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A máfia balcânica na América Latina: o crime organizado que não precisa de território

As redes criminosas dos Balcãs estão transformando o crime organizado na América Latina: menos território e violência visível, e mais logística, alianças transnacionais e infiltração nas economias legais.

O que ocorre quando uma organização criminosa deixa de buscar território e passa a buscar, simplesmente, eficiência? Essa pergunta, mais do que qualquer mapa de rotas ou lista de apreensões, é a que melhor resume o que ocorreu com as redes albanesas na América Latina durante a última década. A reação habitual, quase automática, tem sido conceber o crime organizado como uma estrutura que avança à força das armas e do controle territorial. A trajetória balcânica na região desmonta esse reflexo com paciência e com números. Aqui não há exércitos nem bandeiras. Há, em vez disso, uma governança criminosa construída sobre a intermediação logística, a sofisticação híbrida entre economias legais e ilícitas e uma capacidade de reestruturação operacional que lhe permite se inserir em cadeias de valor existentes, sem a necessidade de disputá-las a tiros.

A tese desta análise é, no fundo, simples: a expansão albanesa, mais do que responder a uma lógica de conquista, responde a uma exploração sistemática da vulnerabilidade estrutural dos Estados receptores. E essa distinção, embora pareça sutil, muda completamente o tipo de política pública necessária para contê-la.

Vale a pena começar pela origem. De acordo com o documentário “Máfia Albanesa – Famílias do Narcotráfico” (D News, 2025), a organização se consolidou após a queda do regime comunista albanês na década de 1990, uma ruptura histórica que impulsionou sua expansão para a Europa Ocidental e, posteriormente, para a América Latina. Sua estrutura, articulada em clãs familiares, proporcionou-lhe algo que poucas organizações criminosas conseguem manter ao longo do tempo: coesão interna sem a necessidade de exibição pública de poder. Uma reestruturação silenciosa cujo único objetivo é fazer o negócio funcionar.

Uma empresa transnacional disfarçada de máfia

Chamá-la de “máfia” talvez já seja insuficiente. A reportagem de Arturo Torres na revista Diálogo Político (2026) documenta que essas redes operam como coalizões de grupos díspares e independentes que priorizam a aliança em vez do confronto. Isso redefine, de raiz, a lógica do poder criminoso tal como a conhecíamos. O caso de Dritan Gjika ilustra bem isso: sua estrutura combinava um esquema corporativo duplo, com uma facção encarregada da compra, transporte e exportação de cocaína, e outra dedicada à lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada, incluindo a infiltração no comércio de banana equatoriano. Fruta legal por fora, alcalóide por dentro.

Os números, neste caso, deixam de ser um mero adorno estatístico e passam a contar uma história por si só. Entre 2019 e 2025, o Equador passou de 80 para 226 toneladas de cocaína apreendidas, acumulando 835 toneladas nesse período, enquanto diversos analistas estimam que mais de 4.000 toneladas teriam saído do país rumo aos mercados internacionais no mesmo intervalo. Como se sustenta um fluxo dessa magnitude sem uma rede logística verdadeiramente sofisticada? Um dado ajuda a responder: cerca de 70% da cocaína colombiana sairia hoje por portos equatorianos, o que confirma seu papel de nó logístico global e não de mero corredor de passagem.

Por trás dessa magnitude, há, além disso, uma economia elementar que explica a velocidade da expansão. O preço do quilograma cresce de forma quase vertical ao longo da cadeia: entre 500 e 2.500 dólares nas regiões produtoras, cerca de 35.000 na Europa e mais de 150.000 em mercados como a Austrália. Com essa margem, não é surpresa que redes da Itália, Turquia e Rússia tenham começado a disputar rotas que antes eram território quase exclusivo dos clãs balcânicos. A mudança na demanda mundial também aponta na mesma direção: desde 2020, a Europa ultrapassou os Estados Unidos como principal mercado consumidor de cocaína, e esse mercado teria quadruplicado entre 2010 e 2025.

