Se a América Latina tivesse que resumir sua memória coletiva em três imagens, quais escolheria? Uma pesquisa recente do Social Research Center (SRC), realizada com especialistas de diversos países da região, oferece uma resposta reveladora. Entre os marcos históricos mais importantes para compreender a identidade latino-americana, destacam-se as Ilhas Malvinas, a Conquista e o Canal do Panamá. À primeira vista, a seleção parece estranha: um conflito territorial do século XX, um processo iniciado há mais de quinhentos anos e uma obra de infraestrutura que se tornou um símbolo geopolítico. No entanto, observados em conjunto, esses três elementos contam uma história comum: não falam apenas do passado, falam de poder.
A memória coletiva nunca é um simples acúmulo de lembranças. Como afirmou o historiador Pierre Nora, as sociedades conservam certos acontecimentos porque estes se tornam “lugares de memória”: espaços físicos ou simbólicos onde uma comunidade deposita questões fundamentais sobre si mesma. O que uma sociedade lembra diz tanto sobre seu presente quanto sobre sua história.
E, no caso latino-americano, os resultados sugerem que continuamos a organizar boa parte de nossa identidade em torno de três grandes preocupações: a soberania, a experiência colonial e a relação com atores externos.
Não é por acaso que as Ilhas Malvinas continuam ocupando um lugar central no imaginário regional. Além da disputa territorial entre a Argentina e o Reino Unido, o arquipélago tornou-se um símbolo mais amplo: a ideia de uma soberania incompleta e de uma região que ainda debate os limites de sua autonomia diante de potências externas.
A persistência das Malvinas na memória latino-americana demonstra que certos conflitos sobrevivem porque representam algo maior do que o território que disputam. Algo semelhante ocorre com o Canal do Panamá. Embora seja frequentemente analisado sob a ótica da economia ou do comércio internacional, para muitos latino-americanos seu significado vai além da engenharia e da logística.
O canal concentra debates históricos sobre controle estratégico, influência estrangeira e capacidade de decisão sobre recursos considerados fundamentais para a região. Mesmo hoje, quando as tensões entre os Estados Unidos e a China reconfiguram o cenário geopolítico global, o Panamá continua aparecendo como um espaço onde se cruzam interesses internacionais e aspirações de soberania regional.
A presença da Conquista entre as principais referências históricas é igualmente significativa. Mais de cinco séculos depois, o processo colonizador continua funcionando como uma chave interpretativa para compreender as desigualdades, as estruturas de poder e as tensões culturais contemporâneas. Não se trata apenas de relembrar um fato histórico. Trata-se de reconhecer que muitas das questões que ainda atravessam a América Latina — quem tem acesso ao poder, quem define as narrativas nacionais, quais culturas são visíveis e quais permanecem marginalizadas — encontram parte de suas respostas naquele processo fundacional.
Nesse ponto, é inevitável relembrar as reflexões de Aníbal Quijano sobre a “colonialidade do poder”. Para o sociólogo peruano, a independência política não eliminou necessariamente as hierarquias construídas durante a colonização. Muitas delas permaneceram, transformadas em estruturas econômicas, sociais e culturais que continuam moldando a região. Talvez por isso a Conquista continue aparecendo no centro das discussões sobre identidade latino-americana: porque suas consequências não pertencem exclusivamente ao passado.
A pesquisa também revela outro aspecto interessante. Quando os especialistas foram consultados sobre a preservação da memória dos povos indígenas, a principal referência foi o Tahuantinsuyo, ou Império Inca. O dado sugere que as memórias indígenas estão ocupando um lugar cada vez mais visível nas narrativas regionais.
Diante de visões históricas centradas exclusivamente na experiência colonial ou republicana, surge uma reivindicação de histórias anteriores à chegada dos europeus e de formas alternativas de compreender o território, a comunidade e o poder.
Tudo isso ocorre em um contexto em que a América Latina enfrenta desafios que, em teoria, deveriam direcionar o olhar para o futuro: inteligência artificial, transição energética, crise climática, reconfiguração geopolítica e transformação do trabalho. No entanto, os resultados mostram que a região continua buscando respostas em símbolos históricos ligados à soberania, à dependência e à identidade cultural.
Longe de ser um sinal de imobilidade, isso pode ser interpretado como uma evidência de que a memória cumpre uma função política fundamental. Como observou a socióloga Elizabeth Jelin, as sociedades não se lembram para preservar o passado intacto; elas se lembram para interpretar o presente e projetar o futuro.
Talvez essa seja a principal lição desta pesquisa. As feridas que persistem na memória latino-americana não sobrevivem por nostalgia. Elas permanecem porque continuam oferecendo pistas para compreender debates que ainda não concluímos.
A memória, afinal, não é um arquivo. É uma forma de ver o mundo.










