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Muito além dos seres humanos está a Mãe Terra

Sob a liderança da Bolívia, em 2009 estabeleceu-se o dia 22 de abril como o Dia Internacional da Mãe Terra mediante uma declaração da Assembleia Geral das Nações Unidas. Este processo de busca da harmonia com a natureza responde às lutas históricas anticoloniais dos povos originários deste país, da América e do mundo. 

Enquanto culturas como a egípcia, mesopotâmica, inca, asteca e talvez todas tenham aprendido maneiras de modificar o meio ambiente e adaptar-se às condições em função de suas necessidades, não foi até a origem das primeiras cidades modernas que começou a ser observada a deterioração dos componentes ambientais como solo, água ou ar, devido à geração de resíduos. 

A relação moderna entre humano e meio ambiente

Apesar de haver evidências de conflitos relacionados ao meio ambiente desde o início da história da humanidade, como guerras por territórios com riquezas naturais ou pela produção de resíduos em cidades emergentes, só no final dos anos 60 é que a preocupação com o meio ambiente ganhou força. Isto foi devido às fortes evidências que foram observadas na saúde da população e dos demais seres vivos. Naqueles anos, a pobreza era vista como a pior forma de contaminação e a preocupação com este tema ocorria nos países desenvolvidos.

Mais de 50 anos depois, esta segue sendo a tendência. Os chamados países “em desenvolvimento” não podem se dar ao luxo de limitar seu ritmo de crescimento, já que ainda não cobriram as “necessidades básicas”. Entretanto, os países desenvolvidos tampouco se comprometem seriamente a reduzir seus impactos negativos no meio ambiente, pois devem manter seu status baseado na expansão. Esta tendência está ligada ao atual sistema econômico prevalecente, onde a geração de lucro é primordial.

Durante as primeiras conversas internacionais sobre questões ambientais na Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano, em 1972, mais tarde denominada de “Cúpula da Terra”, prevaleceu a concepção de seres vivos como “recursos”, incluindo humanos, como o chefe da delegação chinesa mencionou em sua declaração. “De todos os recursos, as pessoas são os mais importantes”. Desde a Cúpula, o interesse da comunidade internacional pela poluição e seus efeitos na biosfera tem continuado a crescer.

Em 15 de dezembro do mesmo ano, a Assembleia Geral aprovou uma resolução onde foi criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que tinha a tarefa de “estabelecer uma agenda ambiental a nível global para promover a implementação coerente da dimensão ambiental do desenvolvimento sustentável no sistema das Nações Unidas”. 

Posteriormente foram criados outros organismos com o mesmo objetivo de contribuir para a construção de um “desenvolvimento sustentável”. Deve-se lembrar que o conceito de “desenvolvimento” foi proposto pelo Presidente Truman dos Estados Unidos em 1949 para se referir à existência de países pobres, que denominou de “subdesenvolvidos”, cujo único destino era se tornar “desenvolvidos”. Ou seja, buscar alcançar as condições de vida de países como o seu.

O fato de as discussões sobre o meio ambiente começarem com um enfoque do “meio ambiente humano” mostra que a preocupação desde o início era com o risco aos seres humanos e não às demais formas de vida. Nos 50 anos da Cúpula da Terra e da implementação de seus instrumentos de governança a nível internacional, observa-se um aquecimento global crescente que está causando mudanças climáticas devastadoras em todas as regiões do mundo, um crescente consumismo e produção excessiva de resíduos tóxicos, doenças e pandemias emergentes de uma relação nada saudável com a Terra.  

Mãe Terra, relações para a vida

Em 2009, sob a liderança da Bolívia, iniciaram-se negociações intergovernamentais sobre os princípios de Harmonia com a Natureza na Assembleia Geral das Nações Unidas. No mesmo ano, estabeleceu-se 22 de abril como Dia Internacional da Mãe Terra.

Diferente das visões e relações que haviam sido geradas com a Terra no período colonial e, mais tarde, nos tempos modernos, os povos originários tinham e mantêm uma relação com a Terra como Mãe e filhas(os), daí a visão de Mãe Terra ou Pachamama. Este vínculo familiar e maternal com nosso entorno resulta em uma relação na qual prevalece o profundo desejo de um bem-estar real do outro. Não só o desejo de produzir e ganhar às custas da Mãe, mas o desejo de seu bem-estar, pois sua vida e a vida em geral são importantes.

Com a modernidade, o sentido da vida e o vínculo com a “Mãe” se transformou em mero utilitarismo. Devemos usar a “Mãe” como recurso para gerar lucro e melhorar nosso status de vida. Não com base nas necessidades, mas nas ambições desmedidas de crescimento e expansão.

Esta forma de perceber e pensar a Mãe Terra converteu-se em parte de nós como indivíduos modernos. Portanto, apesar dos efeitos negativos que observamos diariamente em nossos hábitos, não tomamos medidas drásticas para recuperar nossa ligação com a Mãe Terra. 

O aquecimento global continua aumentando e, com ele, aumentam os incêndios florestais e o derretimento das geleiras é cada vez mais rápido, provocando uma infinidade de consequências aos seres humanos. 

Portanto, este e todos os dias deveriam ser os dias da Mãe Terra para que constantemente repensemos, reconstruamos e reencontremos nosso caminho e o sentido da vida, a fim de manter a própria vida em todas as suas formas. Não devemos esquecer que somos parte da Mãe Terra. 

Autor

Engenheira Ambiental com especialização em Mudanças Ambientais e Desenvolvimento Internacional e interesse na interface Ciência-Política. Membro do OWSD Bolívia e atual IAI STeP Fellow no Belmont Forum.

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