsonaro mobilizam estratégias distintas de inserção internacional, voltadas para públicos diferentes. Enquanto o primeiro busca projetar uma imagem de autonomia e diversificação das alianças externas, o segundo tenta capitalizar os laços com a rede ultraconservadora transnacional associada ao trumpismo. A política externa deixou de ocupar uma posição periférica na disputa eleitoral e passou a constituir um eixo relevante de diferenciação entre as candidaturas. Os episódios recentes sugerem que Washington já entrou na campanha presidencial, mesmo antes das convenções partidárias.
Mas o terreno em que essa disputa será travada é diferente do observado em ciclos eleitorais anteriores. Pesquisas recentes sugerem que a crescente politização das relações com os Estados Unidos ocorre em um contexto de aumento da desconfiança dos brasileiros em relação aos Estados Unidos e, em particular, às correntes políticas associadas ao trumpismo. Se as eleições influenciam o rumo da política externa, a política externa também influencia as eleições, embora não necessariamente da forma esperada pelos candidatos que apostam na associação direta entre a proximidade com Washington e o apoio popular no Brasil. A experiência recente sugere que essa ligação já não gera automaticamente os dividendos políticos que seus defensores pressupõem, especialmente quando associada ao universo político do trumpismo.











