“A democracia foi arruinada quando as mulheres começaram a votar”; “As mulheres votam com base nas emoções, não na razão”; “O sufrágio feminino foi um erro”; “As mulheres deveriam perder o direito ao voto para salvar a civilização”… Em fóruns digitais, podcasts e algumas manifestações públicas, começou a tomar forma um discurso extremista, até pouco tempo atrás impensável, sobre a ideia de retirar das mulheres o direito ao voto.
Essas mensagens, ditas em tom provocador, têm se difundido recentemente nas redes sociais com o objetivo de influenciar jovens homens e ecoando a retórica misógina que temos visto crescer nos últimos meses. Algumas figuras públicas ou políticas têm apoiado essas posições, o que gerou controvérsia ao colocar em dúvida direitos civis tão fundamentais. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe um movimento nas redes sociais chamado #Repealthe19th que defende a revogação da 19ª Emenda da Constituição e, assim, restringir ou eliminar o direito ao voto das mulheres naquele país.
Embora seu alcance real continue sendo limitado, a circulação transnacional dessas mensagens é um sintoma da radicalização de certos grupos de homens que, alimentados por frustrações econômicas, culturais e políticas ou por uma “masculinidade ferida”, buscam redefinir os valores e as regras básicas da democracia.
Esses movimentos, frequentemente associados à direita ultraconservadora, posicionam o empoderamento feminino e os direitos reprodutivos como ameaças a uma cultura cristã ou nacionalista, utilizando o conceito de “substituição” não apenas demográfica, mas cultural. Eles buscam reverter direitos adquiridos ao apresentar a autonomia das mulheres como uma forma de divisão social, e chamam isso de “ginocentrismo”, uma palavra que não aparece no dicionário, mas que busca instilar a ideia de que o feminismo é um movimento vingativo.
O problema é que esse argumento funciona como ferramenta mobilizadora, pois oferece uma explicação simples e emocionalmente impactante para aqueles que sentem uma perda de status. Essa corrente busca limitar a participação política feminina com base na crença de que o homem detém a autoridade máxima na família e que as mulheres não estão destinadas à esfera pública. Ou seja, um retorno ao modelo tradicional da divisão sexista entre público e privado.
Esse tipo de exclusão não é meramente teórico. Temos o caso de diversas comunidades indígenas do México, particularmente aquelas que se regem por sistemas normativos internos, comumente conhecidos como “usos e costumes”, onde foram documentados inúmeros casos em que homens limitam ou impedem a participação política das mulheres, alegando a preservação de suas tradições. É violência política, e não a resgata de valores tradicionais, que parece que grupos de homens civilizados e privilegiados querem copiar.
Plataformas digitais como Reddit, X ou YouTube permitiram a proliferação de comunidades onde convergem correntes dentro da chamada manosfera ou machosfera, o ativismo incel (celibatários involuntários) ou o movimento tradwife (esposa tradicional), que continuam se expandindo e gerando debate sobre o papel que, segundo eles, as mulheres devem desempenhar na sociedade atual.
Alguns atores ligados a movimentos ultranacionalistas e autoritários encontram nesse tipo de discurso uma ferramenta útil para polarizar e mobilizar as bases. Por isso, a deslegitimação do voto feminino insere-se em um quadro mais amplo de questionamento às instituições democráticas, aos meios de comunicação e aos sistemas eleitorais. Não é por acaso que essas mensagens surgem ao lado de teorias da conspiração sobre fraude eleitoral ou sobre uma suposta “engenharia social” global. Por outro lado, essas opiniões ganharam força após a percepção de que as mulheres votam majoritariamente na esquerda, o que gera mal-estar em setores ultraconservadores.
Quando se questiona o sufrágio feminino, coloca-se em causa o princípio da igualdade política que sustenta as democracias modernas desde o século XX. O direito ao voto das mulheres não é uma concessão recente nem frágil, mas o resultado de décadas de luta do movimento sufragista, que transformou sistemas políticos inteiros; por isso, desmantelá-lo implicaria abrir a porta a um retrocesso muito mais amplo nos direitos civis.
O perigo não reside apenas na possibilidade (espero que remota) de que tais propostas se traduzam em políticas públicas. Para mim, o risco real está na normalização do discurso, porque quando ideias abertamente antidemocráticas como essas começam a circular com menos resistência, o limiar do aceitável se desloca. Esse fenômeno foi amplamente documentado em estudos sobre extremismo político que alertam como a repetição constante de mensagens radicais pode corroer consensos básicos, mesmo sem se transformar em leis.
Nós, feministas, já sabemos muito bem que os avanços na igualdade nunca estão completamente garantidos. Por isso, o que nos resta como cidadania organizada é tentar aperfeiçoar explicitamente a alfabetização digital crítica dos jovens para que questionem não apenas o que ouvem ou veem, mas compreendam o que está por trás dessas plataformas projetadas para provocar reações contrárias aos direitos. Temos que evitar a todo custo que ideias que hoje parecem marginais encontrem amanhã um terreno mais fértil.
O sufrágio universal é o pilar básico de qualquer sociedade democrática. Questioná-lo com base em argumentos misóginos e preconceitos de gênero é ética e intelectualmente insustentável e, acima de tudo, politicamente perigoso, pois a história já demonstrou com clareza suficiente que os retrocessos nos direitos raramente afetam apenas um único grupo.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










