A miopia política do Bolsonaro na América do Sul

Até o início da década passada, o Brasil afirmava-se como o grande catalisador de mecanismos de concertação política e cooperação multissetorial na América do Sul, atuando ainda como articulador de consensos e mediador de tensões e instabilidades entre vizinhos. Nos últimos anos, contudo, parece faltar ao país uma estratégia mais clara para a região, sendo marcantes os desencontros ideológicos com parceiros fundamentais, bem como a adoção de posições açodadas e voluntaristas que contrariam décadas de pragmatismo e prudência no trato com os vizinhos.

Fim do pragmatismo na política exterior

No caso da Venezuela, o precipitado reconhecimento de Juan Guaidó como presidente do país e a tentativa de envio forçado de suposta ajuda humanitária prejudicaram qualquer possibilidade de contribuição genuína para a superação da crise em vizinho de grande importância. O mero apoio a sanções contra ao governo Maduro em foros como o Mercosul, a OEA ou o Grupo de Lima é muito pouco para um país habituado a agir assertivamente em favor da estabilidade sub-regional. Queimar pontes de diálogo com o mundo tornou-se prática recorrente da diplomacia de Bolsonaro.  

A política externa atual mostra-se perdida e permeada por posições erráticas e incongruentes não só nas grandes questões da política internacional, mas também no próprio entorno regional brasileiro. A busca por uma liderança regional que caracterizou o país nos anos 2000 deu lugar a um papel coadjuvante incompatível com o peso e representatividade do Brasil na região.

O país tem se limitado a embarcar em iniciativas lançadas e idealizadas por vizinhos, que aproveitando-se do vácuo deixado por Brasília, acabam por ganhar centralidade e projeção. O PROSUL, por exemplo, foi pensado e formatado longe dos gabinetes do Planalto e do Itamaraty.

A presença de Bolsonaro na posse de Guillermo Lasso há algumas semanas apenas serviu para reforçar a sua percepção limitada e maniqueísta sobre o futuro da América do Sul. A defesa da “união pela liberdade da região” parece refletir um antagonismo irreconciliável com os governos de centro-esquerda ou esquerda, tal qual nos momentos mais críticos de uma Guerra Fria encerrada há mais de trinta anos.

Em um passado não muito distante, o Brasil sabia dialogar de forma profícua com governos de variados matizes políticos, como a Colômbia de Álvaro Uribe e a Venezuela de Hugo Chávez. Assim foi possível criar, por exemplo, o Conselho Sul-americano de Defesa no seio da UNASUL.

Crise nas relações bilaterais com a Argentina

A inédita ingerência no pleito eleitoral argentino em 2019, com explicito apoio à reeleição de Maurício Macri, não apenas rompeu com práticas consolidadas ao longo da história de política exterior do país, mas acabou por conduzir a uma incompatibilidade ideológica tacanha com o   presidente Alberto Fernández.

Chama a atenção a absoluta falta de disposição em superar as diferenças, apesar de um encontro virtual sem resultados práticos ocorrido em dezembro de 2020. Deixar-se levar por paixões político-partidárias excludentes é postura incompatível com a de presidente de um país cujas reconhecidas tradições diplomáticas assentam-se no universalismo e na diversificação de parcerias.

Em um momento tão delicado para toda a região em função da grave crise sanitária e de suas devastadoras consequências econômicas, caberia ao Planalto promover urgente entendimento com a Casa Rosada. O declínio comercial dos últimos anos e a perda de espaço das exportações brasileiras no mercado vizinho, por exemplo, exigem do país atitudes pragmáticas e conciliatórias. A corrente de comércio bilateral em 2020 foi de pouco mais de US$ 16 bilhões, tendo ficado abaixo da metade dos US$ 39 bilhões de 2011.

Em termos relativos, o Brasil tem perdido espaço para as exportações chinesas para o mercado argentino, já tendo o gigante asiático ficado à frente do Brasil em alguns momentos de 2020 como o maior parceiro comercial da Argentina. Considerando a importância desse mercado para as vendas de manufaturas brasileiras com maior valor agregado, percebe-se que a agenda bilateral está recheada de temas urgentes e que deveriam sobrepor-se a rixas pessoais.

Reconstruir a política externa

O delicado momento da relação com a Argentina ofuscou a celebração pelos trinta anos do MERCOSUL. Importantes decisões relativas à Tarifa Externa Comum e ao modelo de negociações externas precisam ser tomadas, mas o distanciamento entre os dois principais sócios constitui obstáculo adicional. O futuro do bloco passa necessariamente por uma melhor coordenação entre seus membros, sendo inadmissível qualquer tentativa de isolar ideologicamente um membro por conta de divergências momentâneas dos governos de plantão.

Faria muito bem ao governo brasileiro também conhecer e respeitar melhor a história dos vizinhos, especialmente no tocante às ditaduras militares, cuja memória é muito viva e presente nos países do Cone Sul. Elogiar ditadores ou minimizar os abusos praticados em um período tão traumático para a região já provocou celeuma e constrangimentos até mesmo junto a governos com quem há supostamente maior afinidade ideológica como o do chileno Sebastián Piñera.

Na esteira de tantos desmandos na condução da política externa do país, urge não só resgatar a imagem do Brasil no mundo, mas também restaurar um posição mais sensata, plural e pragmática em sua própria região. Diálogo, tolerância e prudência são os melhores imunizantes contra o vírus da miopia política que tem caracterizado a relação do governo brasileiro com os vizinhos.

Foto de Palácio do Planalto en Photer.com

Nossa Newsletter

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com