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A Restauração Fujimorista

O retorno de Keiko Fujimori ao poder sugere uma restauração do fujimorismo, que promete ordem, mas reaviva as tensões e os riscos do passado.

Keiko Fujimori venceu. Finalmente. Após três derrotas consecutivas, a filha do ditador alcançou a meta. Mas não com uma vitória esmagadora: apenas 49.641 votos de diferença, uns míseros 0,2%, separaram a candidata da Fuerza Popular do esquerdista Roberto Sánchez.

O primeiro turno já havia traçado um mapa desolador: um país fragmentado em dezenas de partidos sem raízes, uma população desiludida que encara a política com indiferença e uma classe política que fez da improvisação e da falta de projeto sua única constante. Esse panorama já o conhecíamos; a questão agora é: como Keiko governará o Peru nos próximos cinco anos?

Uma década de desgoverno

A vitória de 2026 não pode ser entendida sem olhar para trás. Durante dez anos, o Peru foi um laboratório da decomposição democrática. Keiko perdeu em 2016 e, em vez de aceitar a derrota, seu partido denunciou fraude e deslegitimou o governo de Pedro Pablo Kuczynski. Em 2018, o Congresso fujimorista forçou sua renúncia. Em 2020, destituíram Martín Vizcarra por “incapacidade moral”. Em 2021, Keiko voltou a perder — contra Pedro Castillo — e também não reconheceu o resultado.

Castillo foi um desastre: caótico, assediado por denúncias, encurralado por um Congresso hostil. Seu falho autogolpe de dezembro de 2022 e sua posterior prisão abriram caminho para Dina Boluarte, uma presidente fraca que governou sob a tutela da própria Keiko Fujimori e de sua ampla coalizão parlamentar, reprimindo protestos e violando direitos humanos. Em 2026, a mensagem já estava consolidada: democracia era sinônimo de desordem. Só uma mão de ferro poderia restaurar a ordem.

“Governar como meu pai”

Keiko disse durante a campanha, em 27 de abril, em um bairro marginal de Lima: “quero ser presidenta para governar, como meu pai fez”. Não era uma metáfora nem uma concessão sentimental. Anunciou um programa de governo, a promessa de replicar o modelo dos anos 90: ordem, autoridade, eficiência econômica. E também, embora não o diga, autoritarismo, corrupção e violação dos direitos humanos.

Mas há uma diferença chave entre pai e filha. Alberto Fujimori surgiu em 1990 como um outsider: desafiou a casta política, aplicou um choque econômico, desmantelou o Sendero Luminoso e governou contra as elites tradicionais. Keiko, por outro lado, chega com o apoio majoritário da grande imprensa, das elites econômicas e das forças conservadoras que, na época, rejeitaram seu pai. Não é uma força transformadora. É uma força reativa, transacional. Sua restauração não é um projeto fundacional, é a ilusão de uma viagem ao passado.

A restauração vazia

O que Keiko Fujimori oferece não é inovação nem ruptura. É a repetição de uma receita que já fracassou. O regime de seu pai colapsou em meio ao escândalo e à fuga ao Japão. O filósofo Cornelius Castoriadis chamou isso de “o triunfo da insignificância”: sociedades hiperativas, sobrecarregadas de informação, polarizadas, mas incapazes de criar novas ideias. As campanhas eleitorais limitaram-se a repetir fórmulas vazias. O Peru de 2026 enfrenta uma crise climática, informalidade estrutural, transformação digital, migrações e demandas por reconhecimento cultural. Mas a proposta fujimorista não tem respostas para nada disso. Apenas oferece a lembrança de um passado que já não existe.

A restauração liderada por Keiko Fujimori tem paralelos reveladores. O primeiro é a restauração bourbônica na Espanha (1874-1931). Alfonso XII – filho da rainha Isabel II, destronada em 1868 – não foi um inovador: foi um restaurador que se aliou à Igreja, ao exército e às classes conservadoras para recuperar a monarquia. Uma alternância acordada entre dois partidos garantiu estabilidade formal durante décadas, mas à custa de esvaziar a política de seus princípios liberais e reprimir qualquer dissidência. Quando as tensões acumuladas não puderam mais ser contidas, a estrutura desabou: primeiro com o golpe de Primo de Rivera em 1923, depois com a Segunda República em 1931.

O segundo caso é a Coreia do Sul sob o governo da ex-presidente Park Geun-hye (2013-2017). Seu pai, Park Chung-hee, foi um ditador transformador que impulsionou a industrialização acelerada e foi assassinado por seu próprio chefe de segurança em 1979. Sua filha apresentou-se como restauradora do legado paterno, contando com o apoio dos mesmos conglomerados e forças conservadoras que antes haviam resistido ao pai. O desfecho é conhecido: corrupção, tráfico de influências, um governo nas sombras exercido por uma confidente sem cargo oficial. Por fim, Park Geun-hye foi destituída pelo Parlamento, condenada criminalmente e presa.

As trajetórias das restaurações espanhola e sul-coreana antecipam a tensão central do fujimorismo 2.0: a invocação nostálgica de um passado transformador transforma-se, ao tentar restaurar-se, em uma fórmula rígida, vazia e frágil.

