Pós-Bolsonarismo: o tiro pela culatra?

Poderia a agressão terrorista das multidões bolsonaristas contra os pilares do sistema institucional brasileiro ter sido um presente inesperado que favoreça a consolidação da democracia nesse país?

Auto-convocados pelas redes sociais, inspirados por quatro anos de pregação anti-política e anti-democrática do ex-presidente Bolsonaro durante o seu mandato, e alimentados por bloggers e influenciadores digitais que cultivam fake news contra juízes, líderes progressistas e o pluralismo político, entre quatro e seis mil pessoas radicalizadas lançaram-se com paus, pedras e facões (e certamente algumas armas escondidas) para invadir e destruir a infraestrutura do Congresso, do Poder Judiciário e uma parte do Executivo em Brasília. 

Este episódio – o ponto culminante de uma série de manifestações cada vez mais violentas e anti-cívicas por parte dos apoiadores do ex-presidente – ocorreu no domingo 8 de janeiro de 2023, uma semana depois da tomada de posse de Lula como presidente. Por conseguinte, não teve a intenção de impedir a transferência de poder, mas sim foi basicamente um ato de repúdio puramente expressivo e caótico contra poderes e protagonistas institucionais da democracia brasileira.

Patrocinado por aliados militares e policiais, cúmplices do setor do agronegócio, da exploração madeireira e da mineração ilegal, mais alguns outros líderes empresariais e seitas evangélicas radicalizadas associadas ao candidato derrotado nas eleições de 2022, o movimento subversivo foi criado – inicialmente – a fim de manter Bolsonaro no centro da esfera pública.

Desta forma, os extremistas pretendiam perpetuar o monopólio representativo da direita e da extrema direita, concentrando no ex-presidente a oposição ao novo governo do PT. Assim, se consolidaria o desequilíbrio causado há quase uma década, quando o PSDB (a antiga base de líderes nacionais como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os governadores José Serra, Geraldo Alckmin, Franco Montoro e Mário Covas), que reunia a representação do centro e centro-direita, e contrabalançava o PT na competição eleitoral ordenando e organizando o sistema político brasileiro durante 30 anos, abdicou das suas capacidades gerenciais e ambições políticas. 

Sob o controle de figuras menores, o PSDB deixou de ser uma força ancorada em propostas programáticas para se estabelecer exclusivamente em denúncias moralistas ocas e hipócritas, onde os adversários de centro-esquerda e de esquerda eram denunciados como profanadores do sagrado. Isto abriu o caminho para a ascensão do fundamentalismo bolsonarista.

No entanto, com Bolsonaro fora do país em um auto-exílio encoberto e com a surpreendente autonomia demonstrada na sua invasão e depredação dos símbolos da democracia republicana no domingo passado, este movimento de pessoas radicalizadas acabou protagonizando o ato fundador de um bolsonarismo sem Bolsonaro. O Brasil é um país habituado a negociar entre poucas elites as suas mudanças sistêmicas e institucionais mais substantivas, desde a sua independência de Portugal até ao fim da escravatura, passando pela transição da monarquia para a república, e inclusive durante as várias metamorfoses entre democracia tutelar e ditadura. Este movimento, entretanto, só pôde gerar – mesmo entre as lideranças mais à direita – um sentimento de desconforto pelo menos, se não abertamente reativo ao ver uma multidão histérica que transgride os seus supostos líderes e comandantes.

A anomia destrutiva e o fanatismo apocalíptico encenados pelos atacantes, junto com suas coreografias circenses de rituais militares, surtos histéricos e gritos de guerra, não só lembram os trumpistas que invadiram o Congresso norte-americano há dois anos, como também a rebelião violenta das hostes kirchneristas e de esquerda radicalizadas que atacaram o Congresso em 2017 com mais de 14 toneladas de pedras e escombros no momento em que se legislava uma reforma previdenciária.

Lembram ainda mais os encantadores relatos de Vargas Llosa no seu livro A Guerra no Fim do Mundo sobre a loucura monarquista romântica e ultramontana dos seguidores do Padre Antônio Conselheiro em Canudos, em reação à ascensão da república. Histórias repletas de delírios dogmáticos, crenças em superstições medievais e abraçando um pensamento que era tão mágico quanto violento. Sem dúvida, Canudos constituiu um episódio tão alucinante e que retrata o célebre realismo mágico literário como um fenômeno trágico do Brasil nordestino durante finais do século XIX.

A ascensão do pós-bolsonarismo, consagrado pelos recentes ataques e que gerou algumas celebrações intoxicadas nas redes sociais, deve satisfazer muito poucas das suas esperanças. Provavelmente assemelha-se mais a um lapso catártico e caótico do que a um fator de pressão com o seu próprio peso e longa vida. Todas as evidências sobre a maioria dos seus participantes advertem que se trata de um fenômeno quase psiquiátrico: são a multidão desfeita e solitária de que David Riesman já falava no século passado. Indivíduos em busca de sentido e de uma missão comunitária a qualquer custo, abraçados por uma identidade maximalista, fanática, cheia de certezas, acrítica, zero reflexiva e sem fissuras ou ambiguidades. Em suma, o mesmo terreno fértil que alimentou o fascismo e o nazismo.

Apesar do tácito apoio passivo despertado entre algumas forças policiais, o pós-bolsonarismo violento e anárquico deverá acelerar o desencanto da classe média conservadora com a extrema-direita, facilitando ao novo governo a limpeza da colonização de entidades estatais implementadas por Bolsonaro. Deve também galvanizar a classe política e principalmente o poder legislativo em torno da democracia e do projeto de reconstrução liderado por Lula e Alckmin, e liquidar as fontes de financiamento do golpismo e outras expressões anti-sistema.

O nascimento do bolsonarismo sem Bolsonaro, envolto no seu traje verde e amarelo e na camiseta da seleção nacional, pode ter sido – paradoxalmente – um presente para a consolidação da democracia brasileira.

Nossa Newsletter

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com