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O pós-Maduro e os perigos das transições “rápidas”: o que a América Latina pode aprender com o Oriente Médio e a Ásia

Após a queda de Maduro, a Venezuela enfrenta o dilema comum a muitas transições abruptas: como evitar que o fim do autoritarismo resulte em novas formas de poder instáveis ou exploradoras.

A saída de Nicolás Maduro do poder foi amplamente recebida como o colapso de um modelo político que havia chegado ao seu limite. Após anos de afundamento econômico, migração em massa, repressão sistemática e manipulação eleitoral, a queda do líder venezuelano parecia fechar um ciclo iniciado com Hugo Chávez em 1999. Para milhões de venezuelanos, a pergunta parecia simples: como poderia ser pior do que o que já haviam vivido?

No entanto, a história sugere que a queda de um autocrata não marca o fim da luta democrática, mas sim sua fase mais perigosa. A Venezuela se soma a uma longa lista de países — de Iraque e Líbia à Rússia pós-soviética — onde a saída de um governante não produziu estabilidade nem democracia consolidada.

A América Latina oferece lições distintas. A transição negociada do Chile preservou a capacidade do Estado e subordinou gradualmente os militares, embora ao custo de justiça tardia e participação popular limitada. O Peru pós-autoritarismo combinou rotação política acelerada com enfraquecimento institucional. A Nicarágua mostra outra trajetória: uma ruptura revolucionária que desmantelou uma ditadura só para reconstruir um novo autoritarismo personalista.

Esse risco não é exclusivo da Venezuela. Transições recentes na América Latina, no Oriente Médio e na Ásia confirmam uma ideia apontada por Guillermo O’Donnell e Adam Przeworski: a democracia não se garante só com eleições, mas por incerteza institucionalizada, regras que todos aceitam, mesmo quando perdem. Quando os regimes colapsam abruptamente, sobretudo sob pressão externa, o poder tende a se reorganizar não em torno de instituições duradouras, mas de atores armados ou tecnocratas apoiados pelo exterior.

A Venezuela não é uma folha em branco

O regime de Maduro nunca teve uma legitimidade democrática sólida. Sua nomeação por Chávez e a manipulação da eleição de 2013 marcaram um padrão que continuou com a farsa eleitoral de 2018. A eleição presidencial de 2024, claramente vencida pela oposição e documentada mediante uma contagem paralela, eliminou o pouco de credibilidade eleitoral restante. A recusa do regime em aceitar a derrota confirmou que o poder repousava na coerção.

A crise econômica — salários mínimos abaixo de um dólar, hiperinflação reativada e uma das maiores migrações em tempos de paz — reduziu ainda mais a margem para cálculos políticos prudentes.

Nesse contexto, o apoio a uma solução rápida, mesmo violenta, é compreensível. Mas a Venezuela não emerge da queda de Maduro como uma comunidade política unificada. Anos de autoritarismo fragmentaram o poder entre altos comandos militares, serviços de inteligência, coletivos armados, redes criminosas e grupos estrangeiros, uma dispersão projetada para impedir que as Forças Armadas se tornassem uma ameaça direta.

Esses atores não desaparecem com a saída do líder. Pelo contrário, o colapso repentino pode romper os pactos informais que, embora perversos, continham uma violência maior.

Casos prévios ilustram o risco. No Iraque, a desbaazificação eliminou grande parte da estrutura administrativa do Estado, criando um vácuo ocupado por insurgências armadas. Na Líbia, o colapso do regime sem sucessão institucional dissolveu o próprio Estado.

Os Estados Unidos, que exercem influência considerável sobre a transição venezuelana, parecem conscientes desses precedentes. Em vez de promover uma deschavização total, Washington tolerou figuras de continuidade que podem evitar um colapso do Estado, mesmo ao custo de marginalizar parte da oposição democrática.

Primeiro a estabilidade, depois a democracia?

O papel dos Estados Unidos reflete uma tensão persistente entre princípios democráticos e prioridades geopolíticas. A retórica oficial enfatiza a democracia, a luta contra o narcotráfico e a segurança regional. No entanto, decisões recentes — tolerância em relação a figuras do antigo regime, prioridade à estabilidade energética e marginalização de atores da oposição — sugerem um objetivo familiar: estabilidade política em termos estratégicos.