O Congresso como dispositivo

Keiko Fujimori não chega ao poder em um vácuo institucional. Chega depois que o Congresso anterior — dominado por seu partido durante anos — implantou o que Michel Foucault chamava de dispositivo: uma rede estratégica de elementos heterogêneos — leis, instituições, nomeações, discursos, medidas administrativas — que se articulam para configurar uma nova correlação de forças políticas, redefinir as estruturas do Estado, e estabelecer a agenda: preparar o caminho para a restauração fujimorista.

O que esse dispositivo fez? Capturou os poderes do Estado e as instituições autônomas. Não foi uma conquista casual nem simultânea: foi uma estratégia orquestrada, passo a passo, lei por lei. Assim, foi tecida uma rede para blindar o fujimorismo e neutralizar qualquer contrapeso. Ao mesmo tempo, o Congresso alterou as regras eleitorais para fragmentar o voto da oposição, reduzindo os requisitos para o registro de novos partidos políticos e, com isso, facilitar uma dispersão de votos que beneficiasse Keiko Fujimori e seu partido, a Força Popular.

O resultado dessa engenharia eleitoral revela uma desproporcionalidade abismal. Para a Câmara dos Deputados, Fuerza Popular obteve 14,7% dos votos válidos, mas isso se traduziu em 41 das 130 cadeiras (31,5%). Para o Senado, a votação foi similar: conseguiu 15,1% dos votos válidos, o que representou 22 das 60 cadeiras (36,7%). Com menos de um sétimo dos votos em cada câmara, o fujimorismo controla mais de um terço do Senado e quase um terço da Câmara dos Deputados. Esse dispositivo conseguiu transformar uma minoria em maioria parlamentar.

No entanto, todo arranjo gera suas próprias fissuras. Uma coalizão de oposição formada por Juntos por el Perú (32 deputados), o Partido Cívico Obras (14) e Ahora Nación (10) soma 56 cadeiras na Câmara dos Deputados. Não é maioria absoluta — faltam 10 para os 66 exigidos pela lei —, mas é uma força suficiente para censurar ministros, bloquear iniciativas-chave e exigir negociações. Paradoxalmente, as reformas constitucionais que foram promovidas para enfraquecer os contrapesos também podem ser usadas contra Keiko pela nova oposição legislativa.

A fragilidade do que foi restaurado

Para garantir sua sobrevivência, o fujimorismo já está colocando em prática seu velho manual de cooptação. A primeira manobra em curso é romper o bloco de oposição recém-formado pela oposição. E o faz com o método que melhor conhece: subornos, cargos para familiares, contratações de obras públicas. O objetivo é tentar seduzir os congressistas mais vulneráveis, seja por mera ambição econômica, seja porque têm processos judiciais. A história recente do Congresso peruano está repleta de trânsfugas que mudaram de bancada. A corrupção parlamentar não é uma exceção: é a regra.

A segunda jogada é mais sutil, mas igualmente eficaz. Negociar com a nova bancada de centro-direita representada pelo partido Buen Gobierno, cujo líder e ex-candidato à presidência, Jorge Nieto, receberá o que, na gíria da máfia, é chamado de “uma oferta que não pode recusar”. Se alguma dessas manobras der certo, o fujimorismo poderia alcançar a maioria absoluta em ambas as câmaras, neutralizando de uma só vez qualquer tentativa de fiscalização ou paralisia governamental.

Mas, mesmo que consiga recompor maiorias artificiais, a restauração fujimorista continua exposta a tensões que não pode resolver dentro da lógica parlamentar. A primeira é a fratura geracional. A sociedade peruana de 2026 não é a de 1990. Para a juventude que cresceu em meio à precariedade e à desconfiança, uma nova ordem marcada pela violência e pela impunidade pode acentuar a ilegitimidade vigente.

A segunda é a contradição econômica. O modelo econômico do pai — privatizações, desregulamentação extrema, flexibilização trabalhista — já não gera os consensos nem os rendimentos de duas décadas atrás. A dependência dos preços dos recursos naturais, a crise climática e os limites do extrativismo apresentam desafios que não são resolvidos com as receitas clássicas.

A terceira é a sombra do caso sul-coreano. As presidências restauradoras e personalistas são particularmente vulneráveis a escândalos de corrupção, pois carecem de uma legitimidade programática sólida e dependem de redes clientelistas opacas. A história do fujimorismo está repleta desses episódios: o caso “Cócteles”, o financiamento irregular de campanhas, as ligações com Vladimiro Montesinos e, mais tarde, com pessoas acusadas de tráfico de drogas e outros crimes ainda mais graves.

O futuro como uma questão em aberto

A vitória de Keiko Fujimori em 2026 não é uma simples alternância no poder. É um projeto restaurador que, amparado na nostalgia por uma ordem perdida, esvaziou a democracia peruana de todo o conteúdo e a reduziu à repetição de fórmulas que já provaram seu fracasso histórico. Não foram criadas novas ideias, apenas a articulação seletiva de fragmentos do passado para impor um futuro fechado. Mas a história não é um processo mecânico nem determinado. O futuro continua sendo uma questão em aberto e não um eco do passado.

Autor

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Professor e pesquisador do Centro de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanas da Universidade Autônoma do Estado do México. Ex-presidente da Associação Mexicana de Ciência Política (AMECIP). Doutor pela FLACSO-México.

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