Em Portobelo, uma localidade na costa caribenha do Panamá, os adultos costumam alertar as adolescentes: “Cuidado, ou você vai acabar com seu sétimo domingo!” Essa expressão popular, comum em vários países da América Central, é usada para se referir a uma gravidez inesperada. No entanto, o aviso quase nunca vem acompanhado de uma explicação. “Ainda consideram isso um tabu”, conta Jiseel Muñoz Chavarría, uma jovem líder dessa comunidade na província de Colón. “Nunca explicam a elas como evitar gravidezes não intencionais”.
O que ocorre em Portobelo reflete uma contradição presente em toda a América Latina e no Caribe. Pede-se a muitas adolescentes que evitem uma gravidez, mas, na maioria das vezes, nem elas nem os adolescentes recebem as informações, os anticoncepcionais e os serviços de saúde sexual e reprodutiva de que precisam para isso. Vale destacar que duas em cada três gravidezes na adolescência são indesejadas e, em muitos casos, resultam em casamentos infantis ou uniões forçadas. No entanto, a região registrou avanços importantes nos últimos anos, embora tenham sido desiguais e insuficientes.
O risco não se distribui por igual
Nas últimas décadas, a América Latina e o Caribe conseguiram reduzir a fertilidade entre adolescentes. Entre as meninas de 15 a 19 anos, a taxa passou de cerca de 73 nascimentos por mil em 2010 para 50 em 2025. Isso representa uma redução de cerca de 30%; no entanto, os países não avançam no mesmo ritmo e as médias nacionais podem ocultar desigualdades ainda maiores dentro de um mesmo país.
As meninas que nascem em lares de baixa renda, em áreas rurais ou que pertencem a comunidades indígenas ou afrodescendentes costumam enfrentar riscos maiores de engravidar antes dos 19 anos. As situações de vulnerabilidade que vivem condicionam suas possibilidades de acesso a anticoncepcionais, educação sexual integral e serviços de saúde de qualidade.
Isso se observa com especial clareza nas áreas rurais e litorâneas da América Central e do Caribe. Lá vivem comunidades afrodescendentes, crioulas, garífunas, miskitas e indígenas que sofreram longos processos de exclusão. Os adolescentes dessas populações enfrentam maiores obstáculos para receber uma educação sexual integral e ter acesso a serviços de saúde de qualidade, confidenciais e adaptados às suas necessidades. Um exemplo básico é conseguir chegar ao posto de saúde que, em muitos casos, fica distante de suas comunidades.
Também influenciam a falta de pessoal e de suprimentos, os preconceitos, o racismo e a existência de serviços que nem sempre levam em conta as línguas nem as práticas culturais das comunidades. A essas barreiras soma-se o tabu que ainda envolve a sexualidade dentro de muitas famílias e escolas.
As médias podem deixar muitas pessoas de fora
A redução da taxa regional demonstra que as políticas públicas têm surtido efeito. Para esse avanço, contribuíram a ampliação dos serviços de saúde sexual e reprodutiva para adolescentes, o acesso a métodos contraceptivos modernos e a incorporação gradual da educação integral sobre sexualidade.
Para ir além das médias nacionais e atender às necessidades das populações vulneráveis, a resposta também deve levar em conta suas circunstâncias. Serviços de saúde gratuitos, confidenciais, próximos e livres de racismo e discriminação fariam a diferença. O mesmo vale para a educação integral sobre sexualidade, dentro e fora da escola, com conteúdos adequados a cada faixa etária e uma abordagem territorial e intercultural. Por outro lado, são necessários mecanismos eficazes de denúncia e acesso à justiça diante da violência sexual.
Por sua vez, os casamentos e as uniões infantis, precoces e forçadas exigem uma resposta específica. 35% das gestações na adolescência ocorrem no contexto de uma união desse tipo, enquanto 45,4% das adolescentes que vivem nessas uniões engravidam.
Prevenir a gravidez na adolescência não se limita, portanto, a disponibilizar anticoncepcionais. Exige também que as famílias, as escolas, os serviços de saúde e as comunidades criem as condições necessárias para evitá-la.
Quando nossas meninas e adolescentes puderem decidir sobre seus corpos e planejar sua vida reprodutiva de maneira livre e informada, quando a prevenção de todas as formas de violência de gênero, incluindo a violência sexual, for uma realidade, e quando elas tiverem as oportunidades e ferramentas para desenvolver seu projeto de vida, estarão em melhor posição para decidir o caminho que desejam trilhar na vida. É seu direito fazê-lo.










