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O clube dos delegados no Peru: quando poucos decidem por todos

A eleição por delegados, embora legal, reduz a participação dos filiados e concentra o poder nas cúpulas partidárias, aprofundando a crise de representação no Peru.

Nos últimos anos, a crise de representação política revelou as fraquezas dos partidos no Peru. Nesse contexto, é preocupante que muitos deles tenham optado pela escolha de candidatos por meio de delegados. Embora esse mecanismo não seja intrinsecamente antidemocrático, na prática nacional ele foi distorcido ao ser utilizado principalmente por partidos personalistas, nos quais funciona como um filtro que concentra o poder nas mãos de poucos e reduz a participação real dos militantes. Pode-se considerar democrático um sistema em que poucos decidem por todos?

A resposta curta é que, embora seja legalmente um processo válido nos termos da Lei de Organizações Políticas, em termos de legitimidade social a escolha por delegados representa um retrocesso. Enquanto na modalidade fechada — conhecida como “um militante, um voto” — todos os filiados registrados no cadastro têm o direito de eleger diretamente os candidatos, na modalidade de delegados a decisão final recai sobre um grupo muito reduzido que, às vezes, nem sequer representa 0,1% do total de filiados. Essa desproporção não é uma coincidência logística, mas uma dinâmica que facilita o controle do processo.

Como aponta o politólogo Fernando Tuesta Soldevilla, esse mecanismo funciona como um “funil” que sufoca a renovação. Quando o poder de decisão passa de milhares de cidadãos para um pequeno círculo, a possibilidade de dissidência desaparece. Na prática peruana, isso serviu para consolidar os chamados “partidos de aluguel”, onde não há competição de ideias, mas sim uma encenação para ratificar decisões tomadas “à mão”.

Se analisarmos os dados das eleições primárias realizadas com vistas às Eleições Gerais de 2026, o sistema de delegados já não aparece como uma alternativa excepcional, mas sim como a regra. Das 39 organizações políticas participantes, 37 recorreram a ela e apenas duas elegeram diretamente seus candidatos por meio do voto de seus filiados. A regulamentação vigente também não estabelece uma relação mínima entre o número de delegados e a quantidade de filiados, permitindo que cadernos eleitorais com milhares de pessoas acabem sendo representados por grupos reduzidos, sem que haja uma proporção razoável entre o volume da militância e o número daqueles que tomam a decisão final.

O caso mais significativo foi o da Ação Popular, um partido histórico e de massas, com mais de 230 mil filiados e presença territorial em todo o país. Apesar dessa magnitude, a decisão final sobre suas candidaturas ficou nas mãos de apenas 73 delegados. Embora o partido tivesse apresentado seis listas presidenciais e exibisse um dos maiores níveis de competição interna do processo, suas primárias foram declaradas nulas devido a irregularidades na lista de delegados. Como a etapa correspondente já havia prescrito no calendário eleitoral, não foi possível convocar uma nova eleição, pelo que o Acción Popular ficou de fora das Eleições Gerais de 2026.

Embora esse partido não tenha sido excluído por essa modalidade, mas sim pelas falhas substanciais encontradas na composição da lista de delegados, o caso demonstra a fragilidade desse mecanismo para um partido de massas. Quando essa cadeia de intermediação falhou, a base ficou sem possibilidade de corrigir o resultado por meio de seu voto direto. O “funil” não apenas reduziu sua participação, como acabou anulando-a completamente.

O risco aumenta em organizações cuja estrutura gira em torno de uma liderança personalista, onde os delegados podem acabar ratificando nomeações previamente adotadas. Um exemplo marcante é o Fuerza y Libertad, onde três pessoas representaram mais de 60 mil filiados. Embora esse número, por si só, não comprove uma imposição, ele revela uma estrutura facilmente controlável e com pouca capacidade de questionar as decisões.

Não podemos deixar de mencionar a “Fuerza Popular”, a organização que venceu as eleições gerais e atualmente lidera o governo. Pode ser compreensível que a candidatura presidencial tenha recaído sobre Keiko Fujimori, por ser a principal líder do partido. No entanto, seus 104 delegados não decidiram apenas a chapa presidencial, mas também as candidaturas ao Senado e à Câmara dos Deputados. Além disso, 37,5% deles residiam em Lima, enquanto o centro do país concentra apenas 7,7%. O problema, portanto, vai além da candidatura presidencial, pois um grupo reduzido e concentrado na capital definiu as candidaturas parlamentares em todo o país.

Essa concentração de poder tem consequências diretas na crise de representação. O cidadão percebe que os partidos são “clubes privados” com portas blindadas. Ao limitar a participação real dos militantes, as organizações perdem sua função de servir como canais entre o Estado e a sociedade. Além disso, o sistema de delegados se torna um terreno fértil para a falta de transparência. É mais fácil para grupos de pressão, interesses econômicos ou lideranças partidárias influenciar algumas poucas pessoas do que obter o apoio de milhares de filiados.

A fiscalização da Secretaria Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) e do Conselho Nacional de Eleições (JNE) também não deveria se limitar ao exercício formalista de verificar atas e prazos. O caso do Partido Ação Popular demonstrou que a legitimidade do resultado depende de toda a cadeia de eventos que o antecede, desde a forma como os delegados foram eleitos até sua proclamação e a consistência das informações entregues aos órgãos eleitorais. Não basta supervisionar o momento final da votação se a representatividade que chega às urnas já é questionada desde sua origem.

O “clube dos delegados” deve abrir suas portas. Enquanto alguns poucos continuarem decidindo por dezenas ou centenas de milhares de filiados, continuaremos tendo candidatos sem raízes, partidos sem alma e uma cidadania que encara com desdém processos que, sob o nome de “democracia interna”, não passam de simulacros de participação. A verdadeira reforma política começa por devolver o voto ao militante e tirar o poder das cúpulas. Assim, poderemos começar a diminuir a lacuna de desconfiança que hoje separa os peruanos daqueles que dizem nos representar.

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