A América Latina e o Caribe são a região mais democrática do mundo em desenvolvimento. Suas democracias — embora em construção — são hoje o sistema político predominante na região; mas nem sempre foi assim. O fato de mais de quatro em cada cinco pessoas viverem hoje em países cujos governos foram eleitos democraticamente, mais do que um dado estatístico, representa uma conquista histórica resultante de um esforço coletivo: movimentos sociais, acordos políticos, transições profundas e vontade compartilhada de avançar o desenvolvimento através da democracia e de resolver as diferenças políticas pacificamente no âmbito de regras comuns.
Hoje, mesmo que a maioria da população expresse preferência pela democracia como sistema político, menos da metade se declara satisfeita com seu funcionamento. Eis um primeiro alerta do Relatório sobre Democracia e Desenvolvimento 2026 do PNUD: o fato de as democracias perdurarem na América Latina e no Caribe não garante sua sustentabilidade. Esta depende também de sua capacidade de responder de maneira eficaz às expectativas da cidadania.
A distância entre o voto e a vida cotidiana
Essa percepção expressa algo mais profundo do que um descontentamento conjuntural. Fala-se de um desencanto e de uma distância crescente entre as instituições e os cidadãos, cujas expectativas evoluíram, em parte, como resultado da própria expansão democrática e do progresso em matéria de desenvolvimento humano. Há uma alta participação eleitoral, o que demonstra uma vocação democrática, mas milhões de pessoas sentem que, após as eleições, suas demandas não têm peso nas decisões públicas, enquanto as desigualdades, a insegurança e a falta de serviços de qualidade limitam suas oportunidades. A democracia não é valorizada apenas por suas regras, mas por sua capacidade de melhorar a vida das pessoas.
A oportunidade de criar um triângulo virtuoso: democracia, desenvolvimento humano e Estado
Portanto, democracia, desenvolvimento humano e Estado não podem ser considerados separadamente: a democracia abre espaço para deliberar e tomar decisões coletivas. O desenvolvimento humano permite que as pessoas ampliem suas capacidades, exerçam seus direitos e participem com maior autonomia. O Estado é a ponte que transforma essas decisões em políticas eficazes e resultados tangíveis na vida das pessoas. Quando esse vínculo é renovado e reforçado, ele tem o potencial de gerar uma dinâmica virtuosa. Quando falha, cresce a frustração da população.
Nas últimas décadas, esse vínculo na região tem sido imperfeito. Foram alcançados avanços importantes em matéria de desenvolvimento humano, por meio de melhorias na saúde, na educação e na renda. Além disso, os direitos foram ampliados e os sistemas de proteção social foram fortalecidos. No entanto, o progresso não atingiu todos os setores com a mesma intensidade. Mais de 70% da população considera que os governos atendem principalmente a interesses particulares. Essa percepção de desigualdade não afeta apenas o bem-estar material. Ela também altera o funcionamento da democracia, pois determina quem tem capacidade real de influenciar, reivindicar e ser ouvido.
Desigualdade econômica e desigualdade política
Quando a desigualdade econômica se traduz em influência política desigual, a representação fica distorcida. Alguns grupos conseguem ter muito mais peso do que outros na agenda pública, enquanto amplos setores ficam à margem das decisões e de seus efeitos. A crise de representação dos partidos políticos abre caminho para lideranças personalistas e sem enraizamento, que aprofundam essa brecha. A essa tensão somam-se novas pressões, como a crescente polarização tóxica, a aceleração tecnológica e o impacto da IA no debate público e no ecossistema informativo. A discordância é parte essencial de qualquer sociedade plural, mas a possibilidade de lidar pacificamente com o conflito se rompe quando o adversário deixa de ser visto como um concorrente legítimo para se tornar uma ameaça existencial. Nesse clima, a política perde sua função básica: organizar as diferenças sem transformá-las em ruptura.
A transformação digital também está mudando a vida democrática. As redes sociais já são uma fonte central de informação, embora mais de 60% das pessoas afirmem desconfiar delas. Essa contradição marca boa parte do debate público atual. A desinformação, a manipulação algorítmica, a violência digital e a falta de ética no uso da inteligência artificial fragmentam o tecido social, empobrecem a deliberação cidadã e podem minar a confiança eleitoral.
