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Duas Venezuelas: uma reconciliação pendente

Sem uma reconciliação entre a Venezuela interna e a externa, a divisão social continuará a limitar qualquer tentativa de reconstrução nacional sustentável.

Após anos de crise política, migração em massa e fragmentação social, a Venezuela não se dividiu apenas geograficamente. O país desenvolveu duas experiências que coexistem em paralelo: a daqueles que permanecem no território e a daqueles que o apoiam à distância.

Essa separação deixou de ser só uma consequência da crise. Hoje, ela funciona como um obstáculo estrutural para qualquer processo de reconstrução nacional. Não se trata de dois países distintos, mas de duas experiências do mesmo país que não conseguiram se reconhecer mutuamente.

A ideia de duas Venezuelas tem moldado a compreensão do país nos últimos anos. No entanto, um olhar mais amplo, como ocorre em outros processos migratórios na América Latina, evidencia que a experiência está fragmentada, mas a ferida é compartilhada. Essa desconexão não descreve só o presente: condiciona a viabilidade de qualquer cenário de reconstrução.

Quem permanece no país carrega o desgaste cotidiano, a incerteza e uma resiliência pouco reconhecida. Quem emigrou enfrenta a culpa, a nostalgia e a experiência de viver entre dois lugares. Ambas as perspectivas são parciais, mas indispensáveis para compreender o país. O problema não é a sua existência, mas a falta de reconhecimento entre elas.

Essa falta de reconhecimento não é só simbólica. Tem efeitos diretos sobre a política. Isso dificulta a construção de agendas comuns, fragmenta as prioridades e debilita a possibilidade de articular lideranças com legitimidade transversal. Enquanto uma parte do país age a partir da urgência cotidiana e outra a partir da distância, a coordenação entre os atores torna-se frágil e dependente de conjuntura, mais do que de estruturas sustentáveis, o que limita a possibilidade de manter formas de ação coletiva ao longo do tempo.

Episódios recentes, como os gritos racistas no ato protagonizado por María Corina Machado na Plaza del Sol, em Madri, evidenciam até que ponto a polarização se reproduz fora do país. Em espaços de mobilização política no exterior, a linguagem de confronto tende a replicar as mesmas lógicas de exclusão que marcaram a dinâmica interna do país, o que dificulta a construção de marcos mínimos de reconhecimento entre os atores. Esse tipo de linguagem não só reflete a polarização: ela a reproduz e normaliza como forma de ação política.

A reação posterior, que incluiu retratações públicas, estabelece um limite. Ela não corrige o problema, mas confirma que, mesmo em contextos de alto confronto, persiste a necessidade de contenção. Esse ponto de atrito expõe que a reconciliação não é um gesto simbólico, mas uma condição ainda não resolvida.

Nesse contexto, a reconciliação deixa de ser um slogan e se torna uma condição operacional. Sem reconciliação entre a Venezuela interna e a externa, qualquer tentativa de reconstrução institucional será incompleta e frágil. Sem esse reconhecimento, a fratura não só persiste: se torna um mecanismo que reproduz a desconfiança, limita a coordenação entre os atores e enfraquece a capacidade de construir acordos mínimos sustentáveis.

A experiência comparada na América Latina mostra que os processos de transição não se sustentam apenas em acordos entre elites políticas, mas na capacidade de integrar atores que operam fora do território imediato do Estado. Na Colômbia, por exemplo, a diáspora foi incorporada em mecanismos de participação por meio de consultas e espaços deliberativos vinculados ao processo de paz. Em El Salvador, o reconhecimento do voto no exterior e do peso estrutural das remessas obrigou a redefinir a relação entre o Estado e seus cidadãos fora do território.

Esses mecanismos não resolveram por si sós as tensões internas, mas permitiram integrar uma dimensão que, de outra forma, teria permanecido desconectada do processo político. A diferença em relação ao caso venezuelano é que essa integração ainda não faz parte de sua arquitetura política.

No caso venezuelano, a diáspora não é um ator periférico: é um componente estrutural do país contemporâneo. Sua exclusão dos mecanismos de deliberação política não só reduz a representatividade de qualquer acordo, mas introduz uma forma de legitimidade política fragmentada que limita sua viabilidade ao longo do tempo.

A disputa pela legitimidade — quem entende melhor o país, quem sofre mais com ele — não é só simbólica. Ela tem efeitos concretos na capacidade de coordenação entre atores políticos, na definição de agendas comuns e na construção de acordos sustentáveis. Quando essa disputa permanece em aberto, a fragmentação deixa de ser um diagnóstico e se torna um obstáculo operacional.

A reconciliação, nesse contexto, não pode ficar no nível de um apelo abstrato. Ela requer formas concretas de articulação entre ambas as experiências do país. Isso implica abrir mecanismos de participação política transnacional, reconhecer a representação da diáspora em processos deliberativos e construir espaços institucionais onde essas duas experiências possam se encontrar sem que uma invalide a outra. Isso ganha maior relevância em um contexto em que o retorno em massa não é uma possibilidade imediata, o que torna a participação transnacional uma via operacional para integrar essa dupla experiência do país. Sem esses mecanismos, a diáspora continua sendo um ator relevante, mas politicamente incompleto.

Em última instância, a reconciliação não é apenas um acordo entre atores, mas uma redefinição da comunidade política: quem faz parte dela, de onde e sob quais condições.

A capacidade de uma sociedade de se reconciliar consigo mesma define sua possibilidade de avançar. Sem esse passo, qualquer mudança política continuará operando sobre uma fratura não resolvida, uma dinâmica que também se observa em outras sociedades latino-americanas marcadas por processos migratórios prolongados.

A reconciliação entre a Venezuela interna e a externa não é um resultado automático da mudança política. É uma condição prévia para que essa mudança seja sustentável. Sem esse reconhecimento mútuo, qualquer processo de transição partirá de uma legitimidade incompleta e de uma capacidade limitada de manter acordos ao longo do tempo. A questão, portanto, não é se a reconciliação é desejável, mas se o país está disposto a arcar com o custo político de construí-la.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

Escritor e consultor em comunicação política e institucional. Analisa a política, a sociedade e a dinâmica da mobilidade na América Latina, com ênfase em suas implicações institucionais e na construção da comunidade política.

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