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Que os candidatos menores renunciem, na Bolívia!

Alguns dias atrás, o ex-presidente boliviano e agora ex-candidato à presidência Jaime Paz Zamora renunciou à sua candidatura, de novo esboçando mais uma daquelas frases que ficam gravadas na memória coletiva dos seus compatriotas: “Esbarrei em um muro de gelo e em uma visão política do século passado”, ao preparar sua lista de candidatos para o Congresso, ele disse. O ex-presidente acrescentou que desejava liderar um processo de renovação política, e por isso propôs que nas listas de candidatos ao Senado e Câmara houvesse a maior quantidade possível de jovens e de gente “nova”. Lamentavelmente, o estatuto do Partido Democrata Cristão (PDC), que o convidou a se candidatar, não permitia “semelhante transgressão”, e por isso o resultado tradicional foi imposto aos desejos do ex-líder do Movimiento de Izquierda Revolucionario (MIR).

As repercussões da renúncia não demoraram a surgir. De um lado, alguns porta-vozes do Movimiento al Socialismo (MAS), o partido do governo, minimizaram o acontecido, de forma algo prepotente, declarando que Jaime era um candidato marginal na disputa eleitoral e que sua decisão não merecia nem mesmo uma analise ou avaliação política por parte da agremiação situacionista,

Se Ortiz desse esse sinal de desprendimento, Mesa poderia ganhar as eleições já no primeiro turno”

Na oposição, a visão foi outra. Os candidatos que tinham menos de 5% de intenções de voto nas pesquisas (MNR, Tercer Sistema, UCS, PAN Bol) ficaram em situação incômoda e se viram expostos a controvérsias. As redes sociais, analistas e a opinião pública em geral, de seus diferentes pontos de vista, recomendaram que esses candidatos menores seguissem o exemplo de Jaime Paz, ou seja, que renunciassem a suas candidaturas e apoiassem o candidato com mais chances de derrotar Evo. E houve até posições um tanto mais radicais, e pessoas que pediram encarecidamente ao candidato Oscar Ortiz, da aliança Bolivia Dice No, o terceiro colocado nas pesquisas, com 8% das intenções de voto, que abandonasse sua candidatura e declarasse apoio a Carlos Mesa, o candidato da Comunidad Ciudadana (CC). O argumento era ainda mais contundente: se Ortiz desse esse sinal de desprendimento, Mesa poderia ganhar as eleições já no primeiro turno, obtendo, dessa maneira, um requisito indispensável para governar com tranquilidade, relacionado à obtenção de maioria de dois terços no Congresso.

Ao que parece, esses argumentos vindos da oposição representariam um verdadeiro sinal de unidade para recuperar a democracia e lutar contra a impunidade nos casos que envolvem delitos de corrupção, contrabando, descaso pela segurança pública e tráfico de drogas. Mas para sermos realistas, é quase impossível que o terceiro colocado nas pesquisas renuncie à sua candidatura, porque embora Ortiz saiba que não tem possibilidade de vencer as eleições nacionais, deseja assegurar espaços de poder para abrir caminho a uma nova candidatura na eleição de 2025.

Ainda assim, sem perder a esperança de que Ortiz mude de ideia e renuncie à sua candidatura, resta uma alternativa para negociar uma possibilidade viável de aliança, que permitiria conseguir um ritmo diferente de alternância no poder e daria aos bolivianos a possibilidade de voltar a respeitar o Estado de Direito e recuperar a democracia. As organizações políticas de oposição poderiam fazer acordos e dessa maneira priorizar a eleição de legisladores coligados, escolhidos distrito a distrito em todo o país, levando em conta que esses representantes são escolhidos por voto popular direto.

De fato, cada organização política de oposição, de acordo com seu nível de representatividade e legitimidade, poderia propor candidatos unificados em distritos estratégicos, de forma a lhes garantir a vitória. Assim, seria possível garantir uma bancada opositora forte e responsável que permitiria desenvolver um bom trabalho legislativo e além disso seria representativa de todo o país e de todas as correntes políticas de oposição. Obteríamos, com certeza, um nível de fiscalização coerente e consistente com o que a Bolívia necessita atualmente: tolerância zero para com a impunidade de alguns poderosos, e acima de tudo recuperar a democracia moribunda no país.

Autor

Administrador Público e Cientista Político pela Universidade do Chile. Mestre em Gestão e Políticas Públicas pela Univ. Católica Boliviana / Univ. de Harvard. Mestre em Negociação e Relações Econômicas Internacionais.

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