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O desafio de reconstruir o coletivo para fortalecer a democracia latino-americana

O crescente desencanto da população com democracias incapazes de garantir bem-estar, representatividade e um futuro comum coloca à prova a estabilidade política e social da América Latina.

A democracia latino-americana atravessa um profundo paradoxo. Nunca antes tantos países da região mantiveram regimes formalmente democráticos por tanto tempo e, ao mesmo tempo, nunca antes o desencanto dos cidadãos com o seu funcionamento foi tão evidente. O novo Relatório Democracia e Desenvolvimento 2026 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) parte precisamente dessa tensão: a América Latina e o Caribe continuam sendo a região em desenvolvimento mais democrática do mundo, mas suas democracias estão cada vez mais sob pressão.

Essa pressão não pode ser explicada só pela deterioração institucional ou pelo retrocesso eleitoral. Como já alertava o relatório do The Global State of Democracy 2025 de IDEA Internacional, a erosão do Estado de Direito, o declínio da confiança pública e o enfraquecimento das liberdades fundamentais são fenômenos globais. Mas, na América Latina, essas tendências assumem uma intensidade particular porque se combinam com desigualdades estruturais, fragilidade estatal e crises persistentes de representação política.

A principal contribuição do novo relatório do PNUD reside precisamente em deslocar o debate de uma visão estritamente liberal da democracia para uma compreensão mais abrangente, onde democracia, desenvolvimento humano e capacidade estatal formam um triângulo inseparável. A democracia não pode mais ser concebida apenas como competição eleitoral, separação de poderes e liberdades civis. Ela também deve ser avaliada por sua capacidade de garantir bem-estar, proteção, igualdade e um futuro compartilhado.

Aqui reside um dos problemas centrais de nosso tempo: a desilusão com uma democracia que mantém os procedimentos, mas perde a eficácia social. Os cidadãos latino-americanos não abandonaram necessariamente a democracia como valor normativo; o que está se corroendo é a confiança em sua capacidade concreta de melhorar as condições de vida. O próprio relatório indica que menos da metade da população se declara satisfeita com o funcionamento da democracia e que mais de 70% percebem que os governos respondem a interesses particulares.

O problema, portanto, não é apenas institucional. É profundamente material. Quando o Estado perde sua capacidade de garantir segurança, emprego, proteção social, acesso à moradia ou estabilidade econômica, a democracia começa a se esvaziar de seu conteúdo social. O voto permanece, mas a percepção da política como ferramenta de transformação da realidade está se enfraquecendo.

Na América Latina, essa crise se manifesta como um déficit de capacidade estatal. Por décadas, a região conseguiu consolidar eleições competitivas, expandir liberdades e fortalecer mecanismos formais de representação. Contudo, esses avanços coexistiram com Estados territorialmente fragmentados, sistemas fiscais frágeis, altos níveis de desigualdade e uma crescente incapacidade de responder às novas demandas sociais. É aqui que surge uma das tensões mais perigosas para a legitimidade democrática contemporânea: democracias eleitoralmente persistentes, mas socialmente erodidas.

Essa erosão também afeta a representação política. A atual crise democrática é, em grande medida, uma crise de intermediação social. Os partidos tradicionais estão perdendo capacidade organizacional, as identidades políticas estão se fragmentando e a liderança está se tornando cada vez mais personalista, emocional e efêmera. A representação deixa de funcionar como uma ponte entre a experiência social e os projetos políticos coletivos.

A demanda por representação não desaparece; as estruturas capazes de organizá-la, sim. O resultado é uma cidadania marcada por raiva difusa, volatilidade eleitoral e desconfiança nas instituições. A política se transforma progressivamente em gestão de emergências, enquanto sua capacidade de produzir narrativas para o futuro se enfraquece. Isso cria terreno fértil para o surgimento de líderes com profecias messiânicas, bem como para a substituição do Estado pelo crime organizado como provedor de bens e serviços.

O relatório do PNUD também alerta para outra dimensão central: a intensificação da polarização política e o colapso do consenso mínimo necessário para a resolução democrática de conflitos. Redes digitais, fragmentação da informação e a expansão dos ecossistemas de desinformação aprofundam essa dinâmica. Em sociedades cada vez mais desiguais e precárias, a polarização deixa de ser meramente ideológica e se torna uma experiência cotidiana de fragmentação social.

Nesse contexto, emerge outro fenômeno profundamente contemporâneo: a consolidação de uma cidadania isolada e individualizada, com pouca visão de futuro. A precariedade econômica, a insegurança, o enfraquecimento dos laços coletivos e a incerteza constante levam os indivíduos a se isolarem cada vez mais em suas próprias estratégias de sobrevivência. A democracia, assim, perde uma de suas dimensões mais importantes: a capacidade de organizar expectativas compartilhadas.

Sem uma visão coletiva, o espaço democrático se esvazia simbolicamente. Os cidadãos não vivenciam mais a política como uma ferramenta de transformação, mas sim como uma gestão limitada de crises permanentes. O desencanto deixa de ser apenas político e se torna também emocional e existencial. A era pós-pandemia, sem dúvida, desencadeou traumas profundos em sociedades onde, infelizmente, a saúde mental não é considerada uma questão de saúde pública.

Mas a crise democrática latino-americana não pode mais ser analisada apenas sob a perspectiva das dinâmicas internas. As fragilidades econômicas e estatais também aumentam a vulnerabilidade regional a novas formas de intervenção geopolítica. O apoio financeiro do governo Trump ao governo argentino antes das eleições de meio de mandato de 2025, acompanhado de declarações que implicitamente condicionavam esse apoio à continuidade das vitórias eleitorais do partido governista, demonstrou até que ponto as democracias endividadas podem se tornar arenas de pressão política externa.

Ao mesmo tempo, a securitização das políticas migratórias em direção à América Central, em contextos pré-eleitorais como o de Honduras, demonstra como a mobilidade humana começa a ser utilizada como mecanismo de controle regional.

As expectativas geopolíticas em relação aos próximos ciclos eleitorais em países como Brasil e Colômbia também revelam uma crescente internacionalização das disputas políticas latino-americanas. Por exemplo, na Colômbia, quase 80% dos eleitores de Gustavo Petro em 2022 acreditam ser fundamental que o próximo presidente mantenha um bom relacionamento com o governo dos Estados Unidos.

Nesse cenário, a América Latina e o Caribe enfrentam uma dupla pressão: internamente, a erosão da legitimidade, da representatividade e da capacidade estatal; externamente, novas formas de condicionamento geopolítico se aproveitam dessas fragilidades estruturais.

O desafio para a região não é apenas defender a democracia contra ameaças autoritárias, mas também reconstruir as condições sociais, institucionais e simbólicas que permitam que ela seja vivenciada novamente como uma promessa coletiva para o futuro. Porque onde a democracia perde a sua capacidade de gerar bem-estar, representação e esperança, começa também a perder a sua soberania.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

Secretaria de Relaciones internacionales e Integración del Parlamento del MERCOSUR. Miembro de la Red de Politólogas.

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