Venezuela após Maduro: as três perguntas que decidem a transição

Quem controla as armas? Quem controla o dinheiro? Quem pode aceitar perder uma eleição sem romper a democracia?

A teoria política distingue dois grandes tipos de transições à democracia desde regimes autoritários, que na realidade raramente ocorrem em estado puro. Por um lado, estão as transições negociadas, baseadas em acordos entre setores do regime autoritário e setores da oposição, geralmente entre os setores moderados de ambos os lados. Esses processos podem derivar em continuidades institucionais, garantias para as elites de saída e anistias, e as mudanças são graduais e controladas. Os casos do Chile e da Espanha são exemplos clássicos. Philippe Schimitter e Guillermo O’Donnell destacaram que esse tipo de negociação ocorre, sobretudo, porque nenhuma parte tem força suficiente para se impor categoricamente. O outro grande grupo de transição à democracia é o produzido pelo colapso do regime autoritário, seja pela crise econômica, pela derrota militar ou pela mobilização civil. Argentina após a guerra das Malvinas, Grécia e Portugal (1974) ilustram esse caminho. 

 A pergunta subsequente apareceu décadas depois: que tipo de democracia fica após uma transição, e com que capacidades reais? Ali aparecem várias teorias. Juan Linz e Alfred Stepan enfatizam que sair do autoritarismo não é suficiente, mas que a democracia deve ser aceita por todos os atores como o único jogo possível. O’Donnell, por sua vez, observou que muitas transições produzem democracias eleitorais, mas não republicanas, e introduz o conceito de “cidadania de baixa intensidade”. Adam Przeworski, com uma visão institucional, sustentou que a democracia funciona quando os perdedores aceitam o resultado com a expectativa de poder ganhar em futuras eleições.

A Venezuela é, por enquanto, um laboratório para a teoria das transições. Com informações incompletas e até que as forças com poder de escolha e veto se organizem, trata-se de um evento extraordinário e ainda politicamente indeterminado. Dito isso, uma intuição parece clara: a prisão de Maduro não resolve a transição; apenas dá início ao período mais arriscado, onde se define se o processo resultará em uma ruptura, uma transição pactuada ou uma experiência híbrida.

Três trajetórias possíveis

O primeiro cenário é o da ruptura. Isso ocorrerá se a prisão de Maduro resultar em um colapso do comando, somado à perda da capacidade de coordenação do regime. Podem surgir fissuras nas próprias Forças Armadas, dos serviços de inteligência, da polícia, das milícias e dos governos locais. A fragmentação do aparato coercitivo abriria uma janela de oportunidade para reformas rápidas, como a libertação de presos políticos, a abertura eleitoral e desmantelamento de estruturas paralelas. O principal risco é cair na anomia e na violência, que haja represálias, detenções, censura das comunicações e que Diosdado Cabello, Padrino López ou comandantes locais lutem para manter ou aumentar seu poder, ou que a ordem seja reconstruída por um ator armado renovado na figura de salvador.

Um segundo cenário seguiria a lógica das transições pactuadas. O retorno à institucionalidade e a convocação de eleições ocorreriam em troca de garantias como exílio, anistias parciais e preservação de cotas de poder econômico ou militar. O acordo envolveria setores moderados do chavismo, além da oposição e de garantes externos. Trata-se de um pacto sob certa coerção, os atores-chave têm a capacidade não apenas de pactuar, mas de fazer cumprir o acordado, mesmo que muitos deles não sejam democráticos em si mesmos. Os riscos são os típicos das democracias em transições pactuadas: justiça fraca, um Estado que pode ser colonizado por interesses, corrupção que se recicla em um novo regime e concessões institucionais destinadas a garantir a estabilidade e a pacificação.

O terceiro cenário é o de uma transição tutelada. A oposição pode ganhar poder e conseguir uma mudança na elite governante, mas aqui a mudança de regime não surge principalmente de dinâmicas internas, mas da intervenção ou supervisão de atores externos. A Bósnia-Herzegovina (1995) ou o Iraque (2003) são exemplos extremos. O risco central é um grande déficit de legitimidade, por se tratar de uma democracia que parece ter sido imposta de fora, com baixa capacidade de obter obediência interna. A isso se soma a latência de um chavismo sem Maduro que sobrevive como identidade política, ancorado em uma rede territorial, econômica, de corrupção e narcotráfico, reforçada por um discurso de agressão estrangeira.

Impunidade ou incerteza

Se prevalecer um pacto, a transição para uma democracia eleitoral pode ser mais rápida, mas os atores herdados do regime anterior — militares, juízes, serviços de inteligência ou futuros legisladores — mantêm poder e privilégios. Isso geralmente se traduz em negociações de impunidade, reformas institucionais lentas e áreas do Estado que permanecem das administrações anteriores.

Se prevalecer uma ruptura, a democracia pode nascer com maior ambição reformista, mas também com um consequente maior nível de incerteza econômica e menor confiança inicial nos novos atores, instituições e elites.

O tipo de regime que será construído na Venezuela dependerá do peso relativo dos atores, sejam eles democráticos ou não, com capacidade de construir ou vetar acordos. Em última análise, o sucesso se resume a três perguntas: quem controla as armas, quem controla o dinheiro e quem pode garantir de forma confiável que, caso perca as eleições — e com isso privilégios e impunidade — continuará apostando na democracia. Na Venezuela, a democracia poderá começar com ganhar uma eleição, mas só quando alguém aceitar perdê-la

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Bacharel em Ciência Política pela Univ. de Buenos Aires (UBA), com especialização em Relações Internacionais. Diploma da Escola de Governo do INCAP. Analista do Instituto de Segurança Internacional e Assuntos Estratégicos (ISIAE/CARI).