Essa lógica tem precedentes. Da Coreia do Sul de Park Chung-hee à Indonésia de Suharto, a modernização autoritária alinhada com Washington foi apresentada durante décadas como um passo prévio à democratização. Em alguns casos, a democracia veio depois; em outros, a estabilidade consolidou regimes autoritários duradouros.

A liderança interina venezuelana gerou comparações com esses modelos de estabilização tecnocrática. Seus defensores apontam para uma certa estabilização macroeconômica e recuperação parcial das capacidades estatais. Seus críticos alertam que adiar a prestação de contas democrática pode consolidar o que Daron Acemoglu e James Robinson chamam de instituições extrativistas, sistemas que concentram poder e renda em elites reduzidas.

O dilema venezuelano se parece menos à transição pactuada no Chile do que a ciclos de instabilidade institucional como o peruano, ou ao alerta nicaraguense sobre como momentos revolucionários podem derivar em novas concentrações de poder.

Nesse contexto, o petróleo continua sendo politicamente central. O petróleo venezuelano é pesado, caro de refinar e menos estratégico em um mercado global marcado pela transição energética. O acesso reduzido à China e o provável fim dos envios subsidiados a Cuba reduzem ainda mais seu peso geopolítico.

Mesmo assim, o petróleo continua a estruturar as negociações entre as elites. As receitas do petróleo têm historicamente enfraquecido os incentivos ao pluralismo institucional, fomentando lutas pelo controle do Estado em vez de investimentos em prestação de contas ou diversificação econômica.

O paradoxo é que o petróleo mantém influência política mesmo quando sua importância material diminui. A Venezuela nacionalizou sua indústria petrolífera em 1976 sob um governo democrático pró-EUA. Mohammad Mossadegh, no Irã, foi derrubado em 1953 por tentar exercer um controle soberano semelhante. Hoje, o petróleo venezuelano é menos crucial para a economia mundial do que o iraniano era na época, mas seu controle continua a delimitar os limites externos da mudança política.

O espelho iraniano

Essas dinâmicas ressoam além da América Latina. Após o assassinato do líder supremo Ali Khamenei em recentes ataques americanos e israelenses, que eliminaram parte da cúpula militar do regime, o Irã enfrenta hoje uma questão familiar: se o regime dos aiatolás entrar em colapso, isso abrirá caminho para a democratização ou para outra forma de autoritarismo apoiada externamente?

Como na Venezuela, alguns setores da oposição buscam apoio internacional prometendo estabilidade, investimento e alinhamento geopolítico. Ao mesmo tempo, movimentos sociais — especialmente liderados por mulheres e jovens — articulam demandas mais profundas de transformação democrática.

O caso venezuelano oferece um aviso: quando os atores externos privilegiam a previsibilidade sobre a participação política, as transições podem conseguir a saída dos governantes sem construir as instituições necessárias para a competição democrática.

O lento trabalho da democracia

Os momentos de colapso liberam uma enorme energia política. Sem instituições para canalizá-la, essa energia pode se tornar destrutiva. Mas as transições que privilegiam apenas a ordem correm o risco de consolidar novas formas de poder sem prestação de contas.

A democratização só tem sucesso quando nenhum desses impulsos domina: quando a mobilização popular se traduz em regras duradouras e a autoridade política opera dentro de limites institucionais claros.

A América Latina não carece de aspirações democráticas. O que frequentemente falta — muitas vezes sob pressão externa — é o tempo e o espaço político necessários para que a democracia se construa e se institucionalize.

A questão que a Venezuela, Cuba e outros países enfrentam não é se o autoritarismo deve acabar, mas como. A resposta determinará se a região avançará para uma democracia mais sólida ou simplesmente passará de uma forma de dominação para outra.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

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Pesquisador Associado do ICAEPA, com sede em Sheffield, Reino Unido. Economista. Consultor em análise de risco, inteligência de negócios, análise de cadeia de valor e preços de transferência.

Professor Adjunto de Ciência Política no Valencia College (Orlando, Flórida). Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Carabobo (Venezuela). Presidente da Seção de Estudos Latinxs da LASA.

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