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Quando a ideologia substitui a política econômica: de Trump a Noboa

Quando a ideologia substitui o pragmatismo na política econômica e externa, o confronto ganha centralidade e os custos — econômicos, institucionais e sociais — não demoram a aparecer.

Em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump iniciou seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. Desde seu primeiro mandato, Trump promoveu uma agenda caracterizada por decisões unilaterais, o uso recorrente de tarifas como instrumento de pressão política e uma leitura ideológica das relações internacionais que desconsiderou critérios técnicos, multilaterais e de planejamento econômico de longo prazo.

Um dos episódios mais emblemáticos foi a imposição de tarifas sobre a China e vários parceiros europeus, sob o pretexto de corrigir supostos “abusos comerciais” e reduzir o déficit externo estadunidense. Na prática, essas medidas responderam menos a uma estratégia abrangente de política industrial e mais a uma lógica de coerção econômica, na qual o comércio foi utilizado como mecanismo de punição e negociação política. A China respondeu com tarifas recíprocas, aprofundando uma guerra comercial que afetou as cadeias de valor globais, aumentou o custo dos insumos e gerou distorções que, com o tempo, forçaram os Estados Unidos a reverter algumas dessas medidas.

Esse padrão se intensificou durante o segundo mandato de Trump. Os impasses com os governos europeus e latino-americanos decorreram de diferenças ideológicas explícitas, e não de avaliações técnicas de políticas econômicas ou comerciais. Na Europa, as tensões comerciais — incluindo as ameaças de tarifas — foram reativadas como instrumentos de pressão. Nesse contexto, a intenção do governo estadunidense de assumir o controle da Groenlândia e as declarações subsequentes de Trump reforçaram esse enfoque. Apesar de suavizar sua retórica em fóruns como Davos, o presidente manteve um tom abertamente ameaçador, sugerindo que “se não negociarem, os Estados Unidos se lembrarão de quem estava do outro lado”, o que tensiona as normas básicas do direito internacional e do multilateralismo.

Na América Latina, essa lógica se traduziu em restrições migratórias e financeiras contra governos politicamente distantes e em confrontos diretos com líderes como Lula da Silva e Gustavo Petro. No entanto, outros países com problemas estruturais comparáveis ​​— incluindo a expansão do narcotráfico — ficaram à margem devido ao seu alinhamento com Washington. O Equador é um exemplo ilustrativo: apesar da deterioração de sua segurança interna, do avanço do crime organizado e de seu status como um dos principais pontos de exportação de cocaína do mundo, segundo relatórios de organizações multilaterais e agências especializadas (UNODC, DEA), o país não sofreu represálias significativas, demonstrando o peso dos alinhamentos políticos sobre as considerações técnicas.

Contudo, essa lógica de confronto não se limitou à política externa dos EUA. Na América Latina, esse tipo de abordagem começou a ser incorporado à política econômica e externa de alguns países, como Argentina e Equador. No caso equatoriano, o recente impasse diplomático e comercial com a Colômbia ilustra particularmente essa dinâmica: decisões reativas, adotadas sem uma avaliação técnica abrangente e com efeitos econômicos imediatos. Nesse contexto, o governo de Daniel Noboa demonstra como uma estratégia guiada por cálculos políticos de curto prazo pode reproduzir padrões já observados na política externa dos EUA sob Donald Trump, com riscos ainda maiores quando aplicada a contextos institucionalmente mais frágeis e economicamente dependentes.

O “Trump equatoriano” e a política de confronto

Desde o início de seu mandato, o presidente Daniel Noboa tem demonstrado traços de gestão política análogos ao estilo de Donald Trump. Um deles é a busca sistemática por culpados externos ou institucionais para os problemas de governança e implementação de políticas públicas. Em diversas ocasiões, o Poder Executivo atribuiu a falta de progresso na segurança e em reformas-chave à Corte Nacional de Justiça e a outros órgãos estatais, por meio de acusações públicas contra juízes e funcionários.

