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Será esta uma onda esquerdista fugaz?

A América Latina constitui hoje, provavelmente, a principal referência da esquerda no mundo. Mas é incerta a duração que terá essa nova onda de governos identificados com esta perspectiva ideológica, que têm se sucedido nos últimos anos na região, sobretudo em um mundo que avança ao autoritarismo. Portanto, a pergunta que caberia perguntar é: estamos diante de uma onda progressista ou estão lançando as bases para um retorno retumbante da direita?

Em 2018 Andrés Manuel López Obrador ganhou a Presidência do México com mais de 30 milhões de votos, um número que representou 53,2% dos votos em um país que não requer um segundo turno para tomar posse. Neste caso, não foi uma simples onda, tratou-se de um verdadeiro tsunami em termos eleitorais.

Desde então, uma série de países foram optando por governos de esquerda. Em 2019, embora com suas próprias reviravoltas, no Panamá com Laurentino Cortizo Cohen e na Argentina com Alberto Fernández, a esquerda chegou ao poder. Um ano depois o fez na Bolívia, com Luis Arce, e em 2021 no Peru, com Pedro Castillo, e em Honduras, com Xiomara Castro. Recentemente, Gabriel Boric triunfou no Chile e na Colômbia, Gustavo Petro marcou um verdadeiro feito, pois a esquerda nunca antes havia triunfado a nível nacional.

As mudanças na América Latina, é claro, não são homogêneas. No Equador (Guillermo Lasso), El Salvador (Nayib Bukele) e Uruguai (Luis Lacalle Pou) os governos de direita se mantem, assim como no Brasil, embora aqui tudo aponte que Jair Bolsonaro será substituído por Luiz Inácio Lula da Silva, que retornaria como presidente de esquerda, montado nesta nova onda.

Remanescentes da primeira onda?

Inicialmente, os governos de esquerda foram se instaurando paulatinamente na América Latina a partir de 1998, quando Hugo Chávez se tornou Presidente na Venezuela. A partir de então, a esquerda se expandiu rapidamente pela região com líderes carismáticos. Mas na segunda metade da década anterior, sucessivos governos de direita foram retomando o poder. Em 2020 era possível contar 11 presidentes latino-americanos de direita.

Entretanto, após a vitória de López Obrador no México, onde o epicentro da virada que significou o começo de uma série de derrotas do conservadorismo, pode-se afirmar que a onda atual apenas foi precedida por um efêmero giro à direita.

Neste contexto, em que ciclo político a América Latina se encontra atualmente? Estamos frente a uma forte onda de governos esquerdistas? Que duração essa nova etapa terá? Trata-se de perguntas relevantes, sobretudo quando na Europa as esquerdas parecem cada vez mais debilitadas. Por exemplo, a recente queda do primeiro-ministro italiano Mario Draghi, que abriu o caminho para a extrema-direita no país.

O espelho europeu

Enquanto a América Latina vive um novo giro à esquerda, na Europa os triunfos da extrema-direita são cada vez mais comuns. O próprio Mélenchon foi vítima da força da extrema-direita quando Marine Le Pen lhe arrancou o segundo lugar no primeiro turno e foi ao segundo competir contra Emmanuel Macron. França Insubmissa e sua proposta de “Outro mundo é possível” caiu para o terceiro lugar.

No mundo, governos autoritários como China, Filipinas, Rússia ou Turquia são cada vez vistos com maior normalidade. Enquanto isso, a extrema-direita ganha terreno na Europa, onde não apenas Le Pen, mas também o Partido da Liberdade na Áustria, o Partido Popular Conservador na Estônia ou o Vox na Espanha ganham terreno. Chega! tornou-se a terceira força política em Portugal em 2022 e o chamado para novas eleições na Itália representa uma oportunidade para Giorgia Meloni.

As expectativas que se tem sobre a esquerda latino-americana e seu desempenho no governo são altas. No entanto, este será realmente o começo de uma etapa de progressismo e de continuidade da esquerda na América Latina? Ou estão assentando as bases para um regresso da direita que hoje parece um pouco abatida? Teremos que esperar, só o tempo dirá.

Autor

Profesor e investigador de tiempo completo en la Univ. de la Ciénega del Estado de Michoacán (México). Doctor en Estudios Sociales con especialidad en Procesos Políticos por la Univ. Autónoma Metropolitana (UAM). Miembro del SNI-Co.

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