O narcotráfico e a razão de Estado

Após os acontecimentos de 15 de julho na comunidade de San Simón, no município de Choix, México, que terminaram com a captura do narcotraficante Rafael Caro Quintero e a queda de um helicóptero que tirou a vida de catorze pessoas, os relatos dos governos mexicano e estadounidense estão repletos de contradições. Isto nos permite explorar o argumento de que por trás de toda esta rede heterogênea existem razões de Estado que pretendem fazer da contradição uma virtude.

O conceito de razão de Estado é geralmente associado a Nicolau Maquiavel, mas outros estudiosos o atribuem ao pensamento político do Cardeal Richelieu, que foi o primeiro a utilizá-lo de forma extensiva durante os séculos XV e XVI. Trata-se de uma fonte de poder para “usá-la quando necessário” a fim de garantir a sobrevivência de uma determinada ordem política, mas atendendo a uma suspeita ou um interesse conjuntural que recomenda não revelar aquilo que realmente aconteceu. Isto, sem considerar a natureza ética dos meios empregados.

O narcotráfico, ou mais especificamente a detenção de Caro Quintero, é matéria de razão de Estado? Sim. O narcotráfico tem arestas afiadas e basta saber que muito do que acontece neste mundo é desconhecido para as pessoas comuns, mesmo para os jornalistas que se dedicam a investigar e que frequentemente terminam fazendo conjecturas sobre os fatos ocultos por trás do evidente.

O caso Caro Quintero tem uma história de décadas desde que ele foi detido na Costa Rica e levado ao México para que prestasse contas sobre o narcotráfico e o assassinato do agente da DEA, Enrique “Kiki” Camarena. Depois desse acontecimento, ele passou 28 anos em prisões mexicanas, apesar do pedido de extradição do governo dos Estados Unidos.

A jornalista Anabel Hernández explicou que o Cartel de Guadalajara, do qual Caro era um dos líderes, tinha um pacto secreto com a DEA para trocar facilidades para o contrabando de drogas para o outro lado da fronteira em troca de financiamento da “contra” centro-americana. Isto nunca foi refutado ou sequer mencionado.

Mas há outro argumento sustentado pelo sociólogo Luis Astorga, que beira os limites de nossa sui generis “razão de Estado” e que tem a ver com a longa tradição da narco-política no México. Uma tradição que remonta a 1914 quando nos Estados Unidos as drogas duras deixaram de poder ser vendidas em farmácias como aspirinas. 

É evidente que a operação do cartel de drogas mexicano não teria sido possível sem as “permissões” correspondentes do poder daquele momento. Ou por acaso o cultivo de maconha em centenas de hectares com centenas de pessoas trabalhando no rancho chihuahuense  El Búfalo poderia ter ocorrido sem a anuência do poder político?

Até Manuel Bartlett, então Secretário do Interior (secretario de Gobernación), responsável pela política interna e hoje diretor da Comissão Federal de Eletricidade, teria um arquivo com a DEA porque supostamente esteve presente no interrogatório que terminou com o assassinato de Kiki Camarena, conforme relatado e ratificado em 2014 por duas testemunhas protegidas perante um juiz federal estadounidense. 

Ambas explicações poderiam não ser necessariamente excludentes, pois obedecem a uma mesma e poderosa lógica econômica. Por um lado, o governo mexicano é beneficário, até a presente data, de uma boa parte das remessas deste tipo de transações ilegais, e por outro, o estadounidense não apenas recebe a droga para seus consumidores, mas também uma boa parte do dinheiro. Em outras palavras, estaríamos lidando com um empreendimento multinacional, o crime de “colarinho branco”.

Assim, de acordo com esta teoria, as decisões tomadas de ambos os lados da fronteira nos levariam facilmente a concluir que, por trás do discurso sobre a detenção de Caro Quintero, oculta-se uma ordem que se mantém ao longo do tempo, e que continuará a ser sustentada por um interesse que vai além da honra de uma agência norte-americana.

Isto explicaria porque, no dia seguinte que a diretora da DEA, Anne Milgram, relatou que Caro Quintero havia sido preso e parabenizou os agentes, o embaixador estadunidense no México, Ken Salazar, negou diplomaticamente o envolvimento de seu país e reconheceu os fuzileiros mexicanos como responsáveis pela prisão. Desta forma, o governo estadunidense atuava em sintonia com o que o presidente Andrés López Obrador havia dito.

Além dessas contradições, também não se conhece os nomes e a identidade dos falecidos no acidente de helicóptero. Isto alimenta a suspeita de que agentes norte-americanos poderiam ter estado a bordo da aeronave e que, por razões de Estado, suas identidades não tenham sido reveladas.

Outra curiosidade do episódio é que a própria DEA tinha a bandeira estadunidense a meio mastro em sua sede quando soube-se da queda da aeronave mexicana. E esta teoria ganhou nova vida após a publicação pelo The Washington Post de que havia agentes da DEA na casa onde Caro Quintero foi capturado.

Em suma, por trás do conjunto de informações sobre o ocorrido esse meio-dia, começam a surgir fatos que poderiam confrontar uma razão de Estado em ambos os lados da fronteira.

Em suma, o affaire Caro Quintero está aberto com seus aspectos claros, mas também com suas zonas opacas, o que neste caso dá força à hipótese de que desde sua origem tem componentes de razão de Estado para ambos os países.

*Tradução do espanhol por Giulia Gaspar. 

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