Há questões que as civilizações não resolvem: só reformulam. Os atores, as ideologias ou o recurso estratégico do momento mudam, mas o problema permanece intacto. O século XX tentou com petróleo, cobre e borracha. O século XXI voltou a tentar com as terras raras. A questão continua a mesma: como um país rico em recursos naturais transforma essa riqueza em autonomia real?
Nem o livre mercado nem as nacionalizações conseguiram alterar a divisão que mantém alguns países como exportadores de matérias-primas e outros como centros de processamento industrial e manufatura avançada.
O recurso que redefine o poder
As terras raras não são particularmente escassas. O extraordinário não é sua abundância geológica, mas sua importância estratégica: um grupo de até 17 elementos cujas propriedades únicas os tornam praticamente insubstituíveis na tecnologia que sustenta a economia contemporânea. Veículos elétricos, turbinas eólicas, satélites, sistemas de defesa e semicondutores dependem deles. Sem esses minerais, a transição energética deixa de ser um projeto viável e a superioridade tecnológica das grandes potências torna-se vulnerável.
A China entendeu antes de todos que o verdadeiro poder não estava em extrair minerais, mas em dominar seu processamento. Durante décadas, construiu uma política industrial que hoje lhe permite controlar 60% da produção mundial e 90% do refinamento. Não é uma vantagem geológica: trata-se de infraestrutura, subsídios e planejamento estatal que o Ocidente terceirizou durante anos.
Quando o conflito comercial com os Estados Unidos se intensificou em 2025, Pequim respondeu restringindo as exportações de terras raras. A mensagem foi clara: a dependência ocidental reside também na capacidade chinesa de processar esses materiais. A reação estadunidense revelou algo mais profundo do que uma política comercial: uma estratégia de garantia de recursos estratégicos aplicada com métodos distintos, segundo a margem de negociação de cada país.
A doutrina e seus casos
O princípio que organiza essa estratégia não é ideológico, é estrutural: qual é a margem real de negociação do país que controla o recurso. Essa questão determina o método (acordo, condicionamento ou imposição), mas não o objetivo.
A Ucrânia foi um dos primeiros casos. Em maio de 2025, Washington e Kiev assinaram acordos relacionados a grafite, titânio, urânio e terras raras. Parte dessas reservas encontra-se em regiões ocupadas desde a invasão russa de 2022, o que transforma a guerra em algo mais do que um conflito territorial ou civilizacional. Formalmente, a soberania ucraniana permanece intacta. Na prática, porém, ela foi subordinada a interesses ligados ao controle de recursos críticos.
A Venezuela representa a versão mais extrema. Após a operação dos EUA que resultou na captura de Maduro, Washington anunciou a entrada de empresas americanas no Arco Mineiro do Orinoco, uma área de 111.000 quilômetros quadrados com reservas de ouro, coltan e minerais de terras raras.
A Groenlândia é o caso que elimina a última desculpa. Quando se trata da Venezuela, a análise pode invocar a ditadura. Quando se trata da Ucrânia, pode invocar a natureza excepcional da guerra. A Groenlândia não permite nenhuma dessas saídas: é um território autônomo dentro do Reino da Dinamarca, um aliado formal da OTAN e um membro central do Ocidente. Mesmo assim, Trump insistiu em adquiri-la ou garantir influência estratégica sobre ela por causa de suas reservas de terras raras e urânio e sua posição em um Ártico que o derretimento do gelo está transformando em uma rota marítima estratégica. Quando os minerais são suficientemente críticos, as alianças formais tornam-se meramente decorativas.
O Brasil tentou uma abordagem diferente. No recente encontro com Trump, trouxe à mesa algumas das maiores reservas de terras raras do mundo e estabeleceu uma condição: não quer se limitar à exportação de matérias-primas, mas sim desenvolver atividades de processamento e agregação de valor dentro de suas fronteiras. Lula fala em soberania nacional. Nas zonas de extração, as comunidades indígenas que vivem acima desses depósitos vêm exigindo consulta prévia há anos.
A posição aponta na direção certa, mas transformar essa aspiração em um projeto sustentável exige infraestrutura tecnológica, estabilidade política e planejamento a longo prazo: três condições difíceis de manter simultaneamente.
A Argentina, em contraste, caminhou rumo a acordos com Washington que incluíam exigências industriais menos rigorosas e uma abertura mais rápida ao capital estrangeiro.
