A vitória do candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro no primeiro turno pegou Lula de surpresa, já que ele esperava vencer a eleição no primeiro turno. Ainda é difícil entender em que se baseavam essas expectativas. As pesquisas indicavam que a maioria dos brasileiros desaprovava sua gestão. De fato, nas duas únicas ocasiões em que os petistas venceram no primeiro turno, em 2006 e 2010, conseguiram isso apoiados pela alta aprovação do presidente em exercício na época, o próprio Lula. No Brasil, desde o retorno da democracia, nenhum candidato presidencial do governo cujo partido tivesse uma percepção negativa por parte da população conseguiu, no final das contas, sair vitorioso. E é que o que mais impulsiona a reeleição de um presidente é o índice de aprovação.
A confiança excessiva poderia ter sido apenas uma curiosidade se não tivesse certamente contribuído para a vitória de Flávio Bolsonaro e de seu partido (Liberal) nas duas casas do Congresso. Com o apoio de seus aliados de direita (Partido Progressista e Republicanos), os bolsonaristas podem chegar a controlar 59% das casas legislativas, com a possibilidade até mesmo de alterar a favor deles a correlação de forças dentro do Supremo Tribunal Federal. Para completar, a coalizão vencedora do primeiro turno também conquistou os governos dos estados mais populosos e ricos. Segundo a politóloga brasileira Rivera Hoyos, o bolsonarismo conquistou as condições para transformar uma mudança de partido em uma mudança de regime.
Flávio Bolsonaro ainda não tem o poder executivo garantido. No entanto, os candidatos que ficaram na terceira à quinta colocação no primeiro turno, o psiquiatra e popular autor de livros de autoajuda Augusto Cury e os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema, anunciaram seu apoio ao candidato de extrema direita para o segundo turno. Os antecedentes também parecem favorecer Bolsonaro. No Brasil, nenhum candidato à presidência que perdeu o primeiro turno conseguiu reverter esse resultado no segundo.
A eleição presidencial ainda não está decidida
O roteiro que os acontecimentos no Brasil estão seguindo não se encaixa necessariamente na crônica de uma morte anunciada. Para a coalizão governista, alguns indícios são favoráveis. A experiência comparativa mostra que, quando um presidente concorre à reeleição, sua aprovação não tende a estagnar ou recuar, mas sim a subir significativamente. Com isso, também cresce seu volume de votos.
Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2014 na Colômbia e no Brasil, a aprovação dos presidentes Juan Manuel Santos e Dilma Rousseff, respectivamente, subiu vários pontos percentuais, contribuindo para a vitória eleitoral de ambos. Uma tendência semelhante foi registrada nas eleições presidenciais de 2019 na Argentina e de 2022 no Brasil com os ex-presidentes Mauricio Macri e Jair Bolsonaro, embora nenhum dos dois tenha conseguido se impor.
Graças a uma importante revalorização de sua gestão desde as primárias até o primeiro turno, Macri conseguiu evitar o desastre que os resultados preliminares obtidos antes do primeiro turno prenunciavam. Por sua vez, a aprovação de Jair Bolsonaro passou de inequivocamente negativa antes da campanha para praticamente se equiparar ao nível de sua desaprovação. Essa situação permitiu que ele vendesse cara sua derrota diante do adversário Lula, ao perder por uma diferença mínima.
Nas três semanas seguintes ao primeiro turno no Brasil, em maior ou menor grau, as principais empresas de pesquisa começaram a registrar uma tendência de alta na aprovação de Lula. De acordo com o Datafolha, em 15 de outubro a pesquisa refletia um empate técnico. A gestão de Lula ainda não alcançou uma avaliação positiva, mas conseguiu sair da zona de desaprovação. O interessante é que a pesquisa é anterior à aprovação da reforma constitucional que estabelece dois dias de descanso por semana sem redução salarial, uma bandeira central da campanha de Lula. Um benefício que alcançará 14 milhões de brasileiros.
Por outro lado, o especialista Rovira Kaltwasser destacou como uma das principais condições para a ascensão ao poder da extrema direita na região a punição dos eleitores aos governos, particularmente aos de esquerda. Certamente, em 2023, o kirchnerismo sofreu uma forte punição, aproveitada por Javier Milei. Em 2025, no Chile, a Frente Ampla, no poder, e sua candidata Jeannette Jara foram esmagados por José Antonio Kast e pelo Partido Republicano. Por outro lado, no primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, Lula e o PT perderam por uma diferença inferior a dois pontos percentuais. Esse resultado mostra uma derrota parcial extremamente acirrada, na qual não percebemos necessariamente uma punição por parte dos eleitores.
Mais do que uma eleição
O significado do segundo turno do próximo domingo possivelmente terá um alcance maior do que o de qualquer outra eleição. Dado o enorme poder institucional acumulado após o primeiro turno pelo bolsonarismo, caso ele venha a controlar também o Poder Executivo, teria a oportunidade de avançar no sentido de subjugar os contrapesos institucionais e instaurar um regime populista de direita.
Não se deve esquecer que, no final do mandato de 2018 a 2022, o bolsonarismo revelou sua faceta mais autoritária, chegando a ameaçar não reconhecer os resultados eleitorais quando estes lhe foram desfavoráveis. E, uma semana após a posse de Lula, em janeiro de 2023, o bolsonarismo orquestrou um ataque em massa sem precedentes contra os principais poderes do Estado.
Prestes a completar 81 anos, o resultado do segundo turno pode acabar definindo os contornos do legado político de Lula. O final é importante. A imagem de Lula entregando a faixa presidencial ao filho de Jair Bolsonaro estaria longe de ser o melhor desfecho. Quase dezoito anos de lulismo e petismo no poder terminariam com a entrega do cargo mais alto justamente à sua antítese, o clã Bolsonaro.
Ao longo de sua carreira política, Lula se viu obrigado a se reinventar em várias ocasiões. Conquistou a presidência pela primeira vez em 2002, após três derrotas consecutivas. Em seu primeiro governo, conseguiu que suas políticas sociais fossem aprovadas, saindo ileso do escândalo de corrupção “Mensalão”, que levou à prisão o ministro da Presidência, José Dirceau, mas também o ministro da Comunicação, Luiz Guichiken, o ministro dos Transportes, Anderson Adauto, e uma dúzia de deputados.
Lula conseguiu então, ao concluir seus dois mandatos, deixar como sucessora a primeira mulher da história a ocupar a presidência do Brasil. Em 2018, foi preso e, após um ano e meio, conseguiu a libertação para, na qualidade de candidato à presidência, tirar a presidência de um governante de extrema direita em exercício.
Agora, segundo o jornalista e politólogo Giancarlo Summa, Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta seu último e mais difícil teste de sobrevivência. Haverá espaço para uma última reinvenção?










