Em 2025, a riqueza dos bilionários no mundo cresceu três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos, atingindo um recorde histórico de US$18,3 trilhões em nível global. Esse crescimento coincide, paradoxalmente, com um mundo onde quase metade da população vive com menos de US$8,3 por dia e mais de um quarto enfrenta insegurança alimentar. A extrema concentração de riqueza é parte da realidade preocupante que ilustra o recente relatório da Oxfam, “Contra o império dos mais ricos. Defendendo a democracia frente ao poder dos bilionários”, publicado por ocasião do Fórum Econômico Mundial de Davos.
O relatório afirma que a concentração de riqueza registrada na última década atingiu níveis inimagináveis, com o número de bilionários ultrapassando 3.000 pela primeira vez no ano passado. Essa acumulação excessiva retrata os últimos cinco anos como a “década dos bilionários”, uma situação em que o poder econômico se acumula sem limites, enquanto a igualdade de direitos se torna uma ficção. O debate já não é sobre quanta desigualdade é moralmente aceitável, mas se as democracias podem sobreviver quando um pequeno grupo de pessoas com riquezas cada vez maiores usa seu poder econômico para comprar eleições, influenciar decisões ou financiar campanhas políticas.
Essa conexão entre poder econômico e poder político encontra sustentação teórica na reflexão da filósofa e economista Ingrid Robeyns, que adverte que a igualdade política não pode sobreviver em um mundo de poder econômico ilimitado, pois a partir de certo ponto, a riqueza privada se torna moralmente injustificável e politicamente perigosa. Nesse sentido, as democracias passam a ter um caráter decorativo, o poder político é transferido para algumas elites sem que estas prestem contas, pois a acumulação de riqueza ultrapassa um limiar ético além do qual a riqueza deixa de contribuir para o bem-estar individual e começa a corroer o bem-estar da maioria.
A realidade latino-americana não é alheia a essa situação. Segundo a Oxfam, a riqueza dos bilionários na região cresceu 16 vezes mais rápido do que a economia regional no último ano, os 109 bilionários acumulam cerca de 622 bilhões de dólares, um valor comparável ao PIB combinado do Chile e do Peru. Desde o ano 2000, essa riqueza aumentou 443%, revelando não apenas crescimento, mas uma tendência estrutural de concentração. Por que devemos nos preocupar com essa situação?
Uma das razões está no extremo oposto dessa concentração injusta: as persistentes taxas de pobreza e desigualdade na região. Apesar dos avanços nesse sentido, a região ainda é uma das mais desiguais do mundo e registra altos índices de pobreza que mantêm 162 milhões de pessoas vivendo nessa situação. Parte das causas está associada à insuficiência de recursos públicos para financiar a saúde, a educação, a proteção social e os cuidados, garantindo gratuidade, qualidade e universalidade, pois, diante de déficits fiscais recorrentes, os Estados optam pela austeridade e pelo endividamento como se não houvesse outra saída.
A realidade é bem diferente. Na maioria dos casos, os sistemas tributários dos países da América Latina e do Caribe cobram preservando os privilégios de poucos e ajustando o bolso da maioria: arrecadam menos de quem tem mais e mais de quem tem menos. Os números são claros: enquanto os 50% mais pobres contribuem com 45% de sua renda em impostos, os 1% mais ricos contribuem com menos de 20%. O resultado são Estados com capacidade redistributiva limitada.
Em segundo lugar, contrariamente às vozes que defendem a meritocracia como virtude do progresso, na região mais da metade dos super-ricos herdou total ou parcialmente sua fortuna, muito acima da média mundial. A desigualdade deixa assim de ser um retrato do presente para se tornar uma estrutura que se reproduz geração após geração. Quais mecanismos reforçam essa situação?
O relatório aponta um dado que exige atenção especial e que retoma a hipótese central deste artigo: a ligação entre a acumulação excessiva das elites e a deterioração das democracias torna-se cada vez mais evidente. Em nível global, os bilionários têm 4.000 vezes mais chances de ocupar um cargo político do que um cidadão comum. Na América Latina, pelo menos 16 presidentes em 11 países chegaram ao poder após dirigirem grandes empresas. Não é uma anedota; é um sintoma. A porta giratória entre os negócios e a política transforma a competição democrática em uma corrida com ponto de partida desigual.
65% do patrimônio dos bilionários latino-americanos concentra-se em setores estratégicos — finanças, telecomunicações, energia e mídia — altamente dependentes de regulamentações estatais e de sua proximidade com o poder político. Onde o mercado se entrelaça com o Estado, a fronteira entre interesse público e privilégio privado torna-se difusa.
Por fim, a concentração extrema de riqueza e poder não é exclusiva de uma região. O surgimento de oligarquias tem um impacto negativo em todas as sociedades. A experiência recente dos Estados Unidos, com políticas favoráveis aos super-ricos e o enfraquecimento das regulamentações antimonopólio, mostra até que ponto as políticas podem ser capturadas. Quando as decisões que afetam a maioria respondem a interesses particulares, a democracia perde o sentido. Não é de surpreender, então, que quase metade das pessoas entrevistadas na Pesquisa Mundial de Valores acredite que os ricos compram as eleições em seus países. É evidente que a concentração extrema de riqueza é incompatível com democracias robustas.
O desfecho dessa história pode ser diferente com ações decididas para mudar o rumo: implementar medidas como tributar a riqueza dos 1% mais ricos e as heranças, regular a influência política e midiática das elites, fortalecer a participação cidadã e proteger as liberdades democráticas. A disjuntiva é clara: ou as democracias recuperam a capacidade de regular o poder econômico, ou se transformam gradualmente em sistemas onde as decisões-chave respondem a uma elite cada vez mais reduzida.
Não está em jogo apenas o tipo de sociedade que se constrói, mas também quem decide seu rumo. Nesse dilema está em jogo boa parte do futuro da América Latina e do mundo nos próximos anos.
Tradução automática revisada por Isabel Lima









