A guerra da Ucrânia e seu impacto na segurança alimentar da América Latina

A guerra entre Rússia e Ucrânia, que começou no final de fevereiro deste ano, teve fortes consequências não só na Europa, mas também em escala mundial. Essas consequências vão desde a destruição da economia e das obras da Ucrânia, passando pela violação dos direitos humanos da população (parte dela teve que fugir e buscar refúgio em outros países), até os efeitos que prejudicam os próprios russos, sua economia e suas relações internacionais.

Analisar, portanto, o novo tabuleiro geopolítico nos situa no meio das tensões na Eurásia, como parte das pretensões expansionistas da Rússia de retomar sua predominância sobre o território da Ucrânia.

Além do fato de a Rússia considerar a Ucrânia como seu lugar mítico, agrega-se a condição geoestratégica que a torna o protótipo de Estado-pendular, propício para aproximar a Rússia das águas quentes do Mediterrâneo e dos mercados que conseguiu potencializar com vários membros da União Europeia (UE), principalmente no que concerne à venda de hidrocarbonetos.

Trata-se de uma situação de confronto bélico em que se mesclam as ações próprias da geopolítica clássica, centradas no crescimento e na recuperação do espaço vital (lebensraum). Também é valorizado o controle sobre fronteiras e áreas geográficas com enorme potencial, seja em matéria cultural ou produtiva. Entretanto, é essencialmente favorável para conter qualquer tipo de ameaça que afete os critérios de segurança e defesa, como se observa no caso da Rússia com relação à presença próxima da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Ao anterior se somam outras interpretações sobre o mesmo conflito, que oferecem os postulados da geopolítica crítica, que incluem outros agentes e fatores para análise. Neste caso, é pertinente mencionar o papel das empresas dedicadas ao agronegócio e aos hidrocarbonetos, juntamente com as empresas transnacionais que se dedicam à comercialização de alimentos, mas sem deixar de lado as empresas dedicadas à tecnologia de ponta utilizada, entre outras coisas, na supervisão das áreas de cultivo mediante drones operados remotamente.

Neste sentido, o foco na Ucrânia como epicentro do conflito que incide neste redesenho do novo tabuleiro geopolítico mundial tornou-se um verdadeiro laboratório cujos efeitos chegam inclusive à América Latina e à região do mar do Caribe.

De fato, a capacidade produtiva de cereais, óleos e fertilizantes oferecida tanto pela Rússia quanto pela Ucrânia (aliás, isto levou o território ucraniano a tornar-se o “celeiro da Europa” e também de outros países do mundo, incluindo Egito, Líbano e Somália) desencadeou alarmes na comunidade internacional pelo aumento dos preços de produtos de alta demanda como milho, trigo, cevada e óleos de girassol.

O mesmo aconteceu com os fertilizantes derivados de nitrogênio e potássio (espera-se que eles sejam despachados para seus mercados de destino a partir dos portos do sul da Ucrânia, que, no entanto, permanecem bloqueados pelas autoridades russas).

A continuidade deste bloqueio nos principais portos da Ucrânia, somado às retaliações por parte dos países ocidentais que se somaram ao veto de produtos e suprimentos procedentes da Rússia, está gerando, sem dúvida alguma, um efeito boomerang em toda a cadeia de abastecimento que é utilizada para garantir a segurança alimentar em nível mundial.

Quais são as repercussões na América Latina e no Caribe? Uma repercussão fundamental corresponde à preocupação dos agricultores latino-americanos que, em meio a este fogo cruzado, enfrentam um possível desabastecimento de fertilizantes provenientes tanto da Rússia quanto da Ucrânia. Esta situação gera um ambiente de incerteza a curto e médio prazo para cobrir a demanda de fertilizantes utilizados na atividade agrícola que caracteriza vários países da região.

Neste sentido, o Brasil é um dos mais vulneráveis em meio a esta conjuntura, já que comercializa com a Rússia cerca de 80% do fornecimento necessário de fertilizantes.

Por sua vez, países como o Haiti, e inclusive os que também integram o Triângulo Norte (Guatemala, El Salvador, Honduras), entre outros, cujas capacidades agrícolas são limitadas, seja por falta de solos produtivos, secas contínuas, violência rural e deslocamento forçado, erosão das terras cultiváveis, falta de fontes hídricas, etc. se veem obrigados a importar a maioria de seus alimentos.

Por sua vez, esses preços são negociados atualmente em alta, seja pelo ambiente de guerra na Ucrânia, seja pelo atraso inflacionário que se acumula desde que a pandemia de COVID-19 desacelerou as economias do mundo de maneira drástica.

Isto significa que atualmente o mapa geográfico da crise alimentar nos países da América Latina e Caribe mostra focos de populações subnutridas, o que nos situa diante de um contexto de maiores desigualdades em termos de acesso a alimentos básicos, mas também em termos de possíveis situações de maior tensão socioeconômica, o que se atribui ao aumento de produtos essenciais para a atividade agrícola, como sementes e fertilizantes. A isto se somam os problemas de falta de rentabilidade para atrair a mão-de-obra necessária no setor agrícola.

Em síntese, as tensões atuais na Eurásia alimentam os divisionismos na forma de dois blocos que concorrem neste novo tabuleiro geopolítico, levando a uma maior polarização na arena internacional.

Ao mesmo tempo, ressurgem velhos e novos problemas substantivos à sobrevivência da raça humana, pois dizem respeito a um prato diário de comida, uma fonte de emprego, um teto para viver, permanência em um lugar em paz, e todos esses aspectos têm uma repercussão direta na América Latina e no Caribe.

* Este texto foi originalmente publicado no site da REDCAEM.

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