L21

|

|

Leer en

Peru: um país artificialmente polarizado

A poucos dias do segundo turno, o aumento do número de indecisos mostra que a polarização eleitoral não reflete a profunda fragmentação política e social do Peru.

Uma semana antes de 7 de junho, data em que se definirá o próximo presidente do Peru, as pesquisas confirmam os resultados do primeiro turno: uma profunda fragmentação política, com Keiko Fujimori obtendo 17,19% dos votos e Roberto Sánchez 12,03%. Ambos avançam para o segundo turno com uma base eleitoral reduzida, já que juntos representam aproximadamente 18% do cadastro eleitoral nacional, composto por mais de 27 milhões de eleitores registrados. A legalidade do resultado não está em questão; o que é discutível é a densidade social da representação que emerge de uma eleição como essa.

No entanto, o resultado não deve ser interpretado como uma surpresa completa. As pesquisas do primeiro turno não captaram a ascensão de Roberto Sánchez. Contudo, desde meados de janeiro, já se observava uma significativa mobilização dos setores rurais nas redes sociais, especialmente por meio da identidade visual de Sánchez, que evoca diretamente a experiência de Pedro Castillo: o chapéu de aba larga com copa proeminente como símbolo político, social e territorial. Portanto, o elemento surpresa presente na eleição anterior esteve ausente.

O problema metodológico inicial reside no fato de que diversas pesquisas são elaboradas sem pesquisa qualitativa prévia, deixando de abordar medos, rejeições, identidades territoriais, avaliações da economia familiar, memórias políticas e expectativas de ordem. Esses estudos, naturalmente, não são financiados, e os que são encomendados focam-se principalmente no candidato. Os eleitores indecisos são geralmente considerados uma categoria residual ou sem representatividade estatística, quando, na realidade, são um elemento central na definição da estratégia de comunicação e, consequentemente, do resultado eleitoral.

Apesar dessas preocupações, certas regras eleitorais foram confirmadas. Candidatos conhecidos têm maior probabilidade de receber votos do que os desconhecidos. Os primeiros só precisavam fazer um esforço: vencer a eleição. Os últimos, primeiro, precisavam se tornar conhecidos e depois vencer a eleição. Daí a genialidade de Roberto Sánchez em associar sua candidatura a uma identidade social reconhecível no mundo rural e andino, em uma manobra simbólica que quase ninguém ousou empreender.

Outra regra que parece se confirmar é que, quando coincidem um poder executivo enfraquecido, uma economia frágil e uma oposição pouco valorizada, surge uma demanda potencial por uma terceira via. No Peru, essa demanda só se tornou uma alternativa viável porque havia um ator capaz de organizá-la politicamente. Nesse cenário, o descontentamento popular existia, mas seu direcionamento eleitoral era precário; não havia uma oposição suficientemente articulada nem uma terceira via com força suficiente para transformar a rejeição ao sistema em uma alternativa nacional crível.

Assim, o setor que se identifica com a direita chegou fragmentado. Rafael López Aliaga ficou em terceiro lugar, apenas alguns décimos de ponto percentual atrás de Sánchez. Aliaga fez uma campanha agressiva e grosseira, muito em sintonia com as campanhas de Javier Milei na Argentina e Jair Bolsonaro no Brasil. Seu discurso cristão-moralista não encontrou eco em um eleitorado que não é tanto mobilizado por esse eixo, mas sim por outros mais materialistas. Num país onde a precariedade, a insegurança e o desemprego pesam mais do que as batalhas ideológicas importadas, o moralismo excessivo não só é esteticamente impertinente, como também desconectado da realidade.

Seria um erro reduzir o voto em López Aliaga, ex-prefeito de Lima, a uma ideologia de direita. Seu voto deve ser interpretado, sobretudo, sob a perspectiva de Lima. Lá, onde o investimento municipal foi mais visível — obras viárias, calçadas, infraestrutura, manutenção urbana —, uma parcela do eleitorado pode ter interpretado esses projetos como um sinal de emprego ou estabilidade, ou pelo menos de atividade econômica inclusiva. Portanto, o voto em López Aliaga em Lima pode ser entendido como apoio ao seu desempenho, e não simplesmente como um voto conservador. Uma lógica diferente opera ali em comparação com a do fujimorismo. No caso de Keiko Fujimori, o voto se explica mais pela persistência de uma memória política associada à ordem, à segurança, ao antiesquerdismo, às redes partidárias e a uma marca eleitoral persistentemente conhecida. Este voto não é impulsionado principalmente por investimentos públicos recentes, mas sim por uma identidade política profundamente enraizada em diversas regiões. Em contrapartida, o voto em López Aliaga parece estar mais ligado à percepção de sua gestão concreta na capital.

