As vítimas do aquecimento global não estão ouvindo falar de mudança climática

Coautores Olga L. Hernández, Matías Mastrangelo, Diana C. Moreno

As comunidades indígenas e camponesas que habitam a floresta tropical de Montes de María, no município de María La Baja, no Caribe colombiano, testemunharam nas últimas décadas as mudanças em seus diversos cultivos que passaram a ser monoculturas de palma africana e arroz, a diminuição das águas que fluem da montanha, a desaparição de plantas medicinais e a crescente irregularidade das chuvas. Os transbordamentos cada vez mais frequentes dos rios causam inundações que trazem consigo uma série de doenças, enquanto os incêndios não só devastam os cultivos de subsistência – cultivos que satisfazem parte das necessidades alimentares de uma população determinada –, mas também a floresta tropical que também facilita o acesso à água aos habitantes.

Entretanto, para Duvan Andrés Caro, que se dedica a comunicar as problemáticas dessas comunidades empobrecidas, racializadas e esquecidas, a mudança climática “é um conto de cientistas, de ONGs, das cidades. De outro mundo”.

Durante décadas, os cientistas depositaram suas esperanças em que a evidência ajudaria os políticos a tomar decisões que reduzissem a vulnerabilidade social e os conflitos ambientais. É cada vez mais frequente ouvir os “tomadores de decisão” do setor público e privado falar de mudança ambiental e sustentabilidade. Mas, à medida que as conferências internacionais sobre mudança climática se multiplicam, aumenta de forma exponencial o número de pessoas que abandonam as zonas rurais, deslocadas pela destruição da natureza e de seus meios de subsistência. A desconexão entre os fóruns internacionais onde se buscam as soluções e os territórios e suas populações é evidente.

Mas nem tudo está perdido. Na atualidade, estão surgindo novas formas de vincular a ciência com os territórios e os centros de tomada de decisão. Se os cientistas realmente querem contribuir para buscar soluções aos problemas ambientais, devem começar a levar em conta a voz das populações locais e abrir-se a seus conhecimentos.

A produção conjunta, ou “coprodução”, entre populações locais, cientistas, tomadores de decisão e outros atores sociais vinculados ao território é uma forma de reconectar esses mundos distantes e distintos, de gerar espaços para o diálogo de saberes e gerar espaços de negociação entre as partes.

Ademais, se os dados sendo gerados nos centros de pesquisa fossem adaptados a linguagens compreensíveis para as comunidades, poderia dar um giro de 180º nos processos de tomada de decisões que afetam esses territórios e seus habitantes. Isso facilitaria os processos de restauração e conservação dos corredores biológicos, algo cada vez mais urgente já que a soberania e a segurança alimentar das comunidades dependem disso.

Neste contexto, os habitantes da comunidade colombiana de María La Baja e do pequeno povoado de Sachayoj (“Senhor da Floresta”, em Quichua) no Chaco Argentino – que passou de uma das maiores regiões florestadas do continente para uma das maiores fronteiras de desmatamento do planeta em apenas 30 anos – participaram de um projeto científico que teve resultados promissores de “coprodução” de conhecimentos e capacidades.

O projeto de Resiliência socioecológica às mudanças ambientais globais em territórios heterogêneos reuniu aldeões, produtores, cientistas e outros atores sociais para identificar conjuntamente as principais ameaças e oportunidades para o desenvolvimento local. Em Sachayoj, devido à demanda dos atores do território, está sendo implementado um plano de monitoramento de indicadores ambientais para corrigir as más práticas e evitar maiores riscos e vulnerabilidades. O monitoramento de polinizadores, por exemplo, está reduzindo o uso de agroquímicos e favorecendo a polinização biológica.

Em María La Baja, por outro lado, a comunidade local e os cientistas co-desenharam peças de comunicação sobre a vida e a diversidade do território, memória e alimento, e ações de bem-estar e revitalização do território no âmbito da conservação da Floresta Tropical Seca. O projeto também promoveu e fortaleceu as dinâmicas sócioecológicas no monitoramento de fauna e flora e na produção agrícola, para superar as vulnerabilidades da região.

Estes avanços em duas comunidades marginalizadas na América Latina confirmam que realizar processos de coprodução, cocriação e recorrer ao trabalho comunitário ao realizar pesquisas ambientais em territórios específicos é de suma importância. As conquistas alcançadas através da maior aproximação e participação entre pesquisadores, membros da comunidade e centros de pesquisa também ajudam a trazer o futuro dos recursos naturais para a discussão. Isto é muito importante para a tomada de decisões que tenham relação com políticas que afetam os espaços de relevância biológica.

Enquanto no centro das grandes cidades e nos países mais poderosos do mundo, as pessoas procuram temporariamente “se isolar” dos conflitos ambientais, as famílias e comunidades rurais da América Latina e do Caribe vivem permanentemente expostas às suas consequências. Portanto, segundo Duvan, “os habitantes das comunidades precisam urgentemente que suas práticas ancestrais de conservação, cuidado da natureza e de entender a natureza sejam endossadas e levadas em conta na hora de gerar informação sobre o território”.

É hora de consolidar a mudança. Embora os cientistas tenham optado por uma estratégia ineficaz e ingênua para contribuir para a solução dos problemas ambientais, as populações rurais nas fronteiras do extrativismo na América Latina e no Caribe sofrem desproporcionalmente as consequências da destruição da natureza.

Ainda há tempo para reverter esta situação. Mas, no lugar de seguir depositando nossas esperanças em influenciar os tomadores de decisão, devemos nos comprometer a trabalhar de igual para igual com todos os atores sociais que vivem e atuam no território. Para enfrentar a crise ambiental, que se manifesta cada vez com mais força sobre as regiões mais empobrecidas, é necessário levar adiante processos mais democráticos que levem em conta as diferentes formas de conhecimento.

Olga Lucía Hernández-Manrique é bióloga e pesquisadora com doutorado em biodiversidade: conservação e manejo de espécies e seus habitats, Universidade de Alicante, Espanha. 

Matías Mastrangelo é biólogo e pesquisador com doutorado em Estudos Ambientais, Victoria University of Wellington, Nova Zelândia. 

Diana C. Moreno é pesquisadora adjunta do Instituto Humboldt na Colômbia. D. em Estudos Ambientais pela Universidade Nacional da Colômbia.

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