No final de julho, o Congresso de El Salvador, com maioria governista, aprovou a reeleição indefinida, estendendo o mandato presidencial de 5 para 6 anos e estabelecendo eleições simultâneas sem segundo turno. No Equador, em meados de agosto, o presidente Daniel Noboa liderou e incentivou uma marcha contra os juízes do Tribunal Constitucional, depois que eles frearam propostas que violavam a Constituição e, portanto, a institucionalidade do país. Chegou a publicar as fotos dos magistrados que vetaram suas iniciativas. No Chile, o candidato de extrema direita José Antonio Kast declarou textualmente no seminário da Moneda Patria Investments 2025: “O Congresso é importante, mas não é tão relevante quanto vocês imaginam”, deixando claro que, caso não tivesse maioria substancial, governaria por meio de decretos.
Nos três casos, a lógica é similar: ordenar e disciplinar os outros poderes do Estado para ajustá-los às necessidades do executivo, seja a partir do poder, como Bukele e Noboa, ou a partir da aspiração de exercê-lo, como Kast. São medidas e discursos que podem ser inscritos no terreno do iliberal, próximos às práticas de líderes autoritários. No entanto, além das ações desses atores políticos, há um elemento central que não podemos ignorar: a adesão dos cidadãos a esse tipo de medida, celebradas nas ruas e amplificada nas redes sociais.
Isso levanta uma questão profunda sobre como estamos percebendo e experimentando a democracia na região. Os dados do Barômetro das Américas mostram que o apoio à democracia como “a melhor forma de governo” atingiu seu pico em 2008, com 69% em nível regional. Entre 2016 e 2019, esse apoio caiu para 58%. Não é uma variação menor: reflete uma mudança na forma como as pessoas entendem sua vida em sociedade e sua relação com o regime democrático.
Se olharmos para casos específicos: no Chile, o apoio atingiu picos de 80% em 2010 e 2014, mas caiu para 61% em 2016-17, para depois se recuperar para 70% em 2023. No Equador, o máximo ocorreu em 2014, com 67%, e o mínimo em 2023, com 51%. Em El Salvador, o pico foi em 2021, com 73%, e o mais baixo em 2016, com 55%.
Ainda mais preocupantes são as respostas a perguntas diretas: no Chile, em 2023, 19% aceitariam que o executivo governasse sem o Congresso. No Equador, 33% consideram justificável que o presidente dissolva a Suprema Corte. Somando os casos desses três países, apenas 48% dos cidadãos se declaram satisfeitos com a democracia.
Esses dados sugerem que as demandas dos cidadãos mudaram: vivemos em sociedades mais polarizadas, com uma predisposição crescente para valores autoritários, alimentada por crises de segurança e identidade (Inglehart & Norris, 2019). Isso nos obriga a repensar a defesa democrática a partir de uma abordagem mais situada: não basta reforçar instituições de forma abstrata, mas devemos compreender como as pessoas vivem e experimentam a democracia em seu cotidiano.
A experiência democrática não é só o ato de votar ou a existência de contrapesos formais; é também a sensação de inclusão, de representação e de confiança de que as regras do jogo garantem direitos e liberdades para todos. Quando essa experiência se desgasta, a democracia deixa de ser um espaço de encontro para se tornar um terreno de frustração social. É aí que germina a aceitação de lideranças que prometem ordem em troca da redução das liberdades.
A tarefa, então, é reconstruir pontes entre os arranjos institucionais e a experiência democrática. Isso implica um esforço conjunto dos partidos políticos, dos poderes do Estado e da sociedade civil para frear propostas ou ações autoritárias antes que elas se normalizem. Como advertiu Adorno (1950), o risco não é apenas a eliminação formal da democracia, mas seu esvaziamento por dentro: uma ordem que conserva a fachada democrática, mas deixa de cuidar e representar a sociedade.
Reverter essa erosão não é uma tarefa abstrata nem reservada a declarações formais: exige ações deliberadas. Os partidos políticos devem abrir canais reais de participação cidadã e deixar de conceber a política apenas como competição pelo poder. Os poderes do Estado, em todos os seus níveis, têm que mostrar que a democracia produz resultados tangíveis na vida cotidiana: segurança, justiça, serviços públicos de qualidade. E a sociedade civil deve assumir um papel ativo na vigilância e defesa dos direitos, não apenas reagindo quando estes são ameaçados, mas promovendo uma cultura democrática que seja vivida nas escolas, nos bairros e nas redes sociais. Sem essa reconexão entre arranjos institucionais e experiência vivida, qualquer estrutura democrática será uma casca vazia, vulnerável a líderes que oferecem ordem em troca de liberdade. A verdadeira defesa da democracia começa na forma como a sentimos e exercemos.
Tradução automática revisada por Isabel Lima