O vencedor das recentes eleições húngaras, Péter Magyar, classificou o governo derrotado de Viktor Orbán como uma “organização criminosa”. Mas, além dos crimes que possam ser comprovados, o ex-presidente poderia ser condenado por atacar a democracia e o Estado de Direito? Esse é um elemento-chave nas transições democráticas e é o principal tema para o futuro da democracia na Hungria. A história mostra que, quando os autoritários não são punidos, em muitos casos eles voltam ao poder e atacam a democracia.
A história de como a América Latina lidou com o legado de ditadores e aspirantes a ditadores, desde os julgamentos das juntas militares argentinas na década de 1980 até o recente julgamento de Jair Bolsonaro no Brasil, oferece uma lição histórica para a Hungria. E talvez também para os Estados Unidos após a era Trump.
As transições democráticas, embora gerem esperança em grande parte da população, também são processos delicados, lentos e propensos à frustração. A Hungria pós-Orbán é e será tudo isso. As multidões que dançavam em frente ao Parlamento húngaro após a vitória de Magyar lembravam aquelas que dançavam sobre o Muro de Berlim em 1989 e na Avenida 9 de Julho, em Buenos Aires, em 1983. No entanto, esses foram casos de transições políticas de regimes autoritários para democráticos. A situação da Hungria é diferente e talvez estejamos diante de um novo tipo de processo de democratização. Não se trata do fim do autoritarismo, mas do fim da “desliberalização” da democracia.
O que definiu o governo de Orbán como não democrático foi a promulgação, a partir de 2011, de profundas reformas constitucionais que consolidaram os valores conservadores, reforçaram o controle político sobre o poder judiciário, modificaram os procedimentos eleitorais, centralizaram o poder e minaram os direitos humanos. A erosão do Estado de Direito, a destruição do equilíbrio de poderes e a “colonização” das instituições civis, dos meios de comunicação e das agências estatais independentes pelo Fidesz transformaram a Hungria de Orbán em um regime político singular.
Vários especialistas definiram esse regime como um Estado mafioso, uma democracia híbrida, um aspirante ao fascismo, um autoritarismo legal ou um regime iliberal com traços autocráticos. E é que a Hungria já não era uma democracia, mas também não era um regime autoritário em todos os sentidos.
Dito isso, os desafios de Peter Magyar não serão muito diferentes daqueles enfrentados por Alfonsín na Argentina, Suárez na Espanha, Walesa na Polônia ou Frei no Chile. Transições para a democracia que passaram por reformas constitucionais, leis que consolidaram a superioridade da autoridade civil, reabilitaram partidos políticos e ampliaram os direitos civis e políticos, sem realizar purgas em massa no aparato de segurança, reformar todo o sistema judicial e sem processar quadros inteiros do regime anterior.
No caso da Argentina, Raúl Alfonsín enfrentou várias revoltas militares, e Adolfo Suárez teve que lidar com uma tentativa de golpe de Estado e com o terrorismo de extrema direita. Portanto, é provável que o novo governo enfrente certa resistência interna e sabotagem por parte dos leais a Orbán, especialmente se for impulsionado o desmantelamento dos obstáculos impostos pelo regime anterior. Isso poderia gerar instabilidade e relegitimar Orbán.
Dessa forma, poderíamos estar testemunhando um novo tipo de processo de democratização, a partir de um regime que se dedicou a desmantelar ativamente o Estado de Direito e as instituições democráticas, mas que ainda não havia cruzado o limiar do autoritarismo total, como demonstra a reversão eleitoral.
O Brasil e os Estados Unidos percorreram um caminho semelhante recentemente, em 2022-23 e 2020-2021, respectivamente. Embora em ambos os casos não possamos falar de “o regime de Trump ou de Bolsonaro”, é evidente que eles tinham a intenção de subverter a democracia, como demonstram suas respectivas tentativas de golpe de Estado. Ao negar os resultados das eleições de 2020 e fomentar mentiras sobre fraude eleitoral, Trump redefiniu a política populista, permitindo e inspirando outros líderes a negar a legitimidade eleitoral de seus oponentes. A tentativa de golpe de Trump em 6 de janeiro de 2021 encorajou outros, como Bolsonaro no Brasil.
Uma diferença chave é que Bolsonaro foi julgado por seus crimes contra a democracia brasileira e, em 11 de setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal o condenou a 27 anos de prisão. O Brasil estabeleceu assim um precedente para as democracias do mundo. Em contrapartida, no caso de Trump, não foi feita justiça. Ele foi autorizado a lançar sua terceira campanha presidencial e retornar ao poder.
Se Peter Magyar for sincero em seu desejo de retornar à democracia, terá de enfrentar desafios importantes, sobretudo no que diz respeito ao equilíbrio entre justiça, estabilidade social e econômica e viabilidade a longo prazo. A história nos ensina que o revanchismo, por si só, leva a resultados antidemocráticos ou tecnocráticos. O desafio reside em como integrar alguns dos partidários do líder autoritário em uma forma de democracia mais inclusiva e igualitária.
Sempre que um regime antidemocrático cai, surge a questão fundamental de até que ponto, e por quanto tempo, será feita justiça.
Tradução automática revisada por Isabel Lima











