A Amazônia é um tecido vivo e um bioma de direitos, um ecossistema estratégico para a estabilidade climática global, habitado por cerca de 47 milhões de pessoas — incluindo mais de 500 povos indígenas — cujos modos de vida, saberes e formas de governança sustentam uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta. No entanto, esse mesmo território vivencia atualmente uma policrise crescente, marcada pelo avanço do extrativismo, crimes ambientais, enfraquecimento democrático e retrocesso dos direitos humanos.
O que acontece na Amazônia não pode mais ser entendido como a soma de conflitos isolados. Trata-se de uma dinâmica estrutural de desapropriação territorial que mantém uma estrutura de poder reorganizada sobre os territórios amazônicos por meio de concessões extrativistas, economias ilegais, militarização, captura institucional e erosão de direitos. Sob o pretexto de transição energética, desenvolvimento ou conservação, atividades que fragmentam ecossistemas, deslocam comunidades e aprofundam desigualdades históricas continuam a se expandir.
A ilegalidade deixou de ser uma exceção. Coexiste e, aparentemente, se articula com estruturas estatais frágeis ou permissivas que, embora reconheçam formalmente os direitos ambientais e territoriais, mantêm condições que favorecem o avanço de interesses econômicos em detrimento da vida comunitária ou do bem-estar. Essa contradição produz uma perigosa normalização da violência e corrói progressivamente as condições sociais e políticas que sustentam a vida na Amazônia.
Portanto, garantir a segurança territorial torna-se um imperativo para a governança climática global. Isso deve se basear em ações de resiliência impulsionadas pelos territórios — particularmente pelas mulheres amazônicas — que emergem como respostas essenciais para a defesa da vida e da sustentabilidade da Amazônia em benefício de toda a humanidade.
Da Amazonomorfose regressiva à resiliência das mulheres
Na Oxfam, alertamos que a violência contra defensores ambientais é apenas a expressão mais visível de uma arquitetura de vulnerabilidade territorial. Os assassinatos, as ameaças e os processos de criminalização não são incidentes isolados: fazem parte de padrões sistemáticos que buscam enfraquecer a organização comunitária e eliminar a resistência ao extrativismo legal e ilegal.
Nesse cenário, as mulheres amazônicas enfrentam impactos particularmente severos. A violência contra mulheres defensoras está intrinsecamente ligada ao racismo, ao patriarcado e à desigualdade territorial. Portanto, quando uma defensora é perseguida, deslocada ou assassinada, o dano não recai apenas sobre uma pessoa: ele fratura o tecido social que sustenta a defesa do território e a vida coletiva.
Contudo, as mulheres amazônicas também são atores políticos fundamentais nos processos de resiliência territorial. Elas restauram florestas, protegem fontes de água, mantêm sistemas de governança comunitária e defendem relações alternativas com a natureza contra modelos de desenvolvimento baseados na desapropriação.
A Amazônia e a esperança pendente do Acordo de Escazú
É precisamente nesse contexto que o Acordo de Escazú adquire significado histórico. O acordo reconhece os direitos de acesso à informação, participação pública e justiça ambiental, além de estabelecer obrigações específicas para a proteção de defensores de direitos humanos em questões ambientais. Na América Latina, a região mais perigosa do mundo para a defesa da terra e do meio ambiente, esse reconhecimento constitui um avanço político sem precedentes. No entanto, a lacuna entre o compromisso normativo e a realidade no terreno permanece profunda.
A recente COP4 do Acordo de Escazú representou um avanço significativo em termos processuais e institucionais. Os mecanismos de monitoramento foram fortalecidos, ferramentas de resposta rápida foram incorporadas para lidar com ameaças contra defensoras de direitos humanos e reconheceu-se a necessidade de aplicar abordagens interseccionais, interculturais e sensíveis à perspectiva de gênero. As oportunidades para participação pública e monitoramento do cumprimento dos acordos pelos Estados também foram ampliadas.
Contudo, a COP4 também expôs as limitações do multilateralismo ambiental quando os Estados não conseguem traduzir seus compromissos internacionais em políticas concretas em seus territórios.
Enquanto as delegações oficiais discutem mecanismos regionais de proteção, economias ilegais, corredores de narcotráfico, mineração ilegal, extração ilegal de madeira e projetos extrativistas, impulsionados por uma fiscalização ambiental frágil e restrições crescentes ao espaço cívico, continuam a se expandir em grande parte da Amazônia. Em vários países da Amazônia, persistem processos de regressão institucional, enfraquecendo a proteção ambiental, limitando a participação cidadã e reduzindo as garantias para povos indígenas e comunidades rurais. Quando observamos o bem-estar das mulheres, essa regressão representa um risco ainda maior de retrocesso em direitos arduamente conquistados.
A contradição é evidente: mecanismos regionais estão sendo fortalecidos enquanto as condições materiais de risco nesses territórios continuam a se deteriorar.
Os sistemas nacionais de proteção permanecem insuficientes, reativos e burocráticos. A participação pública continua sendo, em muitos casos, meramente consultiva e não vinculativa. A justiça ambiental permanece assolada pela impunidade estrutural. E os mecanismos de financiamento climático frequentemente não alcançam aqueles que de fato sustentam a proteção dos ecossistemas que beneficiam a humanidade.
A situação é ainda mais crítica nos países da América Latina e do Caribe que não são signatários do Acordo ou onde a implementação é mínima e a situação política é regressiva. A falta de ratificação ou de vontade política exacerba cenários em que crimes ambientais, controle territorial por economias ilegais e erosão democrática convergem. Nesses contextos, os defensores dos direitos humanos estão expostos a atores armados, corrupção e à falta de garantias estatais.
Portanto, a implementação efetiva do Acordo de Escazú exige muito mais do que declarações multilaterais. Implica o fortalecimento dos sistemas de proteção com uma abordagem territorial, intercultural e de gênero; a garantia de acesso oportuno e transparente a informações ambientais; a garantia da participação vinculativa dos povos indígenas e das comunidades locais; a investigação e punição de ataques contra defensoras de direitos humanos; e a alocação de financiamento direto e sustentável para iniciativas de proteção territorial baseadas na comunidade.
Implica também reconhecer uma verdade incômoda: a sustentabilidade climática não pode ser construída sobre territórios paramilitarizados, comunidades deslocadas e defensoras de direitos humanos em grave risco ou assassinadas.
Amazomorfose: uma contribuição para o debate necessário
Neste cenário, a Oxfam apresenta a publicação Amazomorfose: Amazônia, Territorialidade, Vida em Risco e Resiliência, que não só documenta a crise amazônica, mas também serve como ferramenta política que desafia diretamente os Estados e o sistema regional quanto à sua capacidade — ou incapacidade — de respondê-la. Demonstramos que as mulheres amazônicas são especialistas em território e atrizes políticas essenciais para qualquer estratégia de proteção climática e democrática.
Porque sem as mulheres desses territórios, não haverá implementação efetiva do Acordo de Escazú. E sem justiça territorial, de gênero e intercultural, não haverá possibilidade real de proteger a Amazônia ou o futuro climático da região.
O palco está montado.
Tradução automática revisada por Isabel Lima









