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Do “Nunca Mais” até hoje: as ruas desafiam a reescrita da ditadura

Meio século após o golpe, uma mobilização em massa em todo o país trouxe de volta ao centro das atenções a disputa pela memória histórica, em contraposição aos discursos oficiais que relativizam o terrorismo de Estado.

Na Argentina, a conexão entre história e justiça continua viva. Em tempos de incerteza diante das negações históricas de Donald Trump e de sua rejeição às normas e procedimentos democráticos básicos, a Argentina oferece um exemplo de como defender a democracia.

Neste dia 24 de março, mais de um milhão de pessoas participaram de centenas de eventos em todo o país, comemorando o 50º aniversário do golpe militar que levou ao poder a junta militar que liderou a última, mas mais sangrenta, ditadura do país. Enquanto o governo começou o dia negando a responsabilidade genocida da junta militar e questionando o número real de desaparecidos, e terminou negando a quantidade real de pessoas nas ruas das cidades do país. Mas só na Plaza de Mayo, no centro de Buenos Aires, reuniram-se centenas de milhares de pessoas. Os argentinos disseram “nunca mais” à ditadura.

O negacionismo de Milei e sua relegitimação do terrorismo de Estado não são uma exceção. Em nível global, estamos presenciando uma mudança de paradigma em que a reavaliação do autoritarismo, dos golpes de Estado e de outras políticas antidemocráticas já não são tóxicas dentro dos regimes democráticos formais. Na verdade, tornou-se o princípio fundamental de aspirantes a fascistas como Donald Trump e Jair Bolsonaro, que tentaram seus próprios golpes, ou Giorgia Meloni e Viktor Orbán, que tentaram reabilitar líderes fascistas e genocidas como Benito Mussolini e Miklós Horthy, respectivamente.

O revisionismo histórico, incluindo as tentativas de negação histórica, é um processo habitual pelo qual todas as sociedades democráticas passam quando enfrentam novas interpretações de eventos históricos. No entanto, o que Milei e outros líderes de extrema-direita estão fazendo não é revisionismo crítico, mas uma restauração reacionária de discursos antidemocráticos típicos das ditaduras do século passado. Ao reivindicar a violência estatal e (re)apropriar-se do passado, Milei, Trump, Orbán e Meloni consideram-se os legítimos sucessores de uma missão sagrada para restaurar a normalidade social em suas nações e reconectá-las com suas glórias passadas.

Hoje, a extrema-direita reabriu debates sobre o papel da violência estatal no século XX, questionando a veracidade dos fatos históricos e reinterpretando processos e eventos como conspirações estrangeiras. Tais se baseiam no politicamente correto e na propaganda de esquerda que desacreditaram a verdadeira história. O negacionismo e a relegitimação do terrorismo de Estado constituem um componente ideológico da suposta vontade unificada e homogênea do povo defendida pela extrema-direita, que ocupa um lugar destacado em sua manipulação narrativa da memória coletiva.

O imaginário político nacionalista mobilizado pela extrema-direita baseia-se, em grande parte, na reabilitação, no branqueamento ou na glorificação de um passado autoritário que se opõe às reflexões críticas sobre a história nacional. Esse imaginário político restaurador emprega e manipula um amplo repertório cultural e discursivo para criar uma imagem idealizada de um passado glorioso que precisa ser recuperado.

Em última análise, a extrema-direita contemporânea reinterpreta a década de 1970 como um período de guerras civis entre guerrilheiros de esquerda e forças nacionalistas, relegitimando, assim, a violência estatal. Essa reinterpretação serve a dois propósitos: primeiro, apresentar sua visão de “consciência social” e, segundo, reivindicar um monopólio legítimo contra a suposta degeneração cultural e o declínio nacional. Em última análise, essa instrumentalização da história visa subverter os ideais democráticos de igualdade e pluralismo.

Em uma entrevista de 2023 para a revista The Economist, Milei afirmou que, na Argentina, “houve uma guerra entre um grupo de subversivos que queria impor uma ditadura comunista e, por outro lado, as forças de segurança que ultrapassaram seus limites”. Para Milei, as ações da guerrilha de esquerda equivaliam a uma declaração de guerra que instaurou o terror nacional e levou o país à beira do colapso. No entanto, não houve guerra na Argentina durante a década de 1970, e o país nunca esteve em perigo real de se tornar um Estado comunista.

A chamada “guerra suja” não era uma guerra em sentido estrito, mas sim uma militarização ilegal da repressão estatal. Essa é uma expressão popular que deve ser explicada em relação à história fascista do país. Historicamente, a “guerra suja” não tinha dois lados, mas sim vítimas e perpetradores. O Estado travava uma “guerra” contra seus próprios cidadãos. Esse terror sancionado pelo Estado tinha suas raízes nos movimentos fascistas do período entre guerras. Historiadores falam em terrorismo de Estado, um conceito negado pela vice-presidente de Milei, Victoria Villarruel, que afirmou que “terrorismo de Estado não existe”.

Villarruel e Milei sustentam que a violência estatal da junta militar, embora excessiva em sua metodologia, era justificada. Mas negar o desaparecimento sistemático de dezenas de milhares de pessoas; o assassinato, sequestro, detenção indefinida, tortura e estupro de milhares de outras; o roubo e saque da propriedade privada dos desaparecidos, dos sequestrados e de suas famílias; o sequestro, a detenção e a exploração comercial de bebês e crianças desaparecidas; e a construção em todo o país de uma rede clandestina de campos de concentração é, na melhor das hipóteses, ignorância e, na pior, uma tentativa de acobertamento.

George Orwell escreveu: “quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”. As manifestações massivas contra o mito do passado de Milei e seus baixos índices de aprovação demonstram que, longe de ser um mini-Trump, o mestre que controla o futuro, Milei representa um capítulo populista reciclado do passado fascista.

Esse passado não desaparecerá facilmente. Muitos argentinos apoiam Milei e suas ideias. Mas as manifestações massivas de 24 de março mostram que sua voz não é a única e que a história importa.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

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Professor de Pesquisa Universitária no Exílio e Professor de História na New School for Social Research. Também lecionou na Brown University. Doutor pela Cornell Univ. Autor de vários livros sobre fascismo, populismo, ditaduras e o Holocausto. Seu último livro é "A Brief History of Fascist Lies" (2020).

Advogada, professora e pesquisadora na Área de Estudos Internacionais da Faculdade de Política e Governo da Universidade Nacional de San Martín. Pós-doutoranda na New School for Social Research, Nova York. Especializada em direito penal internacional, direito constitucional e direitos humanos.

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