África e a memória mais longa
A África conhece esse dilema há mais tempo do que ninguém. O Congo detém 70% das reservas mundiais de cobalto, um mineral essencial para baterias elétricas, e ainda assim continua sendo um dos países mais pobres do planeta. A China expandiu massivamente sua presença na mineração na África nas últimas duas décadas. A França e outras potências europeias já fizeram isso antes, por meio de mecanismos diferentes.
O que a África demonstra com brutal clareza é que a mudança de compradores não altera o padrão: apenas o diversifica. A transição da França para a China, ou da China para os Estados Unidos, pode multiplicar as dependências sem alterar o núcleo dessa dependência: quem controla a tecnologia, o refino e as cadeias de valor.
Os recentes golpes militares no Sahel também devem ser interpretados sob essa perspectiva. Por trás da retórica soberanista, esconde-se uma disputa concreta sobre quem garante o acesso ao urânio, ouro e manganês.
A Encruzilhada sem bússola
Aqui reside o problema filosófico subjacente, e ele é mais perturbador do que a conjuntura. Seria tentador interpretar tudo isso usando categorias herdadas: imperialismo, dependência ou neocolonialismo. Essas categorias ainda descrevem algo real. Mas elas não descrevem mais toda a realidade, porque o mundo ao qual pertencem deixou de existir.
A China, principal potência no processamento global de terras raras, é um Estado unipartidário que combina planejamento estatal com profunda participação nos mercados globais e construiu sua hegemonia mineral por meio de uma política industrial difícil de enquadrar nas categorias ideológicas clássicas do século XX.
Os Estados Unidos, por sua vez, subsidiam indústrias nacionais, condicionam a soberania de aliados e aplicam a mesma lógica de apropriação de recursos à Ucrânia, Venezuela e Groenlândia sem qualquer distinção ideológica apreciável.
Nenhum dos dois se encaixa no século XX. O que emerge são variantes do capitalismo de Estado competitivo disputando o controle dos nós críticos da economia global. Nessa luta, a América Latina, a Ucrânia, o Congo e a Groenlândia enfrentam a mesma encruzilhada que o século XX não conseguiu resolver, mas agora sem as ideologias que ao menos prometiam uma saída.
No século XX, ainda existiam mapas ideológicos. A esquerda prometia nacionalizar e industrializar. A direita, integrar e liberalizar. Ambas falharam em aspectos fundamentais, mas ao menos ofereciam uma direção.
Hoje, o Brasil sob Lula e a Argentina sob Milei improvisam dentro da mesma estrutura que Prebisch descreveu há setenta anos, partindo de filosofias opostas e sem uma teoria verdadeiramente nova. Esse é o aspecto mais perturbador. Não a repetição do dilema. A repetição sem bússola.
A janela de oportunidade e suas condições
Este não é um argumento a favor do fatalismo. Os países com minerais críticos agora têm poder de negociação real: os Estados Unidos, a China e a Europa precisam simultaneamente de acesso seguro a esses recursos para sustentar suas transições energética, tecnológica e militar. Isso cria uma janela de oportunidade.
A disputa não se limita mais a reorganizar mercados ou cadeias de suprimentos. Ela também está transformando acordos comerciais e alianças regionais em instrumentos de segurança econômica, coordenação industrial e acesso preferencial a recursos estratégicos. Mas converter essa vantagem em autonomia duradoura exige condições que historicamente têm sido difíceis de coordenar: capacidade de refino doméstica, investimento tecnológico sustentado, estabilidade institucional e cooperação regional entre os países produtores.
A Espanha enfrenta uma variante do mesmo dilema. A região de Campo de Montiel detém um dos maiores depósitos de terras raras da Europa, com potencial para suprir 60% da demanda continental por uma década. No entanto, a Europa ainda importa 80% das terras raras que consome. A armadilha da dependência de fornecedores não conhece fronteiras geográficas nem níveis de desenvolvimento que a tornem imune.
A disputa pelas terras raras não está apenas redefinindo a geopolítica contemporânea. Ela também está forçando uma reavaliação de uma questão muito mais antiga: se os países que possuem os recursos essenciais para o século XXI serão finalmente capazes de transformar essa riqueza em verdadeira autossuficiência. A diferença desta vez é que já sabemos a resposta. Não podemos fingir surpresa.
As terras raras estão em jogo. A pergunta é: por quanto tempo mais?










