Na Venezuela atual, o aumento do preço do petróleo já não se traduz automaticamente em capacidade de ação estatal nem em influência internacional. Mais do que um problema de preços, essa realidade revela um limite estrutural: a renda petrolífera não se converte, por si só, em poder político. Antes, a alta do petróleo garantia expansão fiscal, financiamento externo e projeção regional. Mas hoje, mesmo com preços elevados, o país não consegue transformar esse recurso em influência efetiva, nem dentro nem fora de suas fronteiras.
A questão central não é quanto petróleo a Venezuela produz, mas as condições institucionais que determinam quem decide sobre esse recurso, como é comercializado e quem controla as receitas. A produção e o financiamento são mediados por intermediários e atores externos, o que evidencia uma perda de autonomia econômica derivada de uma deterioração institucional prévia: concentração de poder, expansão da ilegalidade e, finalmente, intervenção estadunidense.
Essa situação não se explica só por fatores externos. Durante o governo de Hugo Chávez, o extraordinário aumento dos preços habilitou uma política internacional ativa, visível em iniciativas como o Petrocaribe, um esquema de cooperação energética mediante o qual a Venezuela fornecia petróleo em condições financeiras preferenciais a países do Caribe. Através desse mecanismo, canalizou receitas para financiar acordos energéticos, fomentar relações de dependência e consolidar alianças no Caribe e na América Central.
Esses acordos eram racionais para os países receptores, mas baseavam-se em um excedente excepcional, não em uma economia diversificada nem em uma produção sustentável. Essa receita podia sustentar a cooperação no curto prazo, mas não constituía uma base estável para uma estratégia de integração de longo prazo.
Em paralelo, as práticas internas do poder debilitaram as instituições, afetaram a indústria petrolífera e a rede empresarial e erosionaram a capacidade produtiva. O resultado foi um paradoxo: a liderança regional se expandia enquanto se deterioravam as condições econômicas e institucionais que a tornavam possível.
Com Nicolás Maduro, essas tendências se aprofundaram: queda dos preços, indústria em declínio, maior militarização do Estado, economia desarticulada, expansão da ilegalidade e sanções internacionais.
Essa incapacidade interna refletiu-se também nas iniciativas de integração regional e na estratégia de projeção política que a Venezuela tentou sustentar. As organizações impulsionadas durante o governo de Chávez não conseguiram se consolidar como instâncias de apoio diante da crise — como a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA), um mecanismo de cooperação política, econômica e solidariedade mútua baseado em acordos compensatórios e financiamento estatal, ou a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), concebida como um espaço de coordenação política regional que abrangia diferentes áreas: política, economia, infraestrutura, defesa e saúde—. Elas estavam ancoradas em acordos contingentes e dependiam de recursos excepcionais. Ao mesmo tempo, a evolução do regime intensificou as decisões arbitrárias e as ilegalidades, enfraquecendo a confiança dos países parceiros e reduzindo sua disposição de manter a cooperação, mesmo quando havia afinidade ideológica.
Integração regional, excedente e interesses
O caso venezuelano permite distinguir duas formas de integração regional, definidas não tanto pela ideologia, mas pelos mecanismos que as sustentam.
Alguns modelos dependem de transferências de recursos de um país com excedente excepcional. A cooperação pode ser benéfica no curto prazo, mas sua continuidade fica vinculada ao financiamento. O Petrocaribe e, em parte, a ALBA — baseada em financiamento estatal e acordos compensatórios — seguiram essa lógica, apoiados por uma diplomacia energética sustentada em recursos petrolíferos, como ocorreu em outros esquemas onde a sustentabilidade depende mais do fluxo de recursos do que de estruturas produtivas compartilhadas.
Outras dinâmicas se sustentam em interesses econômicos estáveis: comércio intrarregional, estruturas produtivas, investimentos e mercados compartilhados. Nesses casos, a integração não depende de decisões conjunturais nem de receitas extraordinárias, mas de relações econômicas que geram incentivos permanentes para sua continuidade, como ocorre em esquemas sustentados no comércio e nas cadeias produtivas regionais.
Um caso ilustrativo é o MERCOSUL: o comércio intrarregional entre Brasil e Argentina, especialmente na indústria automotiva, organiza-se em cadeias produtivas integradas que distribuem a produção e o intercâmbio de peças automotivas e veículos, gerando interdependência; essa estrutura cria incentivos permanentes para sustentar o bloco — mesmo em crises ou divergências políticas — devido aos custos econômicos de sua interrupção.
A diferença, portanto, não é só ideológica ou institucional, mas reside nas práticas econômicas que sustentam cada modelo: uns se baseiam em transferências, outros em interesses estruturais.
Contraste regional
A experiência latino-americana recente ilustra as consequências dessa diferença. ALBA, UNASUL ou Petrocaribe estavam ligados a momentos políticos específicos e à disponibilidade de recursos venezuelanos: seu dinamismo respondia ao financiamento e aos alinhamentos governamentais. Quando essas condições desapareceram, esses espaços paralisaram-se ou perderam relevância, revelando sua fragilidade.
Em contraste, processos como o MERCOSUL têm persistido apesar das mudanças ideológicas entre governos, pois são sustentados pelo comércio intrarregional, interesses empresariais e estruturas produtivas que geram custos de saída e benefícios permanentes. Essa base material introduz uma inércia que não depende de afinidades políticas.
A experiência venezuelana mostra que a liderança internacional não pode ser construída sobre excedentes econômicos, mas sobre uma base produtiva e institucional estável. Um excedente pode financiar o poder de forma temporária, mas não sustentá-lo. O problema da Venezuela não foi a queda do preço do petróleo, mas a confusão entre renda e poder estrutural.
O poder de um Estado depende de sua capacidade institucional e econômica de produzir e reproduzir riqueza. Quando essa capacidade se deteriora, o poder torna-se efêmero, a integração enfraquece e a autonomia se perde.
Tradução automática revisada por Isabel Lima