Pressões que não podem mais ser tratadas separadamente
O crime organizado representa uma ameaça ainda mais direta. Em vários territórios, ele já não atua apenas como uma rede ilegal dedicada a atividades ilícitas. Ele disputa a autoridade com o Estado, impõe regras, condiciona lideranças locais, financia campanhas e captura espaços institucionais. Quando o Estado não garante segurança nem direitos, outros poderes ocupam esse vácuo. O resultado não é apenas mais violência, mas uma democracia com menos liberdade real para participar e decidir.
A mobilidade humana em escala regional e intrarregional revela outra faceta dessas tensões. Muitas pessoas migram porque não encontram oportunidades, proteção ou estabilidade em seus países. Ao mesmo tempo, a migração tornou-se terreno fértil para discursos de rejeição. Em 2024, pouco mais da metade dos latino-americanos considerava prejudicial a chegada de imigrantes ao seu país. Esse dado mostra como a incerteza pode se transformar em medo e esse medo, em exclusão, corroendo a solidariedade e enfraquecendo os alicerces da convivência democrática.
A crise climática aponta na mesma direção. No Caribe, cada furacão, choque econômico ou crise de segurança atinge pequenos Estados, endividados e altamente expostos a desastres naturais. Em toda a região, a poluição e a perda de biodiversidade obrigam a decidir quem arca com os custos das transições e quem tem voz nessas decisões. Parte do futuro democrático da América Latina e do Caribe também se define ali.
Renovar a democracia diante do avanço do desencanto
O maior risco para as democracias na América Latina e no Caribe já não são rupturas abertas da ordem democrática, como no passado, mas sua erosão e esvaziamento a partir de dentro. Em muitos casos, a deterioração pode avançar de forma gradual, com instituições que continuam funcionando, eleições que são realizadas e governos que se alternam, mas com uma cidadania cada vez mais convencida de que o sistema não responde. Esse desgaste silencioso pode acabar sendo tão prejudicial quanto as crises mais visíveis.
Diante dessa realidade, o desafio não é substituir a democracia, mas renová-la. Não se trata de almejar transformações integrais imediatas, mas de identificar áreas nas quais diferentes ações estrategicamente orientadas possam impulsionar dinâmicas positivas, quebrar ciclos viciosos e contribuir para reconstruir a legitimidade do sistema democrático.
Para isso, é necessário proteger, antes de tudo, as condições de competição política, especialmente por meio da integridade eleitoral como base da legitimidade democrática. Isso implica corrigir distorções na distribuição do poder: fortalecer a independência dos órgãos de fiscalização, limitar a influência indevida do dinheiro na política, recuperar a capacidade de representação dos partidos e proteger o ecossistema informativo e a qualidade do debate público.
Também requer Estados com presença real no território e instituições e políticas resilientes, capazes de sustentar avanços quando surgem as crises.
A região ainda está a tempo de transformar a pressão em renovação e o desencanto em impulso democrático. Essa será uma das tarefas decisivas desta geração.
A América Latina e o Caribe já demonstraram que podem mudar sua trajetória política quando agem coletivamente pelo bem comum. Fizeram isso ao deixar para trás boa parte dos autoritarismos do século XX, avançar em desenvolvimento e igualdade e ampliar os direitos democráticos. Agora, ela enfrenta uma tarefa diferente: fazer com que a democracia seja revalorizada como o melhor sistema conhecido para ampliar oportunidades, proteger liberdades e responder às demandas dos cidadãos.
O futuro da democracia e do desenvolvimento dependerá, em última instância, de nossa capacidade coletiva de sustentar esse esforço. A região ainda está a tempo de transformar a pressão em renovação e o desencanto em impulso democrático. Essa será, sem dúvida, uma das tarefas decisivas desta geração.
Este artigo apresenta um resumo do Relatório sobre Democracia e Desenvolvimento, intitulado “Democracias sob pressão: Reimaginando os futuros da democracia na América Latina e no Caribe 2026”, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na América Latina e no Caribe.










