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A tragédia e a farsa dos Bolsonaro no Brasil

A derrota eleitoral e a fuga de Flávio Bolsonaro marcam o início de uma nova etapa para o bolsonarismo, caracterizada por disputas internas e pelos desafios que o novo governo de Lula terá de enfrentar.

Karl Marx escreveu, em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, o seguinte: “Hegel diz em algum lugar que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem, por assim dizer, duas vezes. Mas ele se esqueceu de acrescentar: uma vez como tragédia e outra como farsa”.

A tragédia política brasileira atingiu uma de suas manifestações mais graves desde a transição para a democracia em 1985, com a trama golpista destinada a desconsiderar os resultados eleitorais, que culminou nos ataques violentos de 8 de janeiro de 2023 contra as sedes dos três poderes da República. O objetivo era colocar Jair Bolsonaro no poder à força.

Alguns anos depois, a família Bolsonaro voltou a ocupar o centro de outra crise, desta vez após a derrota do filho de Jair, Flávio Bolsonaro, nas recentes eleições. Após a derrota, o senador fugiu do Brasil rumo aos Estados Unidos, contrariando uma decisão do Supremo Tribunal Federal que o impedia de sair do país, depois que seu irmão Eduardo anunciou publicamente que, com essa saída, ele evitaria as investigações judiciais contra si.

A história não se repete mecanicamente, assim como a farsa não constitui uma reprodução exata da tragédia. O que torna relevante a observação de Marx é a possibilidade de reconhecer, por trás de acontecimentos distintos, comportamentos políticos que adquirem novos significados de acordo com suas circunstâncias históricas.

A estrutura do bolsonarismo

No caso recente, além da lamentável fuga de Flávio Bolsonaro, surge uma questão mais importante: como será o futuro do bolsonarismo que, apesar de ter perdido a presidência, obteve uma representação significativa no Congresso Nacional.

Os acontecimentos após as eleições configuram um novo contexto para o próximo governo de Lula, em comparação com o que se delineava após o primeiro turno. Os grupos de direita e de extrema direita obtiveram maioria nas câmaras do Congresso Nacional, o que facilitaria a aprovação de reformas caso Flávio Bolsonaro vencesse e dificultaria a gestão de Lula caso ele fosse eleito. No entanto, com a fuga de Flávio Bolsonaro, a oposição encontra-se em uma posição mais vulnerável e pode acabar perdendo coesão.

A representação do bolsonarismo na Câmara dos Deputados e no Senado divide-se em três grupos marcadamente diferenciados que disputarão espaços de poder e influência dentro do Congresso. Um deles é o dos jovens influencers radicais de extrema direita, com pouca ou nenhuma experiência nos meandros do Congresso Nacional. Sua influência institucional pode ser limitada, mas eles contam com uma mobilização midiática relevante e manterão uma crítica radical ao governo de Lula.

Um segundo segmento é constituído pela senadora eleita Michele Bolsonaro, esposa de Jair Bolsonaro, ligada ao meio religioso associado ao influente pastor Silas Malafaia e, com isso, à bancada evangélica no Congresso. Esse setor apresenta maior coesão em torno do conservadorismo religioso, enquanto a ex-primeira-dama tem mantido divergências públicas com seus enteados

O terceiro grupo é o mais pragmático, composto por deputados e senadores que se aproximaram de Flávio Bolsonaro para tirar proveito da situação e tendem a buscar acordos onde puderem conservar ou ampliar sua capacidade de influência. São próximos aos partidos fisiologistas ou ao chamado Centrão, como são conhecidos os parlamentares que negociam apoio político em troca de participação no governo, recursos orçamentários ou cargos públicos.

Entre seus principais articuladores está o experiente Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal, que esteve preso pelo escândalo do mensalão. Nesse espaço também pode ser incluído o atual governador reeleito de São Paulo, Tarcisio de Freitas, que poderia tentar desbancar a família Bolsonaro e lançar uma candidatura à presidência para 2030.

O futuro de Lula

Lula, por sua vez, inicia seu novo mandato em uma situação mais favorável, já que pode ter maiores possibilidades de negociação, embora enfrente desafios importantes, entre eles o equilíbrio das contas públicas. A seu favor, tem a prerrogativa de nomear quatro novos ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF) durante seu mandato, embora cada nomeação deva ser aprovada pelo Senado. Não se deve esquecer que setores do bolsonarismo têm defendido medidas contra membros do Supremo Tribunal Federal, o que torna a relação entre o Congresso e o tribunal um dos pontos sensíveis da nova legislatura.

Nesse contexto, a agenda mais radical do bolsonarismo poderia encontrar obstáculos se o governo conseguir estabelecer negociações com um ou mais de seus segmentos. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tenta se adaptar ao seu novo papel: autoproclamou-se presidente legitimamente eleito; depois, líder do Brasil; líder da oposição a partir dos Estados Unidos; e vítima de uma suposta perseguição política. 

A história, como alertou Marx, não se repete de forma idêntica. Desta vez, a farsa foi encenada pela fuga grotesca de Flávio Bolsonaro após a derrota eleitoral e pela pretensão de exercer uma autoridade que as urnas não lhe concederam, apresentando-se ao mundo como vítima de perseguição política.

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Cientista político. Professor e pesquisador associado da Universidade Federal de Goiás, (Brasil) Doutor em Sociologia pela Univ. de Brasília (UnB). Pós-doutorado na Univ. de LUISS (Italia). Especializado em estudos comparativos sobre a América Latina.

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