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Venezuela: o capítulo que se encerrou, o país que fica

A queda de Nicolás Maduro encerra um ciclo histórico na Venezuela, mas a forma violenta de sua saída abre um futuro incerto, onde a democracia está longe de ser garantida.

Após anos de colapso econômico, repressão sistemática e eleições abertamente manipuladas, a saída de Nicolás Maduro do poder em 3 de janeiro de 2026 é vista, inicialmente, como uma ruptura definitiva com o passado fracassado. Durante mais de uma década, a Venezuela sofreu uma das contrações econômicas mais severas registradas em tempos de paz: entre 2013 e 2021, a economia reduziu-se a cerca de um quarto do seu tamanho original e, embora tenha havido uma ligeira recuperação posterior impulsionada pela recuperação do petróleo, esta nunca se traduziu em bem-estar generalizado. Para milhões de venezuelanos, exaustos pela pobreza, pela emigração forçada e pela ausência de perspectivas, o fim do madurismo parece encerrar um ciclo histórico iniciado com Hugo Chávez em 1999. No entanto, a forma como esse desfecho ocorreu — uma invasão breve, mas extremamente violenta — obriga a uma reflexão mais sóbria. A história mostra que, embora os regimes autoritários possam cair rapidamente pela força, a construção de uma ordem democrática estável é sempre um processo longo, frágil e profundamente incerto.

Não há dúvida razoável de que Maduro havia perdido o consentimento popular. A eleição presidencial de 2024, vencida de forma contundente pela oposição e respaldada por uma coleta rigorosa e digitalizada de mais de 80% das atas, deixou-o sem qualquer legitimidade democrática. A negativa do regime em reconhecer esse resultado confirmou que o poder já não se sustentava no voto, mas exclusivamente na coerção. A isso se somou uma deterioração econômica extrema: o salário mínimo oficial caiu para cerca de 130 bolívares mensais — menos de um dólar —, até os empregos públicos com bônus dificilmente superavam os 100 dólares por mês, e alimentar uma família custava várias vezes esse valor. A inflação, que havia diminuído transitoriamente, voltou a acelerar, com projeções que apontavam para níveis próximos de 700% ao ano. Cerca de oito milhões de venezuelanos abandonaram o país em pouco mais de uma década, convertendo o êxodo venezuelano em um dos maiores deslocamentos humanos do mundo contemporâneo fora de uma guerra convencional.

Nesse contexto, não surpreende que uma parte significativa da população estivesse disposta a respaldar quase qualquer via que prometesse uma mudança rápida, inclusive a intervenção militar estrangeira. O desespero social reduz a margem para o cálculo político de longo prazo. No entanto, a ideia de que a queda violenta de um autocrata conduz automaticamente à democracia é uma ilusão perigosa. A Venezuela não é uma folha em branco. 

Nos anos finais do chavismo, o poder se fragmentou entre múltiplos atores armados e burocratas. Altos comandantes militares controlavam setores-chave da economia; os serviços de inteligência operavam com ampla impunidade; redes de corrupção ligadas ao narcotráfico e à mineração ilegal se consolidaram; e os coletivos armados se instalaram em zonas urbanas como forças parapoliciais. A isso se somou a presença de grupos armados estrangeiros, em particular guerrilhas colombianas do ELN, que chegou a contar com milhares de combatentes operando em território venezuelano sob uma relação de cooperação com o Estado.

O crime organizado também adquiriu uma dimensão transnacional. O Tren de Aragua, surgido na Venezuela e tolerado por anos mediante pactos informais, se expandiu pela América Latina e se tornou uma das redes criminosas mais poderosas da diáspora venezuelana. Funcionários do regime se beneficiaram dessas relações, que ajudaram a reduzir temporariamente os homicídios, mas a custo de fortalecer estruturas armadas autônomas. Nenhum desses atores desapareceu com a saída de Maduro. Pelo contrário, uma transição súbita e violenta ameaça romper os equilíbrios informais que, embora perversos, haviam contido uma violência ainda maior, incentivando disputas por território, rendas ilegais e poder político.

O risco mais imediato se encontra dentro das próprias forças armadas e de segurança. Embora alguns oficiais possam se alinhar com as novas autoridades, outros seguem profundamente comprometidos pela corrupção, narcotráfico ou violações de direitos humanos documentados por instâncias internacionais. Um estamento militar dividido — ou um que percebe as reformas democráticas como uma ameaça existencial — pode se tornar um fator permanente de instabilidade. Substituir um caudilho por outro, ou por uma junta militar que governe por trás de um rosto civil, segue sendo uma possibilidade real.

Soma-se a esse risco uma dimensão externa inquietante. A operação que pôs fim ao governo de Maduro foi impulsionada por uma administração estadunidense que, apesar de se dizer “antiguerras”, tem demonstrado uma clara disposição para o uso unilateral e expansivo da força. A invasão não só levanta sérias dúvidas éticas e políticas, mas também problemas evidentes de legalidade internacional e constitucional. O sequestro de um chefe de Estado estrangeiro e o uso da força sem autorização multilateral estabelecem um precedente perigoso para a região e para a ordem internacional.

As justificativas oferecidas — desde o narcotráfico até a restauração da democracia — são fracas e seletivas. A Venezuela não tem sido um ator central no fluxo de cocaína para os Estados Unidos, e a ênfase posterior no acesso a suas vastas reservas petrolíferas, junto à reativação explícita de uma versão endurecida da Doutrina Monroe, revela motivações geopolíticas mais amplas: reafirmar a primazia estadunidense no hemisfério e conter a influência chinesa na América Latina. As ameaças posteriores contra outros países da região reforçam essa leitura.

Longe de se tratar de uma operação cirúrgica com um final claro, já se observam sinais precoces de deriva para a ocupação e o “nation-bulding”. Em um país social e politicamente fragmentado como a Venezuela, até mesmo exercícios de planejamento militar estadunidenses alertaram que um colapso abrupto do regime poderia derivar em um longo período de violência e caos, com efeitos diretos sobre a migração regional.

A oposição venezuelana, agora chamada a liderar a transição, deve aprender tanto com sua história interna quanto com esse novo contexto. Seus avanços mais duradouros nas últimas duas décadas não foram alcançados por meio de atalhos violentos ou delegando a estratégia a potências estrangeiras, mas por meio de eleições, unidade e negociação. O referendo de 2007, as eleições legislativas de 2015 e a vitória presidencial de 2024 demonstraram que o autoritarismo podia ser derrotado politicamente quando a oposição agia de forma coesa.

A eleição de 2024, apesar de ter sido desconhecida pelo regime, foi um dos maiores triunfos estratégicos do campo democrático. Esse capital moral e político constitui hoje um dos ativos mais valiosos do período pós-Maduro. Dilapidá-lo por meio de exclusões, vinganças ou purgas indiscriminadas seria repetir erros já conhecidos.

A Venezuela se encontra em uma encruzilhada histórica. O fim do madurismo encerra um capítulo sombrio, mas não abre automaticamente um capítulo democrático. A estabilidade, a justiça e a prosperidade exigirão paciência, negociação e uma transição gradual. A democracia não se impõe pela força: se constrói lentamente, com instituições, acordos e o árduo trabalho de restaurar a confiança no Estado. O verdadeiro desafio da Venezuela começa agora.

Como se diz em latim: “Optimus dies post malum imperatorem est primus.” O melhor dia após um mau rei é o primeiro.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Pesquisador Associado do ICAEPA, com sede em Sheffield, Reino Unido. Economista. Consultor em análise de risco, inteligência de negócios, análise de cadeia de valor e preços de transferência.

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