Efeitos colaterais da COVID-19 sobre a integração de A.L.

Em meados de novembro, durante um evento organizado pelo Banco Central da República Argentina, a secretária executiva da CEPAL comentou “que retrocedemos em termos de integração regional”. Alicia Bárcena tem toda a razão. A pandemia da COVID-19 produziu efeitos colaterais para os processos de integração regional. A COVID-19 desembarcou na América Latina e no Caribe em um momento de grande vulnerabilidade e fragilidade de suas economias e instituições multilaterais. Ela explodiu quando o regionalismo já estava em crise com a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) em processo de dissolução, a Comunidade dos Estados da América Latina e Caribe (CELAC) semiparalisada e um Mercado Comum do Sul (Mercosul) em busca de sua missão e sua futura inserção na economia global.

A pandemia tem repercussões multidimensionais para o regionalismo latino-americano.  Na esfera econômica, a pandemia aprofundou a crise. Após o fim do boom das matérias-primas, no período 2014-2019, a taxa de crescimento do PIB regional (0,4%) foi a menor desde a década de 1950. Segundo o prognóstico mais recente do FMI de outubro, o PIB da América Latina e do Caribe se contrairá em 8,1% em 2020 e se recuperará 3,6% em 2021. A médio prazo, lidar com a crise econômica dominará a política na América Latina.

A predominância do setor primário nas exportações dos países latino-americanos tem sido um grande obstáculo para alcançar uma maior regionalização econômica

A predominância do setor primário nas exportações dos países latino-americanos tem sido um grande obstáculo para alcançar uma maior regionalização econômica, baseada em setores industriais e na criação de cadeias de valor regionais. As sequelas da pandemia poderiam aumentar a dependência econômica da China e, assim, intensificar ainda mais a repressão das economias. Enquanto no primeiro semestre de 2020 as exportações da América Latina para os Estados Unidos (-19,5%) e a UE (-18,6%) caíram significativamente, a redução das exportações para a China foi muito menor (-1,0%); e as exportações do MERCOSUL para a China aumentaram em 13,2%. É marcante o caso do Brasil, onde a soja representou 43% das exportações para a China.

A crise causada pela COVID-19 tem um impacto negativo sobre o comércio intrarregional.  Segundo as estatísticas do BID-INTAL, os fluxos comerciais intrarregionais já haviam caído 8,3% em 2019. Como resultado da recessão causada pela COVID-19 no primeiro semestre de 2020, o comércio intrarregional caiu mais 23,2%. Como resultado, o coeficiente de comércio intrarregional para a América Latina caiu para 11%; com valores muito mais baixos a nível sub-regional (com exceção da América Central). Segundo os cálculos da CEPAL, a participação do comércio intrarregional no comércio total caiu para 9% no Mercosul, 7,3% na Comunidade Andina e 2,7% na Aliança do Pacífico. A título de comparação, na UE é superior a 60%. Para dar um novo impulso ao regionalismo latino-americano, a integração econômica deve ser promovida e aprofundada.

A crise da COVID-19 expôs impiedosamente os déficits estruturais do regionalismo latino-americano. Uma crise também pode ser uma oportunidade. Mas isto requer liderança e uma agenda comum. A União Europeia (UE), por exemplo, tem demonstrado que está preparada para reagir no caso de crises profundas. Parece que, em última instância, a pandemia tem conduzido a um fortalecimento da UE através de um pacote de revitalização econômica em uma escala sem precedentes que inclui um endividamento europeu comum para seu financiamento. Há também coordenação entre os estados-membros e a UE quando se trata de comprar vacinas.

Em contraste, a pandemia evidenciou mais uma vez as deficiências do regionalismo latino-americano.

Em contraste, a pandemia evidenciou mais uma vez as deficiências do regionalismo latino-americano. Atualmente, não há liderança suficientemente forte na América Latina (seja singular ou compartilhada) que possa promover projetos regionais ou acabar com a paralisia que algumas das organizações regionais estão sofrendo. Pior ainda, o que pode ser observado é uma liderança negativa do Brasil (e em alguns aspectos também do México) durante a pandemia. Nem o Brasil nem o México têm sido um modelo para lidar com a pandemia da COVID-19. O México, no âmbito de sua presidência pro tempore da CELAC, tentou ao menos colocar o assunto na agenda do debate latino-americano. O Brasil, por outro lado, renunciou a todas as reivindicações de liderança no tema da pandemia na agenda regional e não demonstrou nenhuma vontade de participar ativamente na formação do mundo posterior à COVID-19.

Na ausência de uma liderança regional, os atores externos poderiam impulsionar a integração regional. Mas também aqui a constelação internacional é bastante desfavorável. A UE, que apoiou processos de integração regional no passado, está atualmente muito ocupada consigo mesma e revela uma falta de visão estratégica a longo prazo. O acordo com o Mercosul poderia dar um maior protagonismo internacional a este bloco regional. Mas o acordo está no limbo por causa dos incêndios na Amazônia e do protecionismo para o setor agrícola da UE. Deve-se admitir também que a política populista de Bolsonaro e a crise permanente na Argentina não fazem do Mercosul um parceiro particularmente atraente no momento.

A atração econômica da China e a pressão política dos EUA estão tendo um efeito negativo sobre a integração regional.

A UE compete na América Latina com a China e os Estados Unidos. Embora esta competição possa ter efeitos positivos no regionalismo latino-americano, este não é o caso do conflito entre a China e os Estados Unidos. Enquanto a China utiliza a rápida recuperação econômica para expandir sua influência na América Latina, os Estados Unidos estão praticando uma política de contenção econômica em relação à China na região. Isto resultou em uma maior politização das relações comerciais com a América Latina. A atração econômica da China e a pressão política dos EUA estão tendo um efeito negativo sobre a integração regional. Em vez de fortalecer a coesão regional e conduzir a uma ação coordenada, as forças centrífugas estão aumentando.

A pandemia ainda não terminou. De uma perspectiva otimista, pode-se dizer que o processo de desintegração na América Latina, que culminou com a retirada de quase todos os países membros da UNASUL, não continuou. Mas parece que foi mais resultado da inércia institucional do que da resiliência do regionalismo latino-americano. Não houve uma resposta mais abrangente e coordenada para enfrentar os muitos desafios colocados pela pandemia.

Surge a pergunta de se as organizações regionais latino-americanas estão adequadamente preparadas e equipadas para os desafios do mundo pós-COVID-19. Em seu discurso, Alicia Bárcena lamentou que, no processo de reorganização econômica do mundo, “nossa região não define sua estratégia”. Existe o risco de que, como resultado da pandemia, o peso da América Latina na economia mundial continue diminuindo e seu papel se limite ao de um fornecedor de matérias-primas. A América Latina não tem voz no debate sobre os desafios atuais da política internacional e o futuro da ordem global. Atualmente não há razão para ser otimista.

*Tradução do espanhol por Maria Isabel Santos Lima

Foto de Gobierno de Chile en Foter.com / CC BY

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