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A galáxia rosa, um perigo para a democracia

O Foro de Sâo Paulo e o Grupo de Puebla foram protagonistas e são herdeiros da chamada "onda rosa" de governos de esquerda que se estendeu pela região no início do milênio.

Muito se fala sobre eles, mas pouco se sabe. O Foro de São Paulo e o Grupo Puebla foram protagonistas e são herdeiros da chamada “maré rosa” de governos de esquerda que tomaram conta da região no início do milênio. Embora os governos alinhados com esses espaços tenham dado o tom na região nas últimas duas décadas, também houve uma erosão dramática da institucionalidade democrática. Ambos os fenômenos estão intimamente entrelaçados.

Os atores da primeira maré rosa evoluíram para uma galáxia rosa que hoje compreende atores, instituições e associações de esquerda que, por trás de uma fachada progressista, minam os princípios da democracia liberal. O Foro de São Paulo, hoje a organização de partidos políticos com mais governos na América Latina, e o Grupo Puebla, um grupo de ativistas de esquerda, são apenas duas das várias instituições da galáxia rosa. Também vale a pena mencionar, entre outros, o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) como difusor de comunicados e publicações acadêmicas altamente tendenciosas, e a Progressive International, que conecta as organizações de esquerda latino-americanas com seus pares fora da região.

Embora todas essas constelações reúnam estrelas democraticamente legítimas com planetas autoritários, são claramente os últimos que as dominam. Assim, a galáxia rosa forma uma plataforma de apoio às ditaduras. Destaca-se particularmente o papel central que Cuba continua desempenhando nesse contexto. Havana é uma espécie de Vaticano socialista, um elemento unificador cujos dogmas não são questionados.

Ideologia compartilhada

A galáxia rosa funciona em alguns âmbitos de acordo com a lógica de um partido transnacional de esquerda autoritária. Ela compartilha uma base ideológica sólida, tem canais de coordenação formalizados e institucionalizados e um instinto corporativo de poder. Sua ampla rede de indivíduos e organizações serve tanto para apoiar uns aos outros por meio de cartas de apoio, como para interceder em conflitos com o judiciário ou para apoiar candidaturas com a mesma opinião em organismos internacionais. Ela se opõe ao “neoliberalismo” e ao “imperialismo” dos Estados Unidos. Rejeita a concepção de democracia liberal e exige sua substituição por uma democracia mais “radical” ou “participativa”. É muito hábil para disseminar suas narrativas.

Uma delas é o chamado “lawfare”, uma suposta perseguição política a líderes de esquerda, como a ex-presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner, o ex-presidente equatoriano Rafael Correa ou o ex-líder golpista peruano Pedro Castillo. Ao mesmo tempo, os atores da galáxia rosa ignoram ou defendem o desprezo pelos direitos e liberdades dos oponentes políticos em Cuba, Nicarágua e Venezuela. Nesse contexto, o silêncio ensurdecedor em relação à exclusão de María Corina Machado das eleições presidenciais na Venezuela é significativo.

Atores globais

Essa constelação também é um terreno fértil para potências estrangeiras autoritárias, como a Rússia, a China e o Irã. Elas compartilham com a galáxia rosa a rejeição dos valores liberais ocidentais e, particularmente, dos Estados Unidos. Um papel singular nesse contexto foi desempenhado pelo Kremlin. Seus meios de comunicação, liderados pela Atualidade RT, assim como o canal iraniano HispanTV, mostram um alinhamento absoluto com a galáxia rosa. Essa proximidade entre a Rússia e a galáxia rosa é demonstrada em várias ocasiões.

Exemplos disso são a falta de condenação da invasão russa na Ucrânia em declarações do Grupo Puebla e do Foro de São Paulo, a organização conjunta em plena guerra de fóruns acadêmicos pela CLACSO e pela agência russa Sputnik em São Petersburgo, ou a participação massiva de pessoas da órbita da galáxia rosa em um Fórum Parlamentar Rússia-América Latina organizado pelo parlamento russo em outubro de 2023 em Moscou com a participação de Vladimir Putin.

Uma rede extensa

A proximidade com a Rússia, a China e o Irã ajuda a entender melhor alguns comentários geopolíticos recentes de líderes de esquerda. Assim, Lula da Silva, como cofundador do Foro de São Paulo e uma das principais figuras da galáxia rosa, questionou a responsabilidade de Vladimir Putin pela morte do líder opositor russo Alexej Navalny, enquanto o presidente Gustavo Petro comparou, assim como Lula, a guerra de Israel em Gaza ao genocídio da ditadura nazista na Alemanha. Essa última é uma narrativa difundida pelo Irã.

A própria galáxia rosa em si é um ator que prejudica gravemente a democracia na América Latina, ao mesmo tempo em que constrói pontes para que atores autoritários estrangeiros possam usar a região para seus fins geopolíticos. Por estar em modo de ataque permanente e apelar para emoções negativas primárias, como medo, raiva ou frustração, a galáxia rosa muitas vezes consegue se esquivar surpreendentemente bem das críticas à sua própria falta de coerência democrática.

Por isso, é fundamental a transparência sobre os atores, aliados e modos de atuar da galáxia rosa. É hora dos democratas de todas as cores se unirem contra essa ameaça.

Autor

Diretor do Programa dos Partidos Políticos e Democracia na América Latina da Fundação Konrad Adenauer, com sede em Montevidéu, Uruguai.

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