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A transição justa deve falar de gênero

Uma transição justa não consiste apenas em substituir uma atividade econômica por outra, mas em corrigir as desigualdades sociais que o modelo anterior ajudou a consolidar.

No final de março de 2025, em uma escola de La Jagua de Ibirico, município localizado no Caribe colombiano, um grupo de estudantes, mulheres, homens e pessoas LGBTIQ+ se reuniu para contar como a devolução repentina das concessões de mineração de carvão da Prodeco S.A. em 2021 afetou suas vidas e seu território. Durante o encontro, falaram sobre empregos perdidos, medos, violência de gênero, dependência econômica e discriminações; ao mesmo tempo, elaboraram coletivamente recomendações de políticas públicas para evitar que tais situações se repitam na transição justa.

A cena reflete uma realidade que frequentemente fica de fora das discussões sobre a transição justa. As vozes da comunidade mostraram que os impactos do fechamento das minas não são vivenciados da mesma maneira. Mulheres e pessoas LGBTIQ+ relataram barreiras que vão desde a exclusão dos espaços de decisão até diversas formas de violência e discriminação. Suas experiências evidenciaram como os papéis e estereótipos de gênero, historicamente arraigados em um território marcado pela atividade extrativa, continuam condicionando as oportunidades e a participação daqueles que habitam o município.

Entendendo essa realidade, a Clínica Jurídica de Direitos Humanos da Universidade do Magdalena e o Núcleo de Pesquisa em Transição Energética (STEUnimagdalena) formularam uma pesquisa interdisciplinar, sociojurídica e participativa, financiada pela NRGI: “Desconstrução de padrões baseados em gênero como elemento fundamental da transição justa”. O processo se tornou um espaço de diálogo onde o conhecimento acadêmico e as experiências do território se uniram para imaginar alternativas de transição mais justas e inclusivas.

Um município adaptado ao carvão

La Jagua de Ibirico, no departamento de Cesar, é um dos territórios mais afetados pelo fim da exploração de carvão. Durante décadas, a mineração impulsionou boa parte da economia local: gerou empregos, dinamizou o comércio, atraiu população e moldou os projetos de vida de muitas famílias. No entanto, esse desenvolvimento também se construiu sobre profundas desigualdades.

Enquanto a mina absorvia principalmente mão de obra masculina, muitas mulheres permaneciam vinculadas a trabalhos de cuidados ou atividades do setor terciário. Assim, ao mesmo tempo em que o carvão gerava renda, também reforçava papéis de gênero que limitavam as oportunidades de boa parte da população.

Quando a Prodeco S.A. encerrou suas operações de mineração, a decisão foi justificada pela queda dos preços internacionais do carvão e pelos efeitos da pandemia, deixando milhares de pessoas diante de um cenário de incerteza. O impacto foi imediato. Comércios fecharam, a renda diminuiu e muitas famílias viram desaparecer a estabilidade econômica que, durante anos, havia girado em torno da mineração. O fechamento também trouxe à tona problemas que vinham se acumulando há tempo sob a superfície.

A violência que surge após o fechamento da mina

As oficinas participativas e os grupos focais evidenciaram que o fim da exploração de carvão estava transformando a economia local, revelando desigualdades estruturais relacionadas ao gênero e à diversidade de gênero. Essas percepções encontram eco nos números. Em 2024, La Jagua de Ibirico registrou 102 casos de violência de gênero, principalmente violência física, sexual e negligência, segundo dados do Sistema Integrado de Informações sobre Violências de Gênero. No entanto, por trás desses números existe uma realidade mais difícil de medir: os casos que nunca chegam a ser denunciados.

Durante os encontros comunitários, as mulheres falaram sobre a desconfiança em relação aos canais institucionais e das dificuldades para alcançar autonomia econômica em um contexto marcado pela perda de renda. As pessoas LGBTIQ+ relataram experiências de discriminação e exclusão que, em muitos casos, continuam limitando seu acesso a oportunidades de trabalho e espaços de participação. Por sua vez, os jovens expressaram incerteza em relação ao futuro e reconheceram a necessidade de ter mais informações sobre direitos, gênero e mecanismos de atendimento em casos de violência. Os homens também compartilharam reflexões sobre as pressões associadas aos modelos tradicionais de masculinidade, como estigmas, zombarias e sanções sociais contra aqueles que exercem uma masculinidade corresponsável.

Os depoimentos deixaram uma lição importante: uma transição justa não implica apenas transformar a economia, mas também questionar as relações de poder e os imaginários de gênero que organizam a vida cotidiana.

A transição justa não pode ser apenas produtiva

A experiência de La Jagua de Ibirico mostra que a transição não pode se resumir ao fechamento de minas ou à substituição de uma atividade econômica por outra. Se as desigualdades estruturais permanecerem intactas, o novo modelo poderá reproduzir as mesmas exclusões do anterior.

Nesse contexto, o trabalho desenvolvido pela Clínica Jurídica e pelo STEUnimagdalena buscou ir além do diagnóstico. A pesquisa permitiu formular recomendações de políticas públicas a partir das vozes da própria comunidade, abrindo um espaço para que as pessoas afetadas pelo fechamento da mina imaginassem alternativas para o futuro de seu território.

As recomendações convergiram em uma ideia central: a transição deve colocar as pessoas no centro. As mulheres insistiram na necessidade de fortalecer sua autonomia econômica; a população LGBTIQ+ pediu para ser reconhecida e incluída de forma efetiva nas políticas públicas; os jovens reivindicaram espaços reais de participação; e os homens destacaram a importância de promover processos educacionais que questionem as formas de violência e os estereótipos de gênero.

A academia diante do extrativismo acadêmico

Em territórios historicamente marcados pelo extrativismo, surge também uma questão para quem pesquisa: o que acontece quando a academia chega, coleta depoimentos, produz conhecimento e vai embora? Por isso, a pesquisa apostou em um processo de co-construção. O objetivo não foi falar em nome da comunidade, mas gerar contribuições que pudessem fortalecer seus processos de incidência. As conclusões e recomendações já foram compartilhadas com atores locais, instituições e organizações ligadas ao território.

O desafio agora é que essas propostas não fiquem restritas apenas a relatórios ou documentos técnicos. A transição em La Jagua de Ibirico já está em andamento. A questão é se será uma transição marcada pelo abandono ou uma oportunidade para construir um futuro mais justo e inclusivo.

Este artigo faz parte da coletânea “Clínicas jurídicas ambientais na América Latina e no Caribe: formação, território e justiça ambiental”, publicada em maio de 2026 pela Sociedade Peruana de Direito Ambiental, pela Aliança de Clínicas Jurídicas Ambientais da América Latina e do Caribe e pela Latinoamérica21.

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Economista e jovem pesquisadora da STEUnimagdalena, comprometida com uma transição energética justa, requalificação profissional e transformação social e de gênero em territórios que estão se recuperando da mineração de carvão.

Estudante de Direito, conciliadora jurídica e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Conhecimento Jurídico da Universidade de Magdalena, comprometida com os direitos humanos, a defesa de populações vulneráveis ​​e a igualdade de gênero.

Mestre em Direito, professora universitária e pesquisadora em direitos humanos e gênero. Pesquisadora do grupo Saberes Jurídicos e coordenadora da Clínica Jurídica de Direitos Humanos da Universidade de Magdalena. Membro da Rede Ibero-Americana de Mulheres pela Ação Climática.

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