O que dizem as pesquisas: A última pesquisa do IEP confirma que o segundo turno ainda não está definido. O apoio a Keiko Fujimori subiu de 30,6% para 36,2%, enquanto o de Roberto Sánchez caiu de 31,9% para 30,1%. O dado crucial nesta eleição, no entanto, é o número de eleitores indecisos, que praticamente dobrou, passando de 13,2% para 25,6%. Esses eleitores não estão claramente alinhados com nenhum dos candidatos.

Algumas análises tentaram explicar o resultado apontando para a ausência de políticos profissionais, enquanto outras, com otimismo excessivo, consideram-no um suposto ressurgimento da esquerda no Peru. Uma terceira interpretação baseia-se numa suposta guinada de centro-direita entre os eleitores peruanos. Essas interpretações são falhas porque se concentram na eleição da capital e subestimam o resto do país. O país votou com base em questões locais, medos, memórias, empregos precários, exclusão, projetos de infraestrutura visíveis, queixas acumuladas, demandas há muito adiadas e expectativas mínimas de ordem, bem como no componente estrutural ligado ao modelo neoliberal que condiciona a decisão do eleitor.

Nesse contexto, é interessante lembrar que V. O. Key Jr. argumentou, em sua obra clássica de 1966, O Eleitorado Responsável, que os eleitores tomam decisões com base em avaliações razoáveis ​​do mundo político e das políticas públicas. Eles não são massas irracionais movidas meramente por manipulação ou ignorância. Suas decisões respondem a sinais, experiências e cálculos que fazem sentido dentro de seu contexto social. Assim, a eleição de 7 de junho não será simplesmente uma disputa entre dois candidatos. Será uma disputa para trazer ordem, ainda que provisoriamente, a um país cujo sistema político se sustenta e se reproduz continuamente sob uma representação precária.

Mas e os eleitores indecisos?

É sabido que eleições de segundo turno geram uma polarização artificial de preferências que originalmente estavam fragmentadas. No Peru, porém, essa polarização não reflete o que alguns analistas afirmam, ignorando as evidências. Além disso, o cenário atual não se desenrola como normalmente ocorreria em outros contextos ou eleições, onde as preferências acabam se concentrando claramente entre dois candidatos. Pelo contrário, o número de eleitores indecisos praticamente se multiplicou, e isso se deve a diversos fatores.

Uma hipótese tem a ver, em parte, com o distanciamento do eleitorado em relação às duas propostas, visto que, após o primeiro turno, o apoio do eleitor nunca é automático. Minha percepção é que as estratégias de comunicação de ambos os candidatos têm sido fracas. A isso se soma o papel da mídia tradicional, que provoca cansaço devido ao seu evidente viés que, longe de inspirar entusiasmo, gera desconfiança.

Por outro lado, o episódio de Rafael López Aliaga — que envenenou o ambiente político com sua narrativa de fraude — capturou a atenção do eleitorado por quase um mês, enquanto o segundo turno ainda não havia sido formalmente definido. Mesmo hoje, um setor de influenciadores de extrema direita sobrevive nas redes sociais, continuando a semear desinformação, confusão e absurdos após sua derrota.

No entanto, há uma razão convincente que explica a composição da maioria daqueles que se identificam como indecisos. Não se trata apenas de “voto vergonhoso”, mas sim das consequências diretas da polarização das eleições passadas. As pessoas estão fartas de brigas familiares em grupos de WhatsApp e do radicalismo de grupos de extrema direita com sua retórica moralista e supressão do debate. A atual crise de representatividade leva muitos a permanecerem indecisos, a evitarem se expor e, certamente, a evitarem revelar suas preferências. Em todo caso, neste segundo turno, o eleitorado está dividido entre duas visões vagas para o país e precisa escolher entre dois candidatos que mal conseguem abordar um descontentamento nacional profundo. Assim, o resultado de 7 de junho será uma verdadeira surpresa.

Autor

Otros artículos del autor

Cientista político. Professor e pesquisador associado da Universidade Federal de Goiás, (Brasil) Doutor em Sociologia pela Univ. de Brasília (UnB). Pós-doutorado na Univ. de LUISS (Italia). Especializado em estudos comparativos sobre a América Latina.

spot_img

Postagens relacionadas

Você quer colaborar com L21?

Acreditamos no livre fluxo de informações

Republicar nossos artigos gratuitamente, impressos ou digitalmente, sob a licença Creative Commons.

Marcado em:

Marcado em:

COMPARTILHE
ESTE ARTIGO

Mais artigos relacionados