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Afinal, quantos deportados desaparecem nos números oficiais?

As discrepâncias nos números oficiais de deportações colocam em dúvida os recordes divulgados e sugerem que milhares de casos não constam nas estatísticas públicas.

Em 2025, a mídia brasileira reproduziu repetidamente as imagens de migrantes brasileiros deportados desembarcando de voos fretados pelos Estados Unidos. Com base nos números divulgados pela Polícia Federal e outros órgãos federais, a imprensa classificou as deportações como um “recorde histórico”. Desde então, tornaram-se evidentes as contradições nos dados oficiais sobre deportações. Contudo, o debate público pouco avançou além do impacto visual dos desembarques e das cifras divulgadas pelo governo federal.

O Brasil não é um caso isolado. Várias nações latino-americanas vêm recebendo deportados dos EUA em voos fretados. Portanto, serve de alerta para pensarmos como os demais governos da região têm também projetado e divulgado esses registros.

A partir desse cenário e da violenta campanha de deportações promovida pela atual gestão de Donald Trump, questionamos por que esses “números oficiais” apresentam discrepâncias significativas. Também perguntamos se essas inconsistências favorecem a consolidação de uma coalizão regional de extrema direita marcada pela xenofobia. Resta saber se governos ditos progressistas, como os do Brasil, da Colômbia e do México, representam de fato um contraponto a esse cenário. 

Pós-Verdade?

Desde outubro de 2019, o aeroporto de Confins, em Minas Gerais, passou a receber voos fretados pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega, na sigla em inglês) transportando brasileiros deportados dos Estados Unidos. No início de 2025, um avião realizou um pouso emergencial em Manaus, no Amazonas, onde alguns desses migrantes foram vistos algemados e acorrentados andando sobre as asas do avião. A cena provocou forte repercussão nacional e levou o governo brasileiro a assumir uma posição mais ativa na recepção dessa população. A partir dali, também houve uma mudança  sobre quem passou a divulgar os números de deportados.

Até o incidente de Manaus, o setor de comunicação e imprensa do aeroporto de Confins informava esses dados. A partir do ocorrido, o aeroporto interrompeu a divulgação, alegando que as matérias sobre deportados comprometiam sua imagem. Desde então, a Polícia Federal, Ministério de Direitos Humanos (MDHC)  e o Itamaraty passaram, cada qual, a fornecer os números. O que não se esperava, porém, eram as contradições que surgiram nesses dados e que viriam a ser legitimadas por narrativas midiáticas sensacionalistas e deturpadas.

Matérias veiculadas no início de 2026 pelo Grupo Globo, ICL e UOL destacaram que 2025 teria sido o ano em que “bateu-se o recorde” de deportados brasileiros dos Estados Unidos. Segundo a PF, 2025 teria registrado o recorde de 3.294 brasileiros deportados. À CNN Brasil, a PF afirmou que 2.262 brasileiros haviam sido deportados nesse mesmo ano.

Será que 2025 foi, de fato, o ano em que batemos o recorde de deportados? Segundo os números que obtivemos com exclusividade da própria Polícia Federal via Lei de Acesso à Informação (LAI), não.

De fato, eles diferem dos próprios números que a grande imprensa diz receber também da PF. Em 2022 houve 4.516 deportados, número bastante superior ao de 2025, que supera em 3.093 brasileiros o total informado à Globo pela Polícia Federal.

A divergência dos números e as instituições federais brasileiras envolvidas, porém, não se esgotam aí. Há ainda o Itamaraty, que apresenta outros dados. À Veja, ele informou que “2785 brasileiros foram deportados dos Estados Unidos em 2025, frente aos 1640 registros no ano imediatamente anterior”.

Ao contrário da PF e do Itamaraty, nosso banco de dados é explícito. Ele foi iniciado em 2019 a partir de informações fornecidas pelo aeroporto de Confins e, desde fevereiro de 2025, passou a contar com os dados do MDHC em parceria com a Organização Internacional das Migrações (OIM), que assumiu essa função nesse ano. Abaixo, apresentamos um gráfico que reúne o conjunto de números oficiais contraditórios e o compara com os do Observatório das Deportações: 

Até 20 de maio de 2026, 16.132 brasileiros foram deportados por meio do aeroporto de Confins. Em outubro de 2019, por exemplo, os dados da PF, via LAI, registrou 65 deportados, e não 0, como indicado em algumas reportagens. Embora 2022 apresente um número inferior ao que recebemos do aeroporto, também supera o suposto “recorde” de deportações de 2025 alardeado pela imprensa brasileira.

Quais os impactos destes números nas narrativas que forjamos sobre os mandatos de Trump e Biden quanto à gestão migratória? Quais os impactos disso em tempos de negacionismo científico e pós-verdade? Qual o comprometimento do Estado brasileiro com o registro dessa população?

Em entrevista ao Portal UOL e ao Jornal Hoje da TV Globo em janeiro, apresentamos a contradição nos números oficiais. Também destacamos o fato de a PF ignorar os números de 2019 e a ênfase em um suposto recorde de deportações em 2025 nos dados fornecidos à imprensa. Como demonstrado aqui com números oficiais, 2022 foi o real ano com recorde de deportações. Ambos os veículos optaram por ignorar essas contradições, reproduzindo os dados recebidos da Polícia Federal. 

O que aprendemos com a COVID-19? 

Não somos apenas números. Passados seis anos desde o início das deportações, o Estado brasileiro ainda não disponibiliza um número oficial público consolidado. MDHC, Polícia Federal e Itamaraty apresentam dados distintos e contraditórios. Apenas o MDHC explicita suas fontes, baseadas em dados produzidos pela OIM. Entretanto, também apresentam lacunas importantes e não computam, por exemplo, um voo realizado pela Companhia Gol, que pousou em 28 de outubro de 2025 com 128 brasileiros deportados. A Polícia Federal e o Itamaraty sequer esclarecem como seus números são produzidos.

A mídia nacional, por sua vez, reproduz os dados dessas três instituições sem averiguar as contradições neles presentes. Matérias com títulos sensacionalistas e sem o devido cuidado analítico são publicadas em larga escala. O que significa apagar o registro de 50 pessoas deportadas em 2019 ou de 3.093 pessoas em 2022? O que aprendemos com a pandemia de COVID-19 e com aquele governo que, de forma tão escandalosa, manipulou os números de vítimas? Quantas vidas podem ser ignoradas?

O caso é ainda mais grave quando consideramos que o aeroporto de Confins não é o único destino de brasileiros deportados dos Estados Unidos. Há brasileiros também sendo removidos por meio de programas de “self-deportation”, além daqueles que, ao entrarem pelo território mexicano, são obrigados a retornar em razão da política “Fique no México”.

Em que medida esses números imprecisos de brasileiros deportados representam, de fato, a real dimensão das deportações de brasileiros desde a primeira gestão de Donald Trump?

Neste sentido, o trabalho do Observatório das Deportações tem analisado criticamente registros, lacunas e apagamentos oficiais relativos à deportação de brasileiros dos EUA, ainda que não sejamos uma “fonte oficial” governamental. Ao expor tais contradições, buscamos aprofundar o jornalismo investigativo em diálogo com o engajamento público das ciências sociais.

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Professor da Universidade Estadual de Montes Claros - UNIMONTES (Brasil). Doutor em Sociologia pela Goldsmiths University of London. Especialista em migração internacional de brasileiros e regimes fronteiriços.

Antropólogo e professor visitante no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes (Brasil) e Coordenador do Observatório das Deportações, financiado pelo CNPq.

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