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Venezuela e a ordem mundial

A crise venezuelana expõe não uma nova ordem mundial, mas a persistência do velho princípio do poder do mais forte, agora reconfigurado em uma disputa aberta pelas áreas de influência.

Enquanto George W. Bush se curvava repetidamente tentando inventar razões medianamente aceitáveis ou compatíveis com as leis internacionais que justificassem a invasão do Iraque ou do Afeganistão, Donald Trump nem sequer fingiu fazer o gesto. É uma diferença. Mas não creio que seja suficiente para marcar a distinção entre uma ordem mundial e outra. A ordem mundial, desde que existe ordem e quando existe ordem, sempre foi a ordem do mais forte. A legalidade internacional sempre serviu como uma desculpa mais ou menos ignorável.

Isso não significa que a força possa se dar ao luxo de prescindir de legitimações. Todo poder as requer, mesmo o mais despótico. O regime venezuelano ofereceu motivos de sobra para ser odiado pelo mundo e por seus vizinhos. É um regime abjeto que, no entanto, não é o mais abjeto que já enfrentou o poder imperial. Os talibãs no Afeganistão eram bem piores. Saddam Hussein era um criminoso bem mais perigoso e desprezível do que Nicolás Maduro. A meu ver, nem mesmo nesses casos extremos as operações policiais norte-americanas se justificam, porque aceitar seu papel de polícia mundial significa nos submeter aos caprichos do julgamento dos políticos norte-americanos sobre quem merece e quem não merece justiça.

Os curdos merecem-na contra Saddam e contra o ISIS, mas os palestinos não a merecem contra Israel, outro exemplo conhecido de um país que nunca invoca nenhuma legalidade para justificar as suas operações policiais ou abertamente genocidas. Experiências sociais eticamente defensáveis, como o Chile de Allende ou o sandinismo da primeira época, mereceram a traição e a felonia, sem a menor consideração por qualquer lei internacional. Estamos longe de uma ordem mundial aceitável. O essencial, é claro, não é o que eu penso, mas que o regime venezuelano estava suficientemente desacreditado mundialmente para servir de guarda-chuva moral a uma intervenção que também usou a desculpa do narcotráfico, embora não houvesse muitas provas defensáveis para incriminar os acusados. Toda força se submete a um certo consenso indispensável.

É por isso que Donald Trump acha incomparavelmente mais difícil fazer uma operação policial na Groenlândia do que na Venezuela. Ele tem a mesma força e o mesmo interesse geopolítico. Carece de um mínimo de legitimidade. Esse tipo de limite sempre existiu na ordem mundial do mais forte. O que é realmente novo para a ordem mundial é a doutrina de que cada potência tem direito irrestrito às suas áreas de influência, que a Europa tem que se virar sozinha, que a Ucrânia não é responsabilidade dos Estados Unidos, que a Venezuela não pode decidir se tornar a ponta de lança da influência chinesa, russa ou iraniana no hemisfério ocidental. O quintal dos Estados Unidos, “our backyard”, foi explicitamente invocado por Marco Rubio. Isso significa, realmente, que os Estados Unidos estão renunciando à sua hegemonia mundial para aceitar uma hegemonia hemisférica a partir da qual poderiam negociar com outras potências regionais de peso equivalente?

Não sabemos se essa mudança, que, se confirmada, é incomparavelmente mais importante do que o desprezo por uma desculpa desprezível, é uma política permanente, além de Donald Trump. Também sabemos que, como sempre, essas políticas são o resultado agregado de equilíbrios de influência e poder de diferentes correntes de opinião e diversos interesses na política norte-americana. E essa é uma mudança significativa que exige um realinhamento de forças muito poderosas. Para John Bolton, era inaceitável ter que lidar com o isolacionismo que naturalmente acompanhava o caráter de Trump. Aparentemente, J.D. Vance é o porta-estandarte da corrente anti-intervencionista, enquanto Marco Rubio parece querer levar a doutrina do monopólio da força no hemisfério ocidental até seus limites conhecidos, ou seja, até Cuba e Nicarágua.

Bolton seria a expressão de uma linha neoconservadora que, até onde se pode entender, é majoritária entre os especialistas em política externa, centrada em debater diversas opções destinadas a manter a hegemonia mundial norte-americana contra as ameaças da China e da Rússia. Bolton considera ilusória a estratégia de Trump de se aproximar de Putin para afastá-lo da China, em algo como uma reedição da estratégia de Nixon com Mao em 1973. Sua opção é levar a intervenção na Venezuela e no Irã até sua conclusão lógica na mudança de regime.

Além das figuras visíveis e das especulações, o central serão os diversos interesses dos diferentes atores coletivos por trás de cada uma dessas figuras. O que podemos dizer com certeza é que o isolacionismo original da doutrina MAGA se transformou na política de configurar uma soberania hemisférica imperial completa que coloca a América Latina de volta no centro da estratégia norte-americana, pela primeira vez desde a queda das torres gêmeas. Se será estável ou se terá sucesso no paralelogramo de forças da política norte-americana, não sabemos.

Será uma nova ordem mundial? Os gritos de dor que ouvimos por toda parte talvez sejam dores de parto. Ou talvez sejam as tradicionais vítimas da velha ordem que continua sem ceder.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Historiador. Doutor (PhD) em Humanidades pelo Centre for Latin American Research and Documentation (CEDLA), Amsterdã. Professor da Universidade Andina Simón Bolívar e militante da Comissão de Vivência, Fé e Política.

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