Esse padrão não é novo. Durante seu primeiro mandato, o Equador esteve no centro de um dos episódios mais delicados do direito internacional em sua história recente: a invasão da embaixada mexicana em Quito para prender o ex-vice-presidente Jorge Glas. Além das controvérsias jurídicas em torno de Glas, o evento constituiu uma violação dos princípios da Convenção de Viena e resultou em uma deterioração significativa das relações bilaterais com o México. Posteriormente, o governo equatoriano anunciou medidas comerciais e tarifárias que, longe de se basearem em uma avaliação técnica da política econômica, aprofundaram a ruptura diplomática e geraram custos evitáveis. A analogia com Trump reside, portanto, no recurso a decisões unilaterais e na utilização de sanções comerciais como instrumento de pressão política.

Este estilo ressurgiu recentemente na relação com a Colômbia. Em 20 de janeiro de 2026, o presidente Gustavo Petro declarou que Glas deveria ser libertado da prisão por razões humanitárias e de saúde — uma declaração percebida como interferência em assuntos internos — e o governo Noboa respondeu em 21 de janeiro anunciando um aumento de 30% nas tarifas de importação da Colômbia, com vigência a partir de 1º de fevereiro de 2026. A medida foi justificada pela alegada falta de cooperação no combate ao narcotráfico, pelos impactos das atividades ilícitas na fronteira e por um persistente déficit comercial bilateral. No entanto, o momento dessas justificativas e o impasse diplomático sugerem uma reação política em vez de uma avaliação técnica abrangente.

A decisão é particularmente delicada, considerando que a Colômbia é um dos principais parceiros comerciais do Equador e um fornecedor estratégico de eletricidade. Nos últimos dois anos, as importações de eletricidade da Colômbia têm sido cruciais para mitigar a crise energética do Equador, em um contexto de condições climáticas adversas e investimentos limitados em novas fontes de geração. Apesar dessa interdependência, o conflito escalou rapidamente: em 22 de janeiro, a Colômbia anunciou tarifas recíprocas e a suspensão ou revisão das vendas de energia para o Equador, uma medida que, se implementada, teria efeitos imediatos sobre a atividade produtiva, os custos das empresas e o bem-estar das famílias. O próprio governo equatoriano reconheceu esse risco e anunciou incentivos para a autogeração privada, um sinal claro da vulnerabilidade do sistema elétrico.

Tudo isso ocorre em um contexto de resultados mistos do governo Noboa. Na frente econômica, houve avanços, como a redução do risco-país para cerca de 458 pontos — o nível mais baixo em uma década —, crescimento das exportações não petrolíferas, sinais de reativação no setor da construção civil e perspectivas de crescimento do PIB mais otimistas. No entanto, esses resultados contrastam fortemente com o desempenho claramente desfavorável na área da segurança. Após uma taxa de homicídios de quase 45,7 por 100 mil habitantes em 2023, o Equador registrou cerca de 39 em 2024, permanecendo entre os países mais violentos do mundo. Os números preliminares para 2025 sugerem uma deterioração ainda maior, com uma taxa estimada entre 49 e 51 homicídios por 100.000 habitantes (8.847 casos), o nível mais alto da história recente do país, refletindo o aprofundamento do crime organizado e do narcotráfico.

Uma comparação entre os Estados Unidos sob Donald Trump e o Equador sob Daniel Noboa revela um padrão comum: quando a ideologia substitui a política econômica e o confronto substitui a cooperação, os custos acabam sendo econômicos, institucionais e sociais. No caso dos Estados Unidos, o tamanho de sua economia permite absorver parte desses custos e, eventualmente, ter maior margem de manobra para corrigir o rumo. Em economias pequenas e dependentes como a do Equador, no entanto, as margens de erro são muito menores e as consequências mais imediatas. Reproduzir uma lógica de poder, pressão e alinhamento ideológico em uma região historicamente tratada como “quintal” não fortalece a soberania nem a segurança econômica. Pelo contrário, enfraquece a cooperação regional, aumenta a vulnerabilidade externa e põe em risco as conquistas recentes. Para além de uma liderança confrontativa, o Equador — e a América Latina como um todo — necessita de estratégias de política externa e econômica baseadas no pragmatismo, no planejamento e na integração, mesmo quando existem diferenças ideológicas, como demonstra o processo de integração econômica e política europeia.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Economista. Professor e pesquisador da Univ. das Américas (Equador). Doutor em Economia e Negócios por la Univ. Autônoma de Madri e Mestre em Econ. Internacional pela mesma universidade. Especializado em economia internacional e macroeconomia.

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