Em 4 de outubro de 2026, serão realizadas simultaneamente no Brasil as eleições presidenciais, legislativas nacionais, para governadores e para as assembleias legislativas estaduais. As eleições provavelmente não determinarão uma reorientação ideológica fundamental do Brasil. Trata-se, antes, de um reajuste do equilíbrio político que caracteriza o país.
Muitos indicadores sugerem que Luiz Inácio Lula da Silva poderia conquistar novamente a presidência e assumir um quarto mandato. Ao mesmo tempo, as forças conservadoras e de centro-direita manterão ou até ampliarão sua posição institucional. Portanto, o paradoxo central do Brasil permanece intacto: um país predominantemente conservador em termos sociais e institucionais poderia eleger novamente um presidente de esquerda.
Além do presidente e do vice-presidente, serão renovados a totalidade da Câmara dos Deputados (513 cadeiras), dois terços do Senado (54 cadeiras), os 27 governadores e as assembleias legislativas dos estados federados (26 estados e o Distrito Federal de Brasília).
Caso nenhum candidato obtenha maioria absoluta nas eleições presidenciais ou para governador, será realizado um segundo turno em 25 de outubro de 2026.
As pesquisas mais recentes apontam para uma continuidade da polarização política entre a ala do PT liderada por Lula e o bloco bolsonarista. Lula lidera a intenção de voto com aproximadamente 38% a 41%, dependendo da instituta de pesquisa, enquanto Flávio Bolsonaro registra entre 33% e 37%. Os candidatos de correntes alternativas de direita ou liberal-conservadoras ficam claramente à retaguarda.
Situação política
Lula chega à eleição com um balanço misto. O governo se beneficiou da estabilidade do setor agropecuário, das elevadas receitas com exportações e de um papel internacional mais ativo do Brasil. No entanto, muitos cidadãos continuam percebendo problemas cotidianos sem solução.
A segurança é considerada por muitos cidadãos como o problema político mais urgente. Organizações criminosas transnacionais ampliaram sua influência e, em numerosas regiões, controlam áreas extensas, condicionam as economias locais e questionam abertamente a autoridade do Estado. A oposição conservadora se beneficia dessa situação, já que tradicionalmente se associa a políticas de segurança, ação policial e combate ao crime.
A corrupção também é um tema relevante. No entanto, as críticas já não se dirigem principalmente contra partidos específicos, mas contra o sistema político como um todo. Muitos eleitores consideram a corrupção um problema estrutural do Brasil e não uma característica exclusiva de uma determinada corrente política.
Embora a situação econômica esteja mais estável do que nos últimos anos do governo de Bolsonaro, o descontentamento com os serviços públicos continua elevado. Além disso, muitos brasileiros percebem uma distância crescente entre as elites políticas de Brasília e os desafios da realidade local.
A polarização entre Lula e Bolsonaro marca a vida política do país. Lula continua dominando no Nordeste, uma região estruturalmente mais vulnerável, e entre os setores de menor renda. Flávio Bolsonaro obtém seus melhores resultados no Sul e no Sudeste, entre os evangélicos e os eleitores de maior renda.
Lula, favorito em um país conservador
Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo o favorito para a reeleição. No entanto, sua vantagem é consideravelmente menor do que no início do ano.
A força política de Lula não pode ser explicada apenas pelo PT. Sua credibilidade pessoal transcende amplamente a base partidária. Para muitos brasileiros, Lula simboliza estabilidade social, oportunidades de ascensão econômica e experiência política.
Aqui se manifesta o paradoxo central da política brasileira: o país mantém traços conservadores em inúmeras questões sociopolíticas, mas Lula continua a gozar de altos níveis de confiança. Muitos eleitores distinguem conscientemente entre a figura de Lula e um apoio ideológico à esquerda. Um eleitor pode defender posições conservadoras em matéria de segurança, economia ou família e, mesmo assim, votar em Lula.
A fraqueza da oposição
O principal desafio do campo conservador não reside atualmente na falta de apoio social, mas em sua fragmentação. Embora Flávio Bolsonaro lidere o legado político de seu pai, ele precisa competir com outros candidatos conservadores.
Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (NOVO), ligados ao Centrão, representam diferentes variantes de uma visão liberal na economia e conservadora na política. Ambos contam com bases regionais sólidas e atraem eleitores conservadores que não se identificam plenamente com o bolsonarismo.
Enquanto Lula consegue manter relativamente unido o campo de esquerda, diversas figuras conservadoras dividem entre si os votos do espaço de centro-direita. Isso confere, atualmente, uma vantagem estratégica ao presidente em exercício.
Relações de poder: Executivo e Legislativo
As eleições para o Senado têm especial relevância. Diversos estudos sugerem que os partidos conservadores poderiam aumentar sua representação. Se isso ocorrer, as eleições de 2026 poderiam alterar de forma duradoura o equilíbrio entre o Executivo e o Legislativo. Como os senadores são eleitos para mandatos de oito anos, os efeitos dessas mudanças iriam muito além da próxima legislatura.
O agronegócio continua sendo um dos atores políticos mais influentes do país. A chamada Bancada Ruralista possui uma sólida estrutura organizacional e representa os interesses da agricultura voltada para a exportação. Sua influência é particularmente forte em estados como Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná.
A isso soma-se o peso crescente das igrejas evangélicas. Elas contam com grande capacidade de mobilização e concentram sua agenda política em temas relacionados à família, à religião e à segurança pública. Em quase todas essas áreas, defendem posições predominantemente conservadoras ou até mesmo ultraconservadoras.
Governadores conservadores como centros regionais de poder
A estrutura conservadora do Brasil se observa com especial clareza no âmbito estadual. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas representa a modernização econômica, o investimento em infraestrutura e uma política de segurança firme. Em Goiás, Ronaldo Caiado se consolidou como defensor da disciplina fiscal e de políticas favoráveis ao setor agropecuário. Por sua vez, Romeu Zema, em Minas Gerais, impulsionou uma agenda de reformas econômicas liberais e é visto como símbolo de um conservadorismo pragmático. No entanto, seu partido, o NOVO, costuma ser classificado como ultraconservador.
Os governadores administram orçamentos significativos, forças policiais e amplas redes regionais. Muitos deles já são considerados possíveis candidatos à presidência para o período pós-Lula. Mesmo que o atual presidente seja reeleito, eles continuarão sendo importantes contrapesos em relação ao governo federal.
O Centrão, verdadeiro centro de poder do Brasil
Os observadores internacionais costumam se concentrar na polarização entre Lula e Bolsonaro. No entanto, na prática, muitas vezes é o Centrão que determina a capacidade efetiva de governar. Ele é composto por partidos como MDB, PSD, União Brasil, Progressistas (PP) e Republicanos. Essas formações contam com fortes redes regionais, numerosos governadores, prefeitos e legisladores. O que as une não é tanto uma ideologia comum, mas um marcado pragmatismo político. A mídia brasileira fala de uma aliança informal entre o governo e o Centrão. Essa relação se baseia na participação política, em cargos ministeriais, em recursos estatais e em dotações orçamentárias parlamentares.
Atualmente, muitas decisões políticas já são tomadas com os olhos voltados para as próximas eleições, o que aumenta ainda mais a influência do Centrão.
*Texto publicado originalmente no Diálogo Político










