Normalmente, diz-se que votar numa democracia é um dever cívico. Alguns países do mundo vão um passo além e convertem esse dever em uma obrigação legal através do voto obrigatório. No total, 26 países seguem esse modelo, com diferentes sanções para quem não vota e diferentes graus de severidade na sua aplicação. Onze deles estão na América Latina, motivo suficiente para examinar mais de perto o voto obrigatório.
Os tipos de voto na América Latina
Na América Latina, distintos modelos de participação eleitoral convivem. Existem três tipos principais de voto. O primeiro é o voto sem obrigação nem sanção, adotado por países como Colômbia, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Panamá, República Dominicana e Venezuela, onde o sufrágio é um direito voluntário e depende do compromisso do cidadão.
Em segundo lugar, está o voto obrigatório, mas sem sanção efetiva, conhecido como voto simbólico, presente em México, Honduras e Costa Rica, onde a norma estabelece a obrigatoriedade, mas carece de mecanismos de controle ou punição.
Por fim, há o voto com obrigatoriedade e sanção, que por sua vez se divide em duas modalidades:
- Voto com sanção moderada, aplicado no Equador e no Paraguai, onde o descumprimento é punido com multas leves.
- Voto com sanções rigorosas, vigente na Argentina, Bolívia, Brasil, Uruguai e Peru, onde a ausência injustificada pode acarretar multas ou restrições administrativas.
Quanto às multas, o valor varia consideravelmente entre os países. Vai de sanções simbólicas de apenas R$ 3,50 (≈ 0,60 USD) no Brasil, até valores que ultrapassam os 3.600 pesos uruguaios (≈ 90 USD) no Uruguai. Na Argentina, a multa oscila entre 50 e 500 pesos argentinos (≈ 0,05 – 0,50 USD), enquanto no Peru gira em torno de S/ 25,75 (≈ 6,80 USD) e na Bolívia pode chegar a 900 bolivianos (≈ 130 USD). No caso do Chile, o último desses países a implementar uma sanção, ela varia entre 35 e 110 USD. Essas multas também podem depender de fatores como a condição profissional do eleitor, a reincidência ou o tipo de eleição.
Vantagens do voto obrigatório
O voto legalmente obrigatório aumenta o nível de representatividade, pois quanto mais pessoas participam, mais legítimos são os resultados. Ademais, reforça o princípio filosófico da igualdade política entre os cidadãos e evita o fenômeno do “freeriding”, ou seja, aproveitar-se do esforço coletivo sem contribuir.
Vários estudos mostram que, quando o voto é visto como um dever cívico, as pessoas tendem a se informar melhor antes de ir às urnas. O voto obrigatório também manda um recado sobre a importância das eleições na democracia e ajuda na estabilidade do governo.
Além disso, uma alta participação reduz o impacto de pequenos grupos altamente mobilizados sobre o resultado final e diminui os custos das campanhas eleitorais, limitando a influência do financiamento privado nos partidos e candidatos. Finalmente, para garantir a liberdade de escolha, poderia ser incluída na cédula a opção de abstenção explícita, permitindo manifestar o desacordo com as alternativas políticas disponíveis.
Existem desvantagens?
O voto obrigatório também tem desvantagens. Em primeiro lugar, restringe a liberdade individual de expressar o descontentamento por meio da abstenção, que pode ser uma forma legítima de rejeição a um sistema político que não responde às expectativas dos cidadãos. Da mesma forma, coloca em questão a discussão sobre se as pessoas que têm direito ao voto também têm o direito de não votar dentro de um sistema de justiça.
Outra controvérsia em torno do voto obrigatório é a capacidade estatal necessária para administrar as multas e controlar a participação das pessoas nos processos eleitorais, o que implica custos e infraestrutura burocrática.
A realidade na América Latina
Na América Latina, a participação eleitoral atravessa uma tendência de queda que evidencia os limites do voto obrigatório como ferramenta de fortalecimento democrático. Embora a região mantenha em sua maioria sistemas com voto obrigatório, os níveis de participação têm diminuído constantemente nas últimas duas décadas. Fatores como a desconfiança em relação aos partidos, o desencanto com as instituições e a fragmentação política explicam parte desse retrocesso.
O caso da Argentina, onde, apesar da obrigatoriedade, a participação atingiu em 2025 seu nível mais baixo desde 1983, ilustra essa crise de compromisso cidadão. Embora alguns países, como o Peru (2021: 70%), não só tenham a obrigatoriedade do voto, mas também sanções, eles registram uma participação relativamente baixa sob as mesmas regras.
Em contrapartida, o Uruguai (2021: 90%) apresenta taxas mais altas, o que evidencia que a participação não depende apenas do marco legal, mas também da confiança no sistema e na cultura cívica que o sustentam. Ainda assim, apesar da tendência de queda, a participação eleitoral na América Latina permanece significativamente maior do que em muitas democracias europeias.
Tradução automática revisada por Isabel Lima











