Os critérios turvos dos EUA para destacar os corruptos centro-americanos

Recentemente, os Estados Unidos lançaram uma nova versão da Lista Engels. Isto, em teoria, é considerado um primeiro passo da escalada na perseguição aos corruptos centro-americanos que poderiam no futuro ser incluídos na lei Magnitsky, que persegue os estrangeiros acusados de corrupção e violações dos direitos humanos, ou em alguma outra “invenção” gringa para castigar corruptos estrangeiros infiéis a Washington ou simplesmente irrelevantes. Cada vez que uma nova lista aparece, os novos integrantes são geralmente personagens de segunda ou os chamados “idiotas úteis”, enquanto os “peixes grandes”, ideólogos dos mais variados atos de corrupção, nunca aparecem.

O “monge negro” do juanorlandismo

Em Honduras, ninguém ignora o papel que personagens como Ebal Jair Díaz Lupián, outrora temido Ministro da Presidência durante a última administração do Partido Nacional, cumpriram ao longo de vários anos. Entretanto, nem este nem outros personagens desta estatura aparecem nas listas. Ebal Díaz era algo como um “monge negro” do governo de Juan Orlando Hernández, mas pouco antes da entrega do poder ele cruzou para a Nicarágua para refugiar-se. Em junho, foi tornado público que o governo de Daniel Ortega lhe concedeu a cidadania, como fez com Ricardo Leonel Cardona López, outro “fugitivo”, ex-secretário particular da Presidência.

Outros personagens que não aparecem na lista são os que estavam incluídos na lista que a extinta Missão de Apoio contra a Corrupção e a Impunidade em Honduras (MACCHI) tinha em arquivo. Isso, antes de ser desmantelada pela imprudência de seu ex-chefe, o peruano Juan Jiménez Mayor, ao expressar publicamente estavam investigando cerca de 60 deputados e ex-deputados do Congresso Nacional, entre eles seu presidente, Mauricio Oliva, que desde então vive em um autoexílio dourado em sua própria casa, em Choluteca, no sul do país.

Segundo as investigações, Oliva e o agora ex-presidente Hernández, haviam sido a cabeça do esquema com os tristemente famosos hospitais móveis para combater a Covid-19, junto com as ex-ministras Rocío Tábora (Finanças) e Alba Consuelo Flores (Saúde).

Embora a não inclusão de corruptos do mais alto nível do regime juanorlandista possa ser um sinal, a inclusão de três personagens de relevância do novo governo de esquerda de Xiomara Castro é uma chamada de atenção. De fato, após vários anos sem embaixador estadunidense em Tegucigalpa, a nova representante, Laura Dogu, disse: “não queremos esse tipo de gente nos Estados Unidos e se há recursos que eles receberam de atividades de corrupção, também não queremos esse tipo de dinheiro nos EUA, é um sistema muito amplo”.

El Salvador e Guatemala

Nos outros dois países do Triângulo Norte, zona que tem o “privilégio” de ser objeto da Lista Engels, as coisas são um pouco diferentes. Ali, para “domar” um pouco dois presidentes relutantes ou diretamente rebeldes às “indicações” de Washington, a lista inclui personagens muito próximos de Bukele e Giammattei. Não basta dar-lhes um sinal, e a lista tem apontado para personagens muito próximos aos presidentes.

Em 2021, com sua primeira versão, a Lista Engel havia causado inquietude no entorno íntimo do presidente salvadorenho Nayib Bukele. Em julho daquele ano, Washington nomeou vários dos funcionários de maior confiança do mandatário, entre eles seu chefe de gabinete, seu ministro do trabalho, seu secretário jurídico e seu ex-ministro da agricultura, que também é seu amigo de toda a vida.

Na nova versão, aparecem, entre outras, várias pessoas próximas a Bukele, como Ernesto Sanabria, secretário de imprensa do presidente, e Christian Guevara, chefe da bancada legislativa de Nuevas Ideas, o partido do oficialismo. Em 2021, os protestos de Nayib e de seus partidários foram barulhentos, mas nesta ocasião, houve mais silêncios do que gritos.

Na Guatemala, por outro lado, a Lista Engels “cai” em meio a um pleito do governo do presidente Alejandro Giammattei com Washington pela defenestração impulsionada a partir da casa de Governo, de juízes e promotores que investigaram políticos e empresários próximos ao poder político-institucional, e ao lobby insistente desses setores na capital gringa, contra essas indagações “irritantes”.

Entretanto, nesta versão da lista, o Departamento de Estado foca mais nos parceiros privados do governo do que nos funcionários públicos. Destes últimos, destaca-se a inclusão do advogado Rafael Curruchiche, a quem a Procuradora Geral Consuelo Porras – incluída em uma versão anterior da lista – nomeou chefe do Ministério Público Especial contra a Impunidade (FECI) para substituir Juan Francisco Sandoval, atualmente exilado em Washington por ter “tocado” de perto o Presidente Giammattei em uma investigação que o implicou em subornos de empresas mineradoras russas.

Além dos indicados, o diretor do Escritório de Assuntos Centro-Americanos do Departamento de Estado dos EUA, Patrick Ventrell, esclareceu que esta lista, que inclui personagens destes três países, é uma ferramenta na luta contra a corrupção na região e advertiu que, se estas práticas continuarem, o Governo poderá emitir sanções permanentes ou financeiras contra os indicados. O que o funcionário não detalhou foram os critérios do Departamento para a seleção dos escolhidos.

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