Estava frio naquela tarde. O típico frio de julho em Buenos Aires. As salas de aula, no entanto, tinham aquele calor humano que proporcionava um refúgio especial. E algo fervilhava nos corredores. Discutia-se autonomia, discutia-se soberania e os significados da educação e da ciência públicas. De repente, golpes e gritos invadiram os prédios, e as faculdades foram cercadas pela Polícia Federal, armada com bastões que causariam feridas que durariam para sempre, especialmente em um campo sobre o qual pouco se falou.
O contexto na Argentina e na região
O governo de facto de Juan Carlos Onganía, instaurado após o golpe de Estado que, um mês antes, havia derrubado o presidente democrático Arturo Umberto Illia, havia desarticulado a estrutura universitária, dissolvendo os órgãos de governo e substituindo as autoridades por interventores. Essa ditadura, autodenominada “Revolução Argentina”, foi instaurada de acordo com o que previa a Doutrina de Segurança Nacional que os Estados Unidos impuseram na América Latina durante a Guerra Fria como parte de sua estratégia político-militar. A intervenção nas universidades visava, entre outros objetivos, a tentativa de neutralizar o suposto “inimigo interno”, representado por estudantes e professores-pesquisadores que repensavam seu papel e o das instituições. As universidades viviam um momento de modernização e de reflexões sobre que tipo de ciência deveria ser desenvolvida em busca da soberania do conhecimento. Isso representava um fator de risco para os interesses dos Estados Unidos. Além disso, constituía um exemplo indesejável na região, uma vez que os movimentos universitários argentinos, a partir da Reforma Universitária de 1918, exerceram influência nos demais países do Cone Sul.
A consolidação da agenda ambiental global e o silenciamento da ciência na América Latina
A Argentina encontrava-se nesse fervilhante debate sobre quais formas de educação e ciência eram prioritárias para o desenvolvimento soberano, e a Noite dos Bastões Longos teria um efeito devastador. A repressão desencadeada naquele 29 de julho, que teve seus principais focos nas Faculdades de Ciências Exatas, Arquitetura, Filosofia e Engenharia, produziu uma onda de demissões de autoridades e docentes que, em muitos casos, acabariam em histórias de exílios. Essa diáspora resultou em uma reconfiguração não apenas dos laboratórios e institutos de pesquisa, mas também das redes de colaboração científica regionais.
A ecologia era, naquela época, uma ciência incipiente no mundo e passava por mudanças. Até então, ela se concentrava mais no estudo e na descrição de espécies e populações, e começava a se voltar para o estudo das mudanças globais e da poluição, erosão e degradação dos ecossistemas. Esse novo modelo de pesquisa se consolidou com o financiamento de agências estadunidenses, no que é chamado de era da “Big Ecology”, que incluía o Programa Biológico Internacional (IBP) e vários projetos financiados pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos em locais estrategicamente localizados. Também influenciaram esse processo as crescentes mobilizações cidadãs contra a degradação ambiental, como, por exemplo, a primeira comemoração do Dia da Terra, apoiada pelo presidente Richard Nixon nos Estados Unidos, e, em 1972, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo. A questão ambiental, marcada por demandas pacifistas e apelos por uma consciência planetária, passou, portanto, a se consolidar definitivamente no final da década de 1960 e início da década de 1970.
No entanto, enquanto no Norte essa preocupação com o meio ambiente fortalecia a ecologia como campo científico, na América Latina as ditaduras militares provocaram o caminho inverso. A perseguição nas universidades interrompeu o desenvolvimento da ciência ecológica, que até então seguia uma trajetória convergente com a evolução da disciplina em escala global. A ecologia, aqui, resultava incômoda para os interesses da Doutrina de Segurança Nacional promovida pelos Estados Unidos. As condições para a produção de conhecimento foram sistematicamente desmanteladas, abrindo brechas difíceis de preencher e revelando a dimensão estratégica desse processo.
É impossível separar a perseguição ao pensamento científico do modelo econômico que aqueles regimes buscavam consolidar. Para a economia extrativista promovida e sustentada naquela época, uma ciência capaz de medir a degradação ambiental, demonstrar os impactos da exploração dos recursos naturais e, potencialmente, questionar esse modelo de desenvolvimento era profundamente inconveniente. A América Latina consolidou-se, assim, como uma dupla zona de sacrifício. Por um lado, de nossos territórios e bens naturais entregues à extração para o desenvolvimento do Norte e, por outro, das ideias, condenadas ao exílio, ao silêncio e à interrupção. Ao mesmo tempo em que se extraíam as riquezas, também se abria uma ferida na capacidade de construir conhecimento; uma ferida que continua sangrando até os dias de hoje.
Uma lógica de censura e perseguição que se renova
Hoje, 60 anos após os acontecimentos da Noite dos Bastões Longos, a América Latina encontra-se em uma encruzilhada semelhante, na qual a educação e a ciência voltam a ser alvo de perseguição e desmantelamento. Nas últimas décadas, as ciências ecológicas nos países da América Latina vêm colocando em discussão os efeitos dos neoextrativismos sobre os socioecossistemas. A descrição dos efeitos negativos da mineração a céu aberto, da produção agrícola em grande escala e da transição energética do Norte Global sobre os países do Sul Global são resultados centrais das pesquisas (socio)ecológicas.
A abordagem desses temas constitui um eixo iniludível nas agendas científicas locais, em consonância com as agendas de pesquisa e dos órgãos científico-governamentais em nível global. Iniciativas como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a Plataforma Intergovernamental Científico-Normativa sobre Diversidade Biológica e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) enfrentam hoje uma realidade de descrédito, corte de financiamento e esvaziamento por parte dos Estados Unidos, outrora seu promotor.
Alguns governos regionais concordam com esse negacionismo em relação às mudanças climáticas e até mesmo em relação aos limites que a ciência estabelece no que diz respeito ao uso sustentável dos recursos naturais ou bens comuns. A palavra “sustentabilidade” foi, de fato, incluída no Plano de Inteligência Nacional (PIN) dos Serviços de Inteligência argentinos em maio de 2025. Suas diretrizes colocam na mira e tornam alvo de monitoramento os cientistas que defendem a conservação da biodiversidade e a proteção dos oceanos, as organizações e pesquisadores ligados a estudos sobre sustentabilidade, e outros que possam representar um obstáculo à exploração de recursos minerais ou petrolíferos.
Hoje, diversos órgãos estatais de ciência e tecnologia enfrentam restrições para utilizar termos como “mudança climática”. Esses pontos são claramente preocupantes e representam formas atuais de restringir a capacidade da ciência de abordar problemas que são incômodos de se discutir para o modelo dominante. Tais diretrizes podem ser resultado das novas políticas coordenadas entre os governos das novas direitas latino-americanas e do recrudescimento da ação imperialista do governo dos Estados Unidos na região, incluindo o Novo Plano Condor e o Escudo das Américas. Podem ser, também, novas feridas sangrentas em nossos sistemas científicos, como as de 60 anos atrás, das quais ainda restam cicatrizes na forma de memória coletiva.
Este artigo é fruto do projeto de pesquisa “Marcas e cicatrizes das ditaduras do Cone Sul na ecologia da América Latina”, realizado por MC e LE. Ambos fazem parte da Rede Latino-Americana de Ecologia (ReLatE).











