Rio de Janeiro, Lisboa, Nova York e Berlim. Em 2021, escrevi sobre a possibilidade de coalizões saudáveis no Brasil, à semelhança da geringonça portuguesa, pavimentarem o caminho para a derrota do extremismo de direita no Brasil.
Hoje, escrevo novamente para reafirmar a mesma tese, e observar como ela se sustentou bem no passar do tempo.
Eduardo Paes no Rio de Janeiro, Zohran Mamdani em Nova York, Elif Eralp e o Die Linke em Berlim, Carlos Moedas em Lisboa e Pedro Duarte no Porto, ambos do PSD naquele país. Relembrando termos de Silva Jardim em “Memórias e Viagens” (1891), há uma “simpatia elétrica” entre aqueles que nas cidades atuam por uma sociedade democrática.
Em uma campanha na qual apelou ao voto moderado, o socialista António José Seguro foi eleito presidente de Portugal em fevereiro de 2026. Ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), de centro-esquerda, Seguro alcançou mais que 66% dos votos e derrotou confortavelmente o candidato André Ventura, líder do Chega, da direita radical portuguesa, que concorria com um forte discurso anti-imigração, característica comum da ultradireita europeia. A direita por lá alcançou não mais que 33% dos votos no pleito.
Grandes cidades, conglomerados urbanos e sua vivência internacionalista, nos mostram como, em ambientes hostis ao Estado de Direito e à democracia, a social-democracia se fortalece em coalizões e diálogo concertado pela moderação.
No Brasil, a sobrevivência à COVID 19, em um ambiente de omissão criminosa do governo federal sob Bolsonaro, fez pulsar a resistência nas cidades. A história do Rio de Janeiro era especialmente crítica. Sob a política fascista, letal e corrupta de Cláudio Castro e a aquiescência e omissão de Marcelo Crivella, populações vulneráveis viviam a dupla possibilidade de morte – pelo extermínio de operações violentas de repressão e pelo adoecimento.
E foi nesse contexto de negacionismo dos representantes do governo e abandonados na luta pela própria sobrevivência que os cariocas sentiram na pele, que se fortaleceu o retorno de Eduardo Paes. Aliado ao então ex-presidente Lula, naquele ambiente hostil, foi eleito em 2020 no que chamou de “vitória da política” contra a radicalização. À época, Paes venceu em todas as 49 zonas eleitorais da cidade e teve quase o dobro dos votos de seu adversário da situação no segundo turno, Marcelo Crivella (do Republicanos), que tentava a reeleição. A possibilidade de reeleição no Brasil, como se sabe, é uma forte tradição nacional.
Mas o percurso não é fácil, sabemos que vencer em grandes cidades, não significa conseguir alcançar o interior dos Estados, historicamente conservadores e conformados à centenária dinâmica de grandes propriedades de terras e seus herdeiros locais no país.
Neste ano, vemos Eduardo Paes em plena liderança no Rio de Janeiro, agora não apenas na cidade, mas também no Estado. E isso é relevante, exatamente pelo caráter mundial do intervencionismo imperialista que vivenciamos. Eduardo Paes não apenas é a oposição concreta da social-democracia no Rio de Janeiro, em considerando todas as críticas que a esquerda e a direita podem argumentar a seu respeito. Ele é a derrota do bolsonarismo no seu lugar primeiro de origem, onde vivas pulsam as memórias da ditadura, da tortura, da execução ilegal e do extermínio. Reminiscências do passado escravocrata, das práticas autoritárias e da lógica ditatorial de extermínio.
Votar em Paes é o compromisso do carioca e do fluminense contra a lógica do “tiro na cabecinha” que iguala policiamento e crime de modo perverso, que fortalece a lógica da violência, a corrupção, as milícias e a contravenção. É mais do que isso: em tempos de arroubos de intervenção e tarifaços de Donald Trump contra a soberania do Brasil, é uma garantia a mais de que não seremos um palco submisso ao discurso persecutório hobbesiano ao “terrorismo”. O carioca sabe bem para onde o pseudo “direito do mais forte” leva, e qual o significado de terras sem lei, que sempre tem um “chefão” da vez.
Ou seja, a história nos afirma e traz exemplos recentes de que modos democráticos de grandes cidades e coalizões saudáveis derrotam extremistas de direita. E que ao votar, cidadãs e cidadãos do Brasil, cada um pese bem a sua escolha, e não esqueça que ao longo do tempo, contramovimentos reacionários sempre tentaram apagar a simpatia elétrica dos que sonham com um país mais justo, próspero e menos desigual.










