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A derrota como motor da vitória

A remontada de Lula não se explica pelo triunfalismo nem por uma estratégia de marketing, mas pela rejeição a Flávio Bolsonaro e por uma mobilização militante que transformou a ameaça em votos.

Na véspera do segundo turno, as pesquisas davam a Luiz Inácio Lula da Silva cerca de 49% dos votos válidos. As urnas lhe deram 51,8%, três semanas depois de ele ter ficado 2,2 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro. Uma receita de bolo de marketeiro manda anunciar que o próprio candidato está na frente, porque isso atrairia votos. Esta eleição mostrou que nem sempre esse tom triunfalista funciona: aqui, o motor da vitória foi a derrota no primeiro turno.

O que a aprovação explicava

O cientista político Alberto Carlos Almeida propôs no livro A cabeça do eleitor uma regra tão simples quanto eficaz. Quando a soma das avaliações ótimo e bom do governo passa de 45% ou 50%, o governo é favorito, e abaixo de 40% a vantagem é da oposição. Em 2026 a regra apontava para a oposição, com um governo que o Datafolha situava em 35% de aprovação em meados de outubro. As pesquisas qualitativas que realizamos na IPSE Global com o LabDes/UNIRIO entre novembro de 2025 e setembro de 2026 mostravam isso por dentro. Os eleitores não sabiam como defender a continuidade, nem por que o governo merecia seguir, a não ser com o argumento da oposição ao bolsonarismo.

Essas mesmas conversas, e as pesquisas que davam rejeição de 46% a Lula e de 44% a Flávio, apontavam outra variável decisiva. O modelo de Almeida é correto e suficiente em eleições com rejeições moderadas, mas, quando os dois candidatos passam de 40%, o voto contra o adversário passa a prever tanto ou mais que a avaliação do governo. Os especialistas Alan Abramowitz e Steven Webster descreveram isso como partidarismo negativo nos Estados Unidos, e David Samuels e Cesar Zucco o mostraram no Brasil ao estudar o antipetismo.

As circunstâncias antes da técnica

Muitos analistas descrevem a virada como se existisse uma fórmula tecnológica capaz de produzi-la. O que a tornou possível foram as circunstâncias e o papel que cada ator ocupou nelas. Às vésperas do primeiro turno, o governo vinha de quase quatro anos sem ter comunicado o que havia feito, o que deixara a militância sem argumentos para defendê-lo. A campanha do primeiro turno foi triunfalista, apoiada em ataques a Flávio e nas pautas do Supremo Tribunal Federal e do caso Vorcaro, o que acabou desgastando o próprio governo.

O principal candidato da oposição encarnava a mudança radical de um sistema que não satisfaz as pessoas, como também mostravam as pesquisas qualitativas. E o discurso de vitória no primeiro turno do lulismo deixou a militância passiva e confiante, com uma campanha descentralizada e desorganizada em todo o país.

O resultado do primeiro turno mudou os papéis. A rejeição a Flávio e os argumentos acumulados contra ele deram à militância um motivo para se mobilizar. A campanha presidencial se centralizou e passou a comunicar as entregas materiais, que nas pesquisas qualitativas apareciam como o que mais importava ao eleitor. Lula fez novas entregas em plena campanha, num terreno em que o adversário não podia competir, e deslocou a disputa do campo da corrupção, onde seu nome seguia associado à Lava Jato, para o das realizações, onde Flávio não tinha como ganhar.

Além disso, não é qualquer liderança que consegue encabeçar a onda que vimos no segundo turno, com a mesma legitimidade histórica que Lula tem e com toda a sua capacidade de emocionar seus seguidores.

Um inimigo comum e um salto no vazio

O balde de água fria foi o adversário ter recebido mais da metade dos votos. Ao desânimo inicial seguiu-se o medo. Muitos interpretaram um governo de Flávio Bolsonaro entre cenários que iam de uma ditadura ou uma ditabranda a vinte anos de extrema direita sem alternância.

Os especialistas Daniel Kahneman e Amos Tversky mostraram que as perdas pesam mais que ganhos equivalentes, e aqui o benefício da continuidade era incerto e o dano provável da derrota parecia insuportável. A ansiedade, que segundo os cientistas políticos norte-americanos George Marcus, Russell Neuman e Michael MacKuen, autores da teoria da inteligência afetiva, rompe os hábitos e obriga a prestar atenção, teve um objeto preciso: um inimigo comum apresentado como inimigo do país e aliado a um inimigo externo, cuja vitória seria um ponto sem volta, um cheque em branco, um salto no escuro.

Ao mesmo tempo, a diferença era pequena. Conquistando parte de quem tinha se abstido, era possível ganhar, e essa luz no fim do túnel transformou o medo em energia. A militância se agarrou a essa margem e lutou até o fim naquela que foi a maior mobilização da história do país. O voto é secreto, mas é possível estimar como os eleitores se moveram comparando, seção eleitoral por seção eleitoral, os resultados do primeiro e do segundo turno, uma técnica conhecida como inferência ecológica. Segundo esse cálculo do Instituto de Pesquisa IPSE Global, dos cerca de 11 milhões de votos que Lula somou, 4,6 milhões vieram de outros candidatos, 3,8 milhões de quem não tinha ido votar e 3,1 milhões do voto branco ou nulo.

Onde a técnica contou

A técnica importou, mas na condução de um contexto favorável e com os atores certos. O deputado André Janones criou no WhatsApp, na própria noite do primeiro turno, o canal Exército do Lula, e atuou como maestro. O tom era lúdico, caricato e divertido, com gamificação, missões concretas e baratas e a metáfora da guerra como moldura, com patentes de general e soldados, papéis claros e imaginários fáceis de ativar. Entre 18 e 25 de outubro, emitiu 130 missões. O sistema de metas foi decisivo. Metas que pareciam difíceis eram cumpridas numa velocidade espantosa e davam esperança. E as seguintes, ainda mais ambiciosas, eram alcançadas com a mesma facilidade e alimentavam o entusiasmo da militância.

O canal nunca buscou somar indecisos nem abstencionistas. Seu jogo era capilarizar e intensificar o trabalho da própria militância no mundo real, na rua, na família e no trabalho. O objetivo era gerar uma onda e contagiar outros até alcançar quem não pensava em votar em Lula.

O que os modelos precisam aprender

Na IPSE Global medimos esse movimento nas publicações abertas das redes, onde o campo de Lula passou de 41% para 65% das interações e a rejeição a Flávio de 30% para 56%, e o levamos a uma simulação com mais de sete milhões de agentes. Só com as pesquisas, o modelo dava a Lula 27% de probabilidade de vencer, em linha com os principais modelos do país, que lhe atribuíam entre 16% e 30%. Ao incluir a comunicação política e a mobilização no modelo preditivo, a probabilidade de vitória de Lula subiu para 47%, a mais próxima do resultado entre os modelos preditivos publicados antes da votação do segundo turno. Segundo nosso cálculo pós-eleitoral, com um ajuste no modelo que aumenta o peso da comunicação política na fórmula, teria sido possível antecipar o vencedor com 61% de probabilidade.

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Diretor Executivo do Instituto de Pesquisa de Inteligência IPSE. Pesquisador em opinião pública, enquadramento discursivo na mídia e ciências da computação.

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