Nas últimas duas décadas, digitalizar era praticamente sinônimo de modernizar. Era preciso conectar mais pessoas, instalar computadores nas escolas, substituir trâmites presenciais por aplicativos e fazer com que praticamente qualquer atividade pudesse ser realizada a partir de uma tela. Quanto mais espaços incorporavam tecnologia, maior parecia ser o progresso. Essa direção, que durante anos foi dada como certa, começa a ser revista em países muito distintos.
A Austrália estabeleceu, em dezembro de 2025, uma idade mínima de 16 anos para manter contas em determinadas redes sociais. A responsabilidade recai sobre as plataformas, que devem adotar medidas razoáveis para impedir que menores de 16 anos criem ou mantenham contas. O Brasil seguiu outro caminho: desde março de 2026 está em vigor o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, que regula os serviços digitais acessíveis a menores e estabelece obrigações para as empresas que os oferecem. Em vez de se concentrar apenas em quando um menor pode acessar esses serviços, o estatuto atribui parte da responsabilidade a quem constrói o espaço ao qual ele acessa.
A Suécia, após anos de incorporação de telas à educação, recuperou espaço para os livros e outras práticas não digitais, enquanto o México restringirá, a partir de 3 de novembro, o uso de celulares durante o horário escolar no ensino fundamental, com determinadas exceções.
Esses casos não respondem a uma política coordenada, e também não há consenso científico sobre a eficácia de todas essas medidas. Eles compartilham, no entanto, uma questão que, há alguns anos, era muito menos frequente: já não se discute apenas onde incorporar a tecnologia, mas também onde convém limitá-la.
A essa desaceleração, acompanhada de novos controles, podemos chamar de (des)revolução digital. Isso não significa reverter a transformação tecnológica nem retornar ao mundo analógico, mas sim deixar de incorporar tecnologia por inércia e começar a decidir onde, quando e sob quais condições convém utilizá-la. O que está sendo revisto é uma premissa que acompanhou a primeira etapa da transformação digital: que incorporar mais tecnologia era, por definição, avançar. Transformar agora a restrição em uma nova receita universal cometeria o mesmo erro, mas na direção oposta.
As evidências sobre os efeitos das redes sociais em crianças e adolescentes mostram a complexidade do problema. Uma revisão publicada este ano na revista Frontiers in Developmental Psychology aponta que as proibições direcionadas aos jovens continuam sendo uma intervenção não comprovada. Os estudos experimentais disponíveis sobre restrições às redes sociais não analisaram precisamente a população juvenil à qual essas políticas se dirigem atualmente, e seus resultados têm sido inconsistentes. A escolha, portanto, não consiste simplesmente em incorporar ou retirar a tecnologia, mas em decidir onde, como e para quem ela é útil.
Durante a primeira revolução digital, a adaptação recaía principalmente sobre nós. Aprendemos a usar computadores, abrir contas, baixar aplicativos, criar senhas e transferir atividades cotidianas para o mundo digital. A nova etapa começa a inverter parcialmente essa relação: também exigimos que a tecnologia se adapte às necessidades das pessoas que a utilizam.
Durante anos, modernizar um serviço significou, muitas vezes, substituir o mecanismo anterior por um digital: o balcão por um aplicativo, o cardápio por um código QR ou a conversa com uma pessoa por um sistema automatizado. Um estudo publicado recentemente na revista Psychology & Marketing propõe o conceito de digital technology captivity para descrever a vulnerabilidade que pode surgir quando a tecnologia digital se torna o único meio obrigatório para acessar um serviço e as alternativas são limitadas. O Reino Unido vem aplicando há anos políticas de assisted digital que prevêem atendimento presencial, por telefone ou por outros meios não digitais para quem precisa de apoio no uso de serviços públicos digitalizados.
América Latina entre duas etapas
Na América Latina, o Brasil não é um caso isolado. A Colômbia discute projetos que incorporam idades mínimas, verificação de idade e obrigações de segurança e design para as plataformas. O México e o Chile também debatem iniciativas relacionadas ao acesso de menores e às responsabilidades das empresas digitais. Não existe um modelo regional, mas a discussão ocorre enquanto persiste outro desafio: ampliar o acesso à internet.
As diferenças em termos de conectividade, qualidade do serviço, disponibilidade de dispositivos e competências digitais persistem, especialmente entre áreas urbanas e rurais e entre diferentes níveis de renda. Nesse contexto, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, um trâmite totalmente digital leva, em média, cerca de 40 minutos, contra cerca de seis horas quando realizado presencialmente. Ao mesmo tempo, idosos, moradores de áreas rurais e pessoas de baixa renda têm menor probabilidade de utilizar os serviços públicos digitais. A mesma ferramenta que elimina uma barreira para uns pode criá-la para outros.
A América Latina precisa incorporar aqueles que permanecem de fora enquanto começa a estabelecer condições para aqueles que já estão incluídos. Essa realidade obriga a analisar com cuidado as soluções importadas. O celular que distrai um aluno durante uma aula pode ser também o único dispositivo conectado disponível em sua casa; uma plataforma que o expõe a certos riscos pode lhe dar acesso a informações e oportunidades que ele dificilmente encontraria em seu ambiente imediato; um aplicativo pode economizar horas para uma pessoa e se tornar um obstáculo para outra.
A primeira revolução digital discutia o direito de entrar. A (des)revolução discute as condições para permanecer dentro e o direito de que continue existindo alguma porta alternativa. A maturidade digital deixa, assim, de ser medida pelo quanto incorporamos ou eliminamos e passa a depender de nossa capacidade de distinguir entre usos, pessoas, espaços e necessidades.
Medir o progresso pela quantidade de tecnologia incorporada é tão insuficiente quanto medir a educação pelo número de computadores instalados em uma sala de aula.










