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A lacuna de gênero esquecida no setor hídrico: da força de trabalho à governança da água

A desigualdade de gênero no setor hídrico não prejudica apenas as mulheres: ela também limita a capacidade das instituições de enfrentar a crescente crise hídrica.

Durante décadas, o debate sobre gênero e água focou, com razão, nas mulheres e meninas como usuárias da água. O acesso à água potável e ao saneamento tem sido uma prioridade da agenda internacional e um componente essencial do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6. No entanto, há uma dimensão que continua ausente nesse debate: as mulheres como profissionais do setor hídrico.

Hoje, milhares de mulheres são engenheiras, hidrólogas, cientistas, empreendedoras, líderes comunitárias e responsáveis por políticas públicas. Negociam acordos sobre águas transfronteiriças, dirigem órgãos operacionais, desenvolvem novas tecnologias e elaboram políticas para uma gestão hídrica mais justa e sustentável.

E, no entanto, persiste uma profunda contradição. Embora as mulheres desempenhem um papel cada vez mais importante na pesquisa, na gestão e na governança da água, elas continuam significativamente sub-representadas em cargos técnicos, de liderança e de tomada de decisão. O Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2026, da UNESCO, destaca que, globalmente, menos de 20% do pessoal das agências operadoras de água é composto por mulheres e que, em 2018–2019, elas representavam apenas 17,7% dessa força de trabalho.

Ao mesmo tempo, dois em cada três países precisam aumentar em pelo menos 75% sua força de trabalho nas áreas de água, saneamento e higiene, e 40% reconhecem não ter capacidade suficiente para gerenciar os crescentes conflitos entre os diferentes usos da água. Em outras palavras, o setor precisa urgentemente de mais profissionais, mas continua desperdiçando uma parte significativa do talento disponível.

Isso não é só uma questão de igualdade; é uma questão de governança, inovação e resiliência institucional. As mudanças climáticas, o crescimento urbano, o envelhecimento da infraestrutura e a transformação digital exigem organizações capazes de atrair e reter os melhores talentos disponíveis. No entanto, ainda sabemos muito pouco sobre as trajetórias profissionais das mulheres no setor.

Por que elas continuam sub-representadas em cargos de direção? Quais políticas trabalhistas realmente favorecem seu desenvolvimento profissional? Como uma maior diversidade influencia a qualidade das decisões e o desempenho das instituições responsáveis pela gestão da água? Quais barreiras institucionais, culturais e organizacionais continuam limitando seu desenvolvimento profissional?

Ainda há poucos dados comparáveis sobre contratação, promoção, liderança, remuneração ou cultura organizacional no setor hídrico. Sem evidências, é difícil elaborar políticas públicas e institucionais que permitam aproveitar plenamente o talento disponível.

As associações profissionais também podem contribuir para preencher essa lacuna de conhecimento. Redes como a Women in Water & Sanitation Network (WWSN) demonstram o valor de conectar mulheres profissionais por meio de programas de mentoria, liderança e troca de experiências. Da mesma forma, a Rede de Politólogas tem contribuído para dar visibilidade a mulheres especialistas e promover uma participação mais equitativa nos espaços de tomada de decisão.

As consequências dessa lacuna vão muito além da igualdade de gênero. Ao não atrair, reter e promover um número maior de mulheres, o setor hídrico está perdendo uma oportunidade de fortalecer sua força de trabalho justamente quando mais precisa dela. É uma perda para as profissionais, mas também para as instituições, as comunidades, os países e, em última instância, para a segurança hídrica mundial.

As mulheres continuam sub-representadas não apenas no setor privado, mas também nas instituições públicas, na liderança científica, nos espaços de tomada de decisão política e nas conferências internacionais. Sua escassa presença limita a diversidade de perspectivas necessária para enfrentar desafios cada vez mais complexos relacionados à água.

A Conferência das Nações Unidas sobre a Água de 2026 representa uma oportunidade para mudar essa realidade. Além de debater sobre financiamento, resiliência e governança, ela deve impulsionar uma agenda internacional de pesquisa sobre as mulheres na força de trabalho do setor hídrico e incorporar essa dimensão nos futuros processos de acompanhamento da governança hídrica. Compreender quem trabalha no setor, quais obstáculos enfrentam e quais condições favorecem sua liderança permitirá elaborar melhores políticas trabalhistas e fortalecer as instituições responsáveis por garantir a segurança hídrica.

Eliminar a desigualdade de gênero na força de trabalho do setor hídrico não é apenas uma questão de justiça social. É uma condição necessária para construir instituições mais sólidas, inovadoras e capazes de responder aos crescentes desafios hídricos do século XXI.

O futuro da água não dependerá apenas da infraestrutura, do financiamento ou da tecnologia. Dependerá também da nossa capacidade de reconhecer, reter e incentivar o talento das mulheres que já estão construindo esse futuro.

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Presidente da Rede Mulheres em Água e Saneamento (WWSN). Diploma em Estudos Regionais Latino-Americanos (Universidade de Colônia, Alemanha). Mestrado Executivo em Gestão da Comunicação (Universidade da Suíça Italiana, Lugano, Suíça).

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