É aí que surge uma figura que, sem ser a mais visível, acaba sendo decisiva: o emissário. Gavin Voss, em sua análise para a InSight Crime, descreve esses operadores como negociadores que viajam diretamente para o Equador, a Colômbia e o Brasil, eliminando intermediários e ficando com uma margem de lucro maior. O caso de Dritan Rexhepi, que teria continuado coordenando remessas da prisão até 2021, revela algo incômodo: a continuidade dessas redes não depende da liberdade de um indivíduo, pois contam com laços já consolidados, capazes de sobreviver à prisão de seu próprio líder. Capturar um chefão, portanto, deixa de ser uma garantia.

O componente financeiro completa o quadro. A sanção imposta em 2025 pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos contra uma rede ligada à família Hysa, que operava em conjunto com o Cartel de Sinaloa, confirma que a lavagem de dinheiro já deixou de ser um apêndice do negócio para se tornar sua continuação natural. Por sua vez, a reportagem de Darío Brooks para a BBC Mundo (2022, atualizada em 2024) traz um detalhe que não devemos perder de vista: os cidadãos albaneses, como os identificados no Peru, concentram-se justamente nas tarefas financeiras e logísticas, e não no controle armado do território. A apreensão de duas toneladas de cocaína líquida escondida em espargos, avaliadas em 77 milhões de dólares, é apenas um exemplo de até onde chega essa especialização.

A presença balcânica na região, de fato, não é nova: remonta ao início dos anos 2000, com ligações posteriores à ‘Ndrangheta italiana e a portos como Roterdã e Antuérpia, segundo registros da Europol. Tudo aponta, em última instância, para uma relação de cooperação com atores latino-americanos — incluindo o círculo de Ismael Zambada —, mais do que para uma disputa pelo controle do território.

Desafios e propostas de política de Estado

E, diante de tudo isso, o que faz um Estado diante de um adversário que não quer lutar nas ruas, mas sim se infiltrar na contabilidade? A resposta exige abandonar o reflexo militar e construir uma estratégia baseada em três pilares.

O primeiro é a rastreabilidade financeira: unidades especializadas, com capacidade técnica real, para detectar empresas de fachada em setores de exportação sensíveis, como o bananeiro ou o agroindustrial.

O segundo é a reestruturação dos sistemas migratórios e portuários, fechando as brechas que hoje facilitam a infiltração silenciosa das economias legais. O terceiro, talvez o mais urgente, é a construção de uma inteligência regional compartilhada entre Equador, Colômbia, Peru e Brasil, capaz de antecipar padrões de operação em vez de reagir, mais uma vez, à próxima apreensão isolada.

Nenhum desses pilares é chamativo. Nenhum rende manchetes fáceis. Mas são, em última análise, os que poderiam determinar se um Estado consegue recuperar o controle civil legítimo sobre os espaços econômicos que hoje estão sendo capturados por dentro.

A expansão das redes albanesas na América Latina confirma uma mutação relevante do crime organizado contemporâneo: menos visível, mas notavelmente eficiente. Contê-la exige, acima de tudo, uma decisão política sustentada ao longo do tempo, além do ciclo de um único governo. Sob essa premissa, qualquer roteiro sério deve colocar no centro a dignidade humana das comunidades que hoje convivem, muitas vezes sem saber, com essas estruturas; o fortalecimento institucional dos Estados da região; e a transparência na gestão das economias que, sem querer, acabam sustentando-as.

Porque, no fim das contas, a questão hoje não é como perseguir uma máfia, mas como deixar de oferecer a ela as condições para prosperar.

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Doutor em Políticas Públicas pela Universidade IEXE (México). Mestre em Segurança Pública, Pesquisador Acadêmico. Consultor organizacional das forças policiais mexicanas e consultor em segurança pública e privada.

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