A análise do Relatório Mundial sobre Drogas 2026 do Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime, dedicada ao impacto do uso de drogas na segurança, surge em um momento especialmente delicado para a América Latina. A região segue presa entre mercados ilegais em expansão, prisões superlotadas, bairros dominados por economias criminosas, Estados enfraquecidos e governos que prometem recuperar o controle com mais policiais, mais militares, mais operações e mais prisões.
Essa análise tem um mérito inquestionável: reconhece que a relação entre drogas, crime e violência não é simples nem automática. Afasta-se, pelo menos parcialmente, da velha ideia de que o consumo leva inevitavelmente ao crime. Aceita que intervêm fatores individuais, sociais, econômicos, territoriais e políticos, além dos efeitos de algumas substâncias sobre o comportamento, da violência para sustentar o consumo problemático ou daquela gerada pelos mercados ilegais. Essa nuance é importante. Durante décadas, a política de drogas foi construída com base em simplificações perigosas, ancoradas no medo e no controle social.
No entanto, o problema surge já no próprio enquadramento: o “impacto do uso de drogas” sobre a segurança. Essa formulação parece técnica, mas não é inocente. Ela coloca o foco principal no usuário e não nas condições que fazem com que certos consumos se transformem em cenários de dano, exploração ou violência. Na América Latina, essa diferença é fundamental. Grande parte da insegurança associada às drogas não decorre do consumo, mas da ilegalidade do mercado, da criminalização dos usuários pobres, da falta de serviços, da desigualdade urbana, da violência policial, da corrupção institucional e da disputa territorial entre grupos armados.
Não basta perguntar-se como as drogas afetam a segurança. É preciso perguntar-se como as políticas de drogas geram insegurança.
A imagem do consumidor viciado, violento e perigoso tem servido mais para alimentar pânicos morais do que para elaborar políticas eficazes. A violência mais letal costuma estar em outro lugar: no controle de rotas, portos, bairros, prisões, fronteiras e economias ilegais; na disputa pelas receitas geradas pela proibição; na captura de instituições; na extorsão; no recrutamento de jovens sem oportunidades; e nos pactos entre o crime organizado, a política e as forças de segurança.
Por isso, não basta analisar a insegurança como consequência direta do “uso”. As drogas não atuam no vácuo. Elas geram mais problemas em territórios marcados pela segregação, informalidade, pobreza, racismo, falta de moradia, desemprego, abandono escolar, trauma, violência familiar, falta de assistência e fragilidade institucional. Lá onde há redes de assistência, moradia, tratamento, redução de danos, emprego, presença comunitária e confiança institucional, as drogas continuam presentes, mas os riscos diminuem. Onde só chega a polícia, a punição ou o abandono, os danos se multiplicam. Deslocar pessoas por meio de operações policiais apenas transfere o problema de uma rua para outra, de um bairro para outro, de uma estatística para outra.
A América Latina conhece muito bem essa lógica. As “recuperações” de territórios duram apenas o tempo da cobertura da mídia e “justificam” enormes abusos, como os ocorridos em outubro nas comunidades do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. As apreensões são apresentadas como vitórias, embora o mercado se recomponha instantaneamente; as prisões em massa alimentam prisões onde o Estado perde o controle e as organizações criminosas ganham novos recrutas.
Atualmente, sob supervisão militar, há três vezes mais mortes nas prisões equatorianas do que nos piores anos de motins. As campanhas contra o “microtráfico” acabam perseguindo os elos mais fracos: jovens pobres, mulheres usadas como correias, usuários problemáticos ou vendedores que vendem para sobreviver. Enquanto isso, as estruturas financeiras, logísticas, institucionais e políticas que sustentam o negócio permanecem muito mais protegidas.
O relatório reconhece que a prisão de usuários de drogas, quando não acompanhada de tratamento, apoio social e alternativas reais, pode agravar os problemas que pretende resolver. Mas esse reconhecimento deveria ser o centro da discussão, não uma advertência secundária. As prisões são um retrato nítido do fracasso do proibicionismo: não reabilitam, aprofundam trajetórias criminosas, rompem laços familiares, destroem oportunidades, expõem à violência extrema e fortalecem o governo criminoso dentro das prisões.
Por isso, uma agenda séria de segurança e drogas deveria mudar radicalmente seus indicadores de sucesso. Trocar toneladas apreendidas, hectares erradicados, pessoas detidas ou anos de pena acumulados por quantas pessoas têm acesso a tratamento voluntário, evitam a prisão por meio de alternativas, reduzem riscos e danos, recuperam moradia, emprego ou redes familiares; quantas comunidades reduzem homicídios, extorsões e violência policial; quantos jovens deixam de ser recrutados; e quantos recursos provenientes do crime são reaproveitados para fins sociais.
Não se trata de um detalhe técnico, mas de uma mudança de paradigma: de uma política obcecada em perseguir substâncias e punir corpos vulneráveis para outra orientada a reduzir danos, violência e exclusão. A segurança cidadã não se alcança multiplicando processos criminais, mas fortalecendo laços sociais, serviços públicos, oportunidades econômicas, saúde comunitária, justiça restaurativa e governos locais capazes de empoderar sua população.
O relatório fica aquém ao ignorar o papel da proibição, da criminalização e dos mercados ilegais. Para a América Latina, a proibição não é uma abstração jurídica; é uma arquitetura cotidiana de violência. Ela define quem pode enriquecer, quem pode ser preso, quem pode morrer, quem pode comprar proteção e quem fica exposto à punição.
Isso não significa negar os danos associados ao consumo. Existem formas problemáticas de consumo que destroem vidas, famílias e comunidades. Existem mercados locais que geram medo, deterioração do espaço público e exploração. Existem substâncias cada vez mais potentes que apresentam novos desafios. Por isso, precisamos de políticas melhores, não de reações punitivas. Confundir cuidado com controle, tratamento com coerção ou prevenção com vigilância só piora as coisas.
A região precisa inovar de forma mais ousada: descriminalização efetiva do uso e da posse para consumo pessoal; regulamentação responsável e controle público de alguns mercados; alternativas eficazes à prisão para delitos menores; redução de danos; tratamento voluntário e de qualidade; atendimento à saúde mental; acesso à moradia; inclusão econômica para os jovens; justiça restaurativa; perseguição eficaz ao financiamento do crime; controle democrático das forças de segurança; e participação real das comunidades.
O desafio para a América Latina não é incorporar a saúde pública ao antigo paradigma da guerra contra as drogas. É superar esse paradigma. A questão já não é como reduzimos o impacto do uso de drogas sobre a segurança, mas como reduzimos o impacto das políticas falidas sobre a vida, a democracia e o desenvolvimento.
Após décadas de proibição, a América Latina não precisa mais de diagnósticos que confundam sintomas com causas. Ela precisa de uma política de drogas que ouse olhar para onde mais incomoda: não apenas para o consumo, mas para os danos causados pela ilegalidade, pela exclusão e pelo próprio Estado quando responde tarde, mal e